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Recife (PE) - É frevo, meu bem!

Tradicional ritmo de Pernambuco se alia à modernidade após mais de um século de existência

· Pernambuco

“... Queiram ou não queiram os juízes
O nosso bloco é de fato campeão
E se aqui estamos
Cantando esta canção
Queremos defender a nossa tradição
E dizer bem alto que a injustiça dói
Nós somos madeira de lei que o cupim não rói.”
Madeira do Rosarinho, Capiba

Lourenço da Fonseca Barbosa (1904-1997), o Capiba, o maestro maior do frevo
pernambucano, tinha toda razão. O popular ritmo que embala o carnaval nas ladeiras de
Recife e Olinda resiste ao tempo sem dar bola para a fúria comercial do samba e do axé -- e
está mais vivo do que nunca. Neste ano, ao celebrar cem anos de existência, a tradição
ganha força e dá cores especiais à folia que todos os anos atrai milhares de turistas à capital
de Pernambuco. Não apenas os blocos e troças carnavalescas estão em festa. As
comemorações do centenário, que se arrastarão ao longo de 2007, abrem perspectivas de
negócios e animam também a cadeia do turismo. Espera-se que os festejos, inicialmente
programados para resgatar a história e preservar a dança mais famosa do carnaval recifense,
contribua por tabela para melhorar o fluxo e a permanência dos visitantes inclusive depois
da quarta-feira de cinzas. Uma agenda cultural, recheada de eventos o ano todo, e uma
estratégia mais agressiva para divulgar o destino, preparados pela prefeitura, prometem
fazer o frevo sair dos guetos e ecoar em outras regiões do país e até do exterior.
“Com certeza esse marco potencializará o turismo no Recife”, afirma Lygia Falcão,
secretária de Gestão Estratégica e Comunicação do Recife, responsável pela organização do
centenário, no qual serão investidos R$ 20 milhões. Abertos no dia 12 de fevereiro com um
mega-show reunindo artistas famosos no centro histórico da cidade, os festejos se
espalharão em pólos de animação montados em vários bairros durante o carnaval. Após
esse período, uma extensa programação cultural homenageará o frevo ao longo do ano, com
atividades de preservação e difusão, pesquisas e apoio a músicos e agremiações
carnavalescas. A agenda inclui a publicação de um livro inédito sobre o ritmo e a produção
de DVDs e CDs de compositores e intérpretes que lutam para manter viva a tradição, como
Claudionor Germano, maestro Ademir Araújo e Nonô Germano. São astros de uma cultura
regional que toma vulto e rompe fronteiras. “Será uma oportunidade para promover o frevo
como expressão musical capaz de ser reconhecida em todo o mundo por sua grande riqueza
sonora”, destaca Lygia Falcão.
Artistas famosos, como Lenine, Elba Ramalho, Antônio Nóbrega, Gilberto Gil e
Maria Betânia se engajarão à festa, participando das gravações do CD duplo especial “100
anos do Frevo” com canções que marcaram a história desta música genuinamente
pernambucana. Está prevista também a inauguração do Espaço do Frevo -- um centro

