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Prado - O poder das alianças

 

Agronegócio e agricultura familiar estabelecem modelo inovador de parceria


Foi um acontecimento histórico. O aroma da galinhada exalava na recepção aos convidados no Assentamento Jaci Rocha, município do Prado (BA), quando chegaram as lideranças dos dois lados em questão: o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e a Fibria, multinacional brasileira produtora de celulose e papel que detém quase 170 mil hectares no Extremo-Sul da Bahia. Não faz muito tempo, encontros do gênero só aconteciam nos corredores da Justiça para a solução litigiosa de conflitos. Desta vez, o motivo era de festa: a inauguração de uma escola agroflorestal para jovens de assentamentos da região e outras partes do Brasil, destinada a fomentar práticas sustentáveis e uma nova cultura no campo.

Em negociação inédita, a empresa -- proprietária da fazenda ocupada há 12 anos pelos sem-terra -- abriu mão de novas ações de reintegração de posse e terá a área desapropriada para investir no projeto agroecológico durante cinco anos, encerrando o conflito e beneficiando 1,2 mil famílias. “Muda-se a relação entre capital e trabalho”, analisa Paulo Kageyama, pesquisador da ESALQ, da Universidade de São Paulo. Ele orienta os assentados na produção de alimentos em sistemas agroflorestais, sem uso de agrotóxico e com a conservação da Mata Atlântica – ambiente natural que fornece água e condições de clima essenciais à sustentabilidade futura do próprio eucalipto do entorno.

“É um divisor de águas no convívio do agronegócio com a agricultura familiar”, afirma José Penido, presidente do conselho de administração da empresa. A questão, diz ele, é de consciência, mas também sustentabilidade, sobrevivência do negócio. “A estratégia é superar antagonismos e encarar os problemas historicamente agudos no Sul da Bahia”, ressalta o executivo. Ao seu lado, Márcio Matos, da direção nacional do MST, despacha: “Chegamos um novo paradigma de negociação sobre passivos, diálogo que surgiu a partir de relações extremamente conflituosas e se repetirá junto às demais empresas do setor”.

A iniciativa ilustra a força das alianças como estratégia de gestão na transição para “economia verde” – diálogo, aliás, que se destacou como aspecto positivo em meio às frustrações da Rio+20, o encontro sobre desenvolvimento sustentável realizado em junho pela ONU. Diante das urgências ambientais e sociais, já não é possível depender apenas de governos ou ações isoladas das empresas. “Caiu a ficha para a importância da união em torno de compromissos mútuos”, enfatiza Beto Mesquita, da ONG Conservação Internacional, membro do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, do qual participam prefeituras, propriedades rurais, sindicatos, centros de pesquisa e conglomerados empresariais.

“Percebeu-se que o problema do bioma, mais que o desmatamento, é a necessidade de sua recuperação como forma de se gerar negócios, conservar recursos e reduzir impactos futuros às atividades econômicas”, explica Mesquita. A partir de uma metodologia aprovada tecnicamente, a meta é recompor 15 milhões de hectares até 2050.

A expressão “responsabilidade compartilhada” vira moda. No caso da soja, a cobrança internacional após campanhas ambientalistas junto a redes de fastfood na Europa forçou o setor a se aliar a ONGs e governo para sair da inércia. “Passamos a ser proativos e declaramos ao mercado que não compraríamos grãos produzidos em áreas desmatadas depois de julho de 2006”, conta Carlo Lovatelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais. Lançada quando o desmatamento atingia recordes na Amazônia, a Moratória da Soja criou um sistema de monitoramento por satélite, sobrevoo e vistoria de campo, acompanhado por um comitê. “Descobrimos o ovo de Colombo”, diz o executivo, recordando-se do dia em que os ambientalistas pela primeira vez se sentaram à mesa com os empresários do setor: “ foi uma reunião difícil e tensa, porque a relação até então era muito litigiosa”.

O modelo chega à construção civil. Após nove meses de negociação, em março o governo federal assinou com sindicatos patronais e de trabalhadores um compromisso para a melhoria das condições de trabalho. Nove empreendimentos aderiram ao acordo, que obriga a qualificação e a contratação sem intermediários que exploram a mão-de-obra. “A iniciativa induz mudanças na relação capital-trabalho em um dos setores que mais geram empregos no Brasil”, justifica José Lopez Feijóo, assessor da Secretaria Geral da Presidência da República. Além do ganho social, diz ele, o resultado é “o aumento da produtividade e o diferencial de mercado para as empresas”. Órgãos do governo federal que licitam grandes obras planejam inserir a adesão ao compromisso como condicionante nos contratos.

