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Recife (PE) - De Recife para Manhattan

Sinagoga guarda capítulos importantes da história judaica no Brasil

· Pernambuco

O beco mudou de nome – a antiga Rua dos Judeus chama-se hoje Bom Jesus. O pacato bairro que abrigou o casario colonial erguido às margens do Rio Capibaribe pela comunidade judaica, no século XVII, é agora ponto de efervescência turística em Recife. Moradias que sobreviveram ao tempo e ao preconceito anti-semita, algumas reformadas nos últimos anos pela prefeitura, deram lugar a bares e restaurantes da moda. O lugar transformou-se em reduto do frevo, do maracatu, do blues e do rock. Em meio a esse burburinho cultural, inspirado na mistura de cores e ritmos característicos do movimento mangue-beat, criado no começo da década de 90 por Chico Science, a tradição judaica resiste e ganha destaque. Nos números 197 e 203 da Rua Bom Jesus, a mais famosa e freqüentada do bairro, dois sobrados geminados, de estilo neoclássico, simbolizam a força dessa resistência. Os prédios abrigaram a primeira sinagoga das Américas, construída pelos judeus durante a ocupação holandesa, em 1640. Sobreviveram à ira luso-brasileira após a expulsão dos invasores e agora estão ganhando vida nova. Tombado pelo patrimônio histórico, o mais antigo marco do povo israelita no Brasil começará neste mês a ser restaurado, transformando-se em centro cultural.

A sinagoga Kahal Zur Israel, nome que significa “Rochedo de Israel”, provavelmente em alusão aos arrecifes típicos do mar recifense, vai recuperar a saga dos primeiros judeus em terras americanas. Pernambuco, como aconteceu com outras capitanias da Colônia, recebeu nos séculos XVI e XVII grandes levas de migrantes europeus de origem judaica, convertidos à força ao catolicismo durante a Inquisição. Eram os chamados cristãos-novos, judeus batizados na Igreja Católica sob pena de serem expulsos da Península Ibérica e suas colônias. Muitos procuraram negócios no Novo Continente e vieram para o Brasil. Em terras pernambucanas, concentraram-se em Olinda, onde, como cristãos, gozavam por lei dos mesmos direitos dos colonizadores. Ricos, excelentes comerciantes e canais de fácil acesso aos financiamentos para a produção açucareira, conquistaram a simpatia dos governantes.

Os primeiros judeus vieram para Pernambuco na comitiva do donatário Duarte Coelho, o fundador da capitania. Um deles, Diogo Fernandes, ganhou do governante o engenho Camaragibe e dentro da casa-grande mantinha uma sinagoga numa sala escondida, local onde os judeus “conversos” se reuniam para ler o livro sagrado, o Torá. Em Olinda, os mais corajosos também praticavam o culto em sinagogas domésticas disfarçadas. Um deles percorria a cidade com um lenço vermelho preso ao tornozelo, convocando para o culto. Em 1593, quando os inspetores do Santo Ofício chegaram a Olinda, cerca de 100 cristãos-novos foram denunciados. Entre eles estava o riquíssimo comerciante João Nunes, que financiou a retomada da Paraíba dos franceses, em 1580. Nunes foi preso e levado para os cárceres da Inquisição, na Europa, por manter um crucifixo na parede do banheiro sobre o vaso sanitário. Também foi presa Brites Fernandes, “A Corcovada”, uma moça desrregulada mentalmente, que abacou denunciando vários colegas sob tortura. Sua mãe, a cristã-nova Branca Dias, dona de uma escola de alfabetização em Olinda, ficou famosa ao protagonizar a lenda do Açude da Prata. Conta-se que, antes de ser detida pela Inquisição, a mulher teria jogado toda a sua prataria no rio que forma o açude, no bairro Dois Irmãos, em Recife.

“Olinda era uma cidade virtual de cristãos-novos, mas na realidade era de judeus”, afirma o arquiteto José Luiz Menezes, responsável pelo projeto de restauração da sinagoga. Existiam na época perto de 5 mil judeus em Recife. “É indiscutível a contribuição deles para o desenvolvimento da Colônia e para a consolidação da economia do açúcar”, destaca Menezes. Com a invasão holandesa, em 1630, os judeus passaram a desfrutar da liberdade religiosa em Pernambuco. A Holanda era uma nação calvinista e recebia sem preconceito religioso grandes contingentes de judeus perseguidos pela Inquisição na Península Ibérica. Muitos acabaram vindo nas caravelas holandesas e encontraram aqui um enorme campo para os negócios.

Após o incêndio que destruiu parte de Olinda, em 1631, a comunidade judaica passou a construir casas em Recife, nas margens assoreadas do Rio Capibaribe. O primeiro lote, de 27,40 metros de comprimento por 29,70 de largura, foi comprado pelo comerciante Duarte Saraiva. Outros judeus o acompanharam e aos poucos construíram um bairro inteiro. Em 1636, já praticavam cultos numa sinagoga provisória, instalada numa casa alugada. Quatro anos depois, construíram com pedra e cal a sinagoga permanente, ocupando os andares superiores dos dois sobrados da antiga Rua dos Judeus. Na parte de baixo, mantinham uma loja. “A Rua dos Judeus é mais do que uma artéria da cidade, é a vitória contra o preconceito dos antigos colonizadores”, ressalta Menezes. Mas a liberdade durou pouco. Com a expulsão dos holandeses, em 1654, o prédio da sinagoga foi doado pelos comandantes luso-brasileiros a Fernandes Vieira, um dos líderes vitoriosos. O nobre entregou os sobrados à ordem dos padres oratorianos, que apoiavam Portugal e acabaram expulsos do Brasil na Independência. Os prédios passaram, então, para domínio da Santa Casa de Misericórdia, que manteve um orfanato no local, anos depois desativado. Em julho deste ano, governo federal finalmente desapropriou o imóvel abandonado e o devolveu à comunidade judaica, para a restauração.

“O governo já reformou milhares de igrejas, prédios católicos e até centro de candomblé – faltava uma sinagoga”, afirma Boris Berenstein, presidente da Federação Israelita de Pernambuco, estado onde atualmente vivem 350 familias de origem judaica. O projeto é montar no andar superior uma réplica da antiga Zur Israel. No térreo, além da sala de exposições, será instalado um centro de documentação, ligado via computador com outras instituições de pesquisa judaica do Brasil e do exterior. A reforma custará cerca de R$ 700 mil, bancados pelo Banco Safra, através da lei de incentivo à cultura. Antes das obras, será feita uma prospecção arqueológica no subsolo e nas paredes dos sobrados, para identificar os detalhes da arquitetura original e encontrar objetos usados pelos antigos moradores. “Às vesperas dos 500 anos do Descobrimento, é muito importante mostrar como a presença judaica foi importante para a formação da cultura brasileira”, ressalta Berenstein. O Brasil só tem a lamentar a perseguição religiosa. Melhor para os Estados Unidos: quando os holandeses foram expulsos de Pernambuco, um grupo de 16 judeus fugiu para as Bahamas e de lá foram para o leste americano. Ali fundaram Nova Amsterdam, hoje região de Wall Street, Manhattan, em Nova York, um dos cérebros financeiros do planeta.

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