cultural para pesquisas com auditório, estúdio de gravação e salas para o ensino dos
diversos passos que compõem a dança. O projeto tem apoio da Fundação Roberto Marinho
e se destina a cultivar valores que promovem a cidadania e preservam uma atração cultural
que encanta os turistas e tem o potencial de gerar divisas.
Antes tarde do que nunca. Além dessas iniciativas que o tornam ainda mais valioso,
o aniversariante que completa cem anos poderá ganhar um presente especial, um
reconhecimento que o colocará no topo da lista das manifestações culturais mais
importantes do país: o título de Patrimônio Imaterial do Brasil. A documentação com esse
objetivo foi encaminhada ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
em dezembro de 2006. Foram 1.200 fichas e questionários preenchidos por pesquisadores,
passistas e músicos; um dossiê com 270 páginas reunindo todos os motivos pelos quais o
frevo deve ganhar o título e uma lista com 15 mil assinaturas apoiando a iniciativa.
Inspiração na capoeira
Oficialmente, 9 de fevereiro é a data que marca o centenário da tradição, porque
neste dia, em 1907, a palavra “frevo” apareceu pela primeira vez nos jornais de
Pernambuco. “O termo é uma variação de ‘fervo’, fazer fervura”, explica o pesquisador
Evandro Rabelo, 71 anos, que durante duas décadas estudou as origens do carnaval
pernambucano debruçado sobre a poeira dos antigos jornais do Arquivo Público do Estado.
Na verdade, o ritmo surgiu no século 19, a partir da mistura do repertório das bandas
militares aos acordes característicos do maxixe, da modinha, da polca e do tango. A dança
que acompanha a música nasceu nos antigos desfiles de rua, quando capoeiristas ficavam
na frente da banda para defendê-la, fazendo piruetas no embalo da música. E assim os
duelos entre os negros inspiraram os primeiros passos do frevo, como a tesoura, o ferrolho
e a pernada.
A dança se desenvolveu com a criação dos primeiros clubes carnavalescos,
formados por agremiações de trabalhadores em Pernambuco. Hoje existem centenas deles,
divididos em diferentes categorias. Alguns, muito antigos, se transformaram em patrimônio
popular. O Vassourinhas, fundado há 118 anos, é famoso pela marchinha que, de tanto ser
cantada, se tornou hino do carnaval pernambucano. Entre os rivais, está o Clube
Lenhadores, que foi criado em 1897 por uma dissidência masculina descontente com o
maior poder das mulheres dentro de um tradicional grêmio de carvoeiros – e se preserva até
hoje como uma das maiores forças do carnaval. A irreverência das fantasias, o gingado
frenético dos passistas e o fôlego das bandas musicais que descem e sobem ladeiras lotadas
de foliões compõem o cenário da festa. Entre os destaques, está a dança desengonçada dos
bonecos gigantes fantasiados -- uma tradição que remonta à Idade Média, quando os
cortejos pagãos levavam palhaços carnavalescos.
“Isso jamais morrerá, porque está no nosso sangue”, acredita João Trindade, 68
anos, presidente do Clube Elefante, um dos mais populares de Olinda. Criado em 1952 por
foliões que adotaram um elefante de porcelana como símbolo do grupo, a agremiação tem
hoje mais de 500 integrantes e arrasta cerca de 50 mil pessoas nas ruas de Olinda durante os
desfiles de carnaval. E exerce um importante papel social: no projeto Resgate da Cultura
Popular de Rua, o Elefante recebeu verba do governo no ano passado para realizar oficinas
de corte e costura de fantasias e para ensinar os passos do frevo para jovens da periferia.
“Hoje alguns ganham renda extra com esse trabalho”, conta Trindade, imaginando os
benefícios que poderiam se multiplicar se o frevo ganhasse uma nova dimensão, atraindo
bons patrocinadores e atuando como indutor do turismo.
De Pernambuco para o mundo

“Com uma cara diferente, por que o frevo não pode explodir no resto do país assim
como aconteceu com o forró nordestino?”, pergunta Trindade. É verdade que o tradicional
ritmo pernambucano não tem a organização, o luxo e a superprodução do samba no Rio de
Janeiro, nem a força do axé que atrai multidões atrás dos trios elétricos freqüentados por
atores globais na Bahia. Mas, mesmo com fantasias modestas e orquestras pequenas, o
frevo tem um diferencial que impressiona os turistas: “a espontaneidade e a improvisação
das ruas”, destaca o pesquisador Maurício Cavalcanti, especializado nas tradições da
cultura popular. O que falta, em sua opinião, “é encontrar ferramentas de ensino para
difundir o ritmo, hoje retido nas mãos de poucos mestres mais antigos”. Uma das soluções,
previstas para receber apoio ao longo das comemorações dos cem anos do frevo, é a
digitalização de partituras para download gratuito via Internet.
“Força popular não falta ao frevo para ganhar um novo status”, garante Enéas
Freire, presidente do Galo da Madrugada, considerado pelo Guiness Book o maior bloco
carnavalesco do planeta. Fundado há 29 anos, em Recife, a agremiação reúne diversos
clubes de frevo e grupos de mascarados numa festa que acontece todos os anos no sábado
de carnaval. O desfile, realizado no centro da cidade nas imediações do rio Capibaribe,
mobiliza mais de 2,5 milhões de foliões. Como a população de Recife é de 1,5 milhão de
habitantes, é possível ter uma idéia da quantidade de visitantes que chegam das cidades
vizinhas e de outras regiões do Brasil e do mundo para participar da festa. E o número
tende a crescer, no rastro do centenário do frevo. “Mas é preciso ter fôlego para
acompanhar o ritmo o dia inteiro sob o sol quente”, adverte Freire.
Não é à toa que muitas academias de ginástica de Recife oferecem o frevo como
uma ótima opção de exercício físico para quem deseja entrar em forma no verão. Durante
45 minutos de aula, na qual se praticam passos como a “tesoura”, o “rojão” e o “Saci
Pererê”, perdem-se em média 500 calorias. “E a dança ajuda também a melhorar a
coordenação motora e desinibir o aluno”, explica Karina Ribeiro, da Academia Life, de
olho nos foliões mais jovens e nos turistas que chegam à cidade para aproveitar o sol e o
mar antes e depois do carnaval.
Quando o assunto é frevo, é evidente a geração de oportunidades pela cadeia de
negócios do turismo. “Planejo receber o dobro de encomendas”, revela o artesão Nélson
Lima, 25 anos, na esperança de que os festejos do centenário durem o ano todo. Ele tem
como ofício produzir o acessório mais característico desta dança pernambucana: as
sombrinhas coloridas que embelezam a coreografia. No ateliê do artista, essas alegorias
ganham novas versões. Vazadas com fitas de cetim, são confeccionadas em diferentes
formatos, como de uma estrela, por exemplo. “É preciso estar sempre inovando”,
argumenta o artesão, também arquiteto e topógrafo, satisfeito ao ver o antigo hobby virar
um bom negócio, que cresce a cada ano. “Vendemos principalmente para pessoas que já
praticam a dança, mas agora vamos entrar em lojas de souveniers para turistas”, informa
Lima, lembrando que a sombrinha tem a importante função de ajudar no equilíbrio do
passista. O acessório é tradicional desde os primórdios do frevo, quando guarda-chuvas
velhos e esfarrapados eram usados como arma pelos capoeiristas à frente das antigas troças
carnavalescas.
Campanha promoverá o turismo
Para os operadores de turismo, a divulgação em torno dos cem anos do frevo, se
realizada de maneira eficiente, pode dar um importante fôlego ao turismo em Recife. “Hoje
a capital pernambucana perde em fluxo para Porto de Galinhas, balneário localizado a
poucos quilômetros de distância”, informa Virgílio Carvalho, assessor da presidência da