Igual estratégia se aplicou ao setor da cana de açúcar, cujo acordo, assinado por 300 empresas com aval do governo federal, valerá até o ano que vem com auditorias de campo que conferirão um selo de boas práticas. A iniciativa se complementa ao protocolo sobre etanol verde, gerido pelo governo estadual de São Paulo com meta de eliminar a queima da cana até 2014 para áreas mecanizáveis e 2017 para as demais. Hoje 34,8% da colheita se dá através de queimadas – a metade em relação há quatro anos, quando o pacto foi lançado. A iniciativa inspirou neste ano a assinatura de um protocolo também para o setor florestal, no qual empresas proprietárias de 50% das florestas plantadas com eucalipto no Estado se submetem a regras para produzir sem esgotar recursos naturais.

“Através do consenso se chega mais rápido aos resultados”, diz Carlos Beduschi, da Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo, ressaltando que a prioridade é a orientação, não o comando-controle. “Organizações inovadoras têm predisposição a alianças e parcerias”, avalia Wilson Nobre, da Fundação Getúlio Vargas, para quem “problemas complexos só podem se resolvidos de maneira colaborativa e participativa”.

É o que começa a acontecer na produção de carne, após a criação do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável, reunindo frigoríficos, redes de supermercados, instituições financeiras, organizações ambientalistas e governo – no total, até o momento, de 30 signatários. O objetivo é alcançar o desmatamento zero, através de mecanismos de compensação e incentivos. “Meio ambiente e produção não são necessariamente antagônicos, como se pensava antes”, destaca Michael Becker, do WWF Brasil. Ele acrescenta: “a maior sensibilidade de ambos os lados abre espaço para inovação, oportunidades e geração de valor”. No Pará, o pacto articulado pelo Ministério Público Federal junto a pecuaristas e prefeituras ajudou a reduzir o desmatamento em 40% desde 2009.

 

Publicado originalmente no Valor Econômico

Foi um acontecimento histórico. O aroma da galinhada exalava na recepção aos convidados no Assentamento Jaci Rocha, município do Prado (BA), quando chegaram as lideranças dos dois lados em questão: o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e a Fibria, multinacional brasileira produtora de celulose e papel que detém quase 170 mil hectares no Extremo-Sul da Bahia. Não faz muito tempo, encontros do gênero só aconteciam nos corredores da Justiça para a solução litigiosa de conflitos. Desta vez, o motivo era de festa: a inauguração de uma escola agroflorestal para jovens de assentamentos da região e outras partes do Brasil, destinada a fomentar práticas sustentáveis e uma nova cultura no campo.

Em negociação inédita, a empresa -- proprietária da fazenda ocupada há 12 anos pelos sem-terra -- abriu mão de novas ações de reintegração de posse e terá a área desapropriada para investir no projeto agroecológico durante cinco anos, encerrando o conflito e beneficiando 1,2 mil famílias. “Muda-se a relação entre capital e trabalho”, analisa Paulo Kageyama, pesquisador da ESALQ, da Universidade de São Paulo. Ele orienta os assentados na produção de alimentos em sistemas agroflorestais, sem uso de agrotóxico e com a conservação da Mata Atlântica – ambiente natural que fornece água e condições de clima essenciais à sustentabilidade futura do próprio eucalipto do entorno.

“É um divisor de águas no convívio do agronegócio com a agricultura familiar”, afirma José Penido, presidente do conselho de administração da empresa. A questão, diz ele, é de consciência, mas também sustentabilidade, sobrevivência do negócio. “A estratégia é superar antagonismos e encarar os problemas historicamente agudos no Sul da Bahia”, ressalta o executivo. Ao seu lado, Márcio Matos, da direção nacional do MST, despacha: “Chegamos um novo paradigma de negociação sobre passivos, diálogo que surgiu a partir de relações extremamente conflituosas e se repetirá junto às demais empresas do setor”.

A iniciativa ilustra a força das alianças como estratégia de gestão na transição para “economia verde” – diálogo, aliás, que se destacou como aspecto positivo em meio às frustrações da Rio+20, o encontro sobre desenvolvimento sustentável realizado em junho pela ONU. Diante das urgências ambientais e sociais, já não é possível depender apenas de governos ou ações isoladas das empresas. “Caiu a ficha para a importância da união em torno de compromissos mútuos”, enfatiza Beto Mesquita, da ONG Conservação Internacional, membro do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, do qual participam prefeituras, propriedades rurais, sindicatos, centros de pesquisa e conglomerados empresariais.

“Percebeu-se que o problema do bioma, mais que o desmatamento, é a necessidade de sua recuperação como forma de se gerar negócios, conservar recursos e reduzir impactos futuros às atividades econômicas”, explica Mesquita. A partir de uma metodologia aprovada tecnicamente, a meta é recompor 15 milhões de hectares até 2050.

A expressão “responsabilidade compartilhada” vira moda. No caso da soja, a cobrança internacional após campanhas ambientalistas junto a redes de fastfood na Europa forçou o setor a se aliar a ONGs e governo para sair da inércia. “Passamos a ser proativos e declaramos ao mercado que não compraríamos grãos produzidos em áreas desmatadas depois de julho de 2006”, conta Carlo Lovatelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais. Lançada quando o desmatamento atingia recordes na Amazônia, a Moratória da Soja criou um sistema de monitoramento por satélite, sobrevoo e vistoria de campo, acompanhado por um comitê. “Descobrimos o ovo de Colombo”, diz o executivo, recordando-se do dia em que os ambientalistas pela primeira vez se sentaram à mesa com os empresários do setor: “ foi uma reunião difícil e tensa, porque a relação até então era muito litigiosa”.

O modelo chega à construção civil. Após nove meses de negociação, em março o governo federal assinou com sindicatos patronais e de trabalhadores um compromisso para a melhoria das condições de trabalho. Nove empreendimentos aderiram ao acordo, que obriga a qualificação e a contratação sem intermediários que exploram a mão-de-obra. “A iniciativa induz mudanças na relação capital-trabalho em um dos setores que mais geram empregos no Brasil”, justifica José Lopez Feijóo, assessor da Secretaria Geral da Presidência da República. Além do ganho social, diz ele, o resultado é “o aumento da produtividade e o diferencial de mercado para as empresas”. Órgãos do governo federal que licitam grandes obras planejam inserir a adesão ao compromisso como condicionante nos contratos.

Igual estratégia se aplicou ao setor da cana de açúcar, cujo acordo, assinado por 300 empresas com aval do governo federal, valerá até o ano que vem com auditorias de campo que conferirão um selo de boas práticas. A iniciativa se complementa ao protocolo sobre etanol verde, gerido pelo governo estadual de São Paulo com meta de eliminar a queima da cana até 2014 para áreas mecanizáveis e 2017 para as demais. Hoje 34,8% da colheita se dá através de queimadas – a metade em relação há quatro anos, quando o pacto foi lançado. A iniciativa inspirou neste ano a assinatura de um protocolo também para o setor florestal, no qual empresas proprietárias de 50% das florestas plantadas com eucalipto no Estado se submetem a regras para produzir sem esgotar recursos naturais.

“Através do consenso se chega mais rápido aos resultados”, diz Carlos Beduschi, da Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo, ressaltando que a prioridade é a orientação, não o comando-controle. “Organizações inovadoras têm predisposição a alianças e parcerias”, avalia Wilson Nobre, da Fundação Getúlio Vargas, para quem “problemas complexos só podem se resolvidos de maneira colaborativa e participativa”.

É o que começa a acontecer na produção de carne, após a criação do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável, reunindo frigoríficos, redes de supermercados, instituições financeiras, organizações ambientalistas e governo – no total, até o momento, de 30 signatários. O objetivo é alcançar o desmatamento zero, através de mecanismos de compensação e incentivos. “Meio ambiente e produção não são necessariamente antagônicos, como se pensava antes”, destaca Michael Becker, do WWF Brasil. Ele acrescenta: “a maior sensibilidade de ambos os lados abre espaço para inovação, oportunidades e geração de valor”. No Pará, o pacto articulado pelo Ministério Público Federal junto a pecuaristas e prefeituras ajudou a reduzir o desmatamento em 40% desde 2009.

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