CVC. Ao longo de 2006, a operadora levou 86 mil turistas para Pernambuco, estado que
ocupa o quarto lugar nas vendas, atrás da Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte. “O frevo
precisa contribuir para aumentar o turismo não apenas no carnaval, mas no resto do ano”,
opina Carvalho. Para ele, “para se consolidar um destino é preciso ter continuidade,
estabilidade e racionalidade”.
Neste sentido, a prefeitura de Recife está investindo R$ 10 milhões numa campanha
para divulgar o frevo em 35 cidades brasileiras e onze capitais no exterior, começando por
Lisboa. A estratégia também inclui a participação em feiras nacionais e internacionais e a
produção de folheteria bilíngüe e de mini-shows demonstrativos dentro de 150 agências de
turismo e operadoras. A partir desses festejos, a expectativa da Secretaria Municipal de
Turismo é fazer o fluxo turístico dar um salto importante, com aumento anual de 12%. Nos
últimos anos, o crescimento tem sido tímido, se comparado a outros destinos: apenas 4% ao
ano.
Aos esforços de maior divulgação, soma-se a tendência de modernização do frevo,
que adquire tons estilizados para atingir um público mais jovem, superar regionalismos e
ultrapassar fronteiras. Tocado por bandas alternativas fora das ruas de pedra de Recife e
Olinda, o frevo ganha uma nova roupagem para virar moda. “O ritmo precisa ser renovado
para continuar vivo”, opina Armando Lobo, músico pernambucano que compõe ao lado de
oito cariocas a banda Frevo Diabo, do Rio de Janeiro. Ele completa: “O frevo tem uma
qualidade estética muito rica para ficar restrito ao carnaval”. Diante disso, no projeto Frevo
Bem Temperado, Lobo faz experimentos para rejuvenescer a tradição, agregando recursos
eletrônicos.
Há quem considere essa tendência de revitalização musical -- e outros ares de
modernidade, como o apelo turístico do frevo -- um pecado grave. Os defensores, em
contraponto, dizem que a tradição cultural pode se aliar às necessidades dos tempos
modernos, nas quais o turismo se apresenta como motor para gerar renda e criar novas
oportunidades. O que importa, no final das contas, é manter intacta a essência dos versos do
mestre Capiba: “Pernambuco tem uma dança/Que nem uma terra tem/Quando a gente
entra na dança/Não se lembra de ninguém.../É uma dança/Que vai e que vem/Que mexe
com a gente/É frevo, meu bem!”.

BOX -- Cordel do frevo
Em nove de “frevereiro”
Eu farei aniversário
Pois novecentos e sete
Me jogou no calendário
Graças do Jornal Pequeno
Hoje sou um centenário.
Mas sempre serei menino
Nunca irei perder o viço
Quem achar que vou morrer
Preste atenção no serviço
Pois nenhum pernambucano

Vai gostar do meu sumiço
... Conseguiram me trancar
Na jaula do carnaval
Do gueto de Pernambuco
Quase não saio, afinal
Mas saibam que mesmo assim
Eu sou bem nacional
... Mas justiça seja feita
Eu não quero me gabar
Só que eu tenho qualidade
Isso ninguém vai negar
É pena o resto do ano
Ninguém querer me escutar

... No carnaval deito e rolo
Não deixo ninguém na sua
Eu provoco inquietude
Faço o povo ir pra rua
Não importando que esteja
Sob o sol ou sob a lua.
... Varro as ruas do Recife
E de Olinda as ladeiras
Animando troças como
Elefante ou Pitombeiras
Também nos clubes e blocos
Entre de várias maneiras...”

O frevo convida o povo pra festa do centenário, José Honório

Publicada originalmente na revista Horizonte Geográfico

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