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Rio Branco - Manejando a floresta nativa

Um trabalho que alia pioneirismo e experiência de campo para o aproveitamento sustentável da madeira e outros recursos naturais da Amazônia

De Rio Branco, no Acre, percorremos 102 Km na BR 364 até cruzar com o Ramal de Fátima, estrada secundária de barro que serpenteia uma densa floresta, passando por assentamentos rurais em paisagem tipicamente amazônica, no município Sena Madureira. O vai-vem de carretas chama atenção. Após 22 Km, a placa indica o trabalho conduzido no local: “Plano de manejo florestal sustentável -- Propriedade: Fazenda São Jorge I. Proprietário: Laminados Triunfo Ltda”. Estacionamos o carro à frente de um galpão, onde também funciona o refeitório dos operários. Uma lousa com anotações e mapas fixados na parede parecem indicar rotas para um tesouro. Lá os auditores do Imaflora, em conjunto com os técnicos da fazenda, traçam a estratégia para adentrar as áreas de exploração de madeira. Pegam-se os capacetes; afiam-se os facões. A bordo de um veículo tracionado, partimos para o interior da mata. Objetivo: observar o corte de árvores para aproveitamento da madeira, verificando a maneira como são derrubadas pelos operários, e inspecionar o transporte e o armazenamento das toras, entre os cuidados especiais exigidos de uma empresa florestal com selo socioambiental do FSC.

Tínhamos como plano vivenciar a rotina de quem zela pela floresta -- o dia-a-dia dos procedimentos de campo em torno da certificação. Os cuidados multiplicam-se em outras propriedades da Amazônia que optaram por práticas responsáveis para ter vantagens no mercado internacional, garantindo boas condições à natureza e sua gente como estratégia para sustentar os negócios no futuro. Em maio de 2009, o Imaflora tinha em carteira 36 empreendimentos com selo socioambiental em florestas naturais, a maioria na Região Amazônica. Entre os exemplos, o Grupo Cikel, no Pará, extrai angelim-vermelho, maçaranduba, cedro, sucupira, ipês e outras espécies tropicais de uma floresta natural de 500 mil hectares. Em sete complexos industriais, produz madeira serrada, pisos, compensados e lâminas torneadas. De igual maneira, em Porto Velho (RO), a empresa Ecolog tem 30 mil hectares de mata nativa para comercializar pranchas de madeira, assoalhos, forros e decks, produzidos mediante os rígidos critérios do FSC. Do Grupo Orsa à indústria Juruá Florestal, ambos no Pará, os projetos certificados garantem a origem ambientalmente correta da madeira e gera renda para as comunidades.

No Acre não é diferente. Acompanhamos a equipe de auditores do Imaflora na Fazenda S. Jorge I para entender como as práticas da certificação podem reduzir o desmatamento e seus impactos globais, dando ao Brasil um novo status na conservação do meio ambiente. Temos o prestígio de abrigar a maior floresta natural do planeta, mas a devastação no país contribuiu com 42% da perda de cobertura florestal no mundo, entre 2000 e 2005, de acordo com dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). Ao iniciar o roteiro na floresta acreana, tínhamos em mente esses números. E uma pergunta: em que medida a experiência brasileira em aferir o selo da certificação pode mudá-los?

Rotina sob sol e chuva para garantir a aplicação das normas

Certificada pelo Imaflora em 2005, a Fazenda São Jorge I é submetida a auditorias anuais para que princípios e critérios de respeito ao meio ambiente e às populações sejam verificados em campo. Sob sol tórrido, partimos para campo com a equipe de auditores. Ao longo dos talhões, pátios na beira da estrada guardam a madeira recém-cortada que será recolhida pelos caminhões. Para encontrar o ponto exato da extração, seguimos pistas, como a marca deixada pelos pneus dos tratores. Logo ouvimos o barulho das motosserras. E chegamos até o operário na hora exata que derruba um gigantesco jequitibá, marcado com uma plaqueta de metal no. 5309. Em segundos, a árvore desaba e cai no chão. Uma picada na mata, aberta no sentido contrário à queda do tronco e dos galhos, serve como caminho de fuga para evitar acidentes. O cuidado mostra que as regras para exploração da madeira visando minimizar impactos estão sendo cumpridas. São detalhes que integram uma lista de procedimentos verificados em campo pelos auditores, habituados a cansativas caminhadas, pernoites em alojamentos improvisados e mosquistos, muitos mosquitos. Em outro ponto da floresta, descemos uma pirambeira de vegetação fechada para chegar próximo a um riacho e confirmar se o corte das árvores é realizado conforme as normas, a uma distância mínima de 50 metros da água, mantendo intocável a Área de Preservação Permanente (APP).

Além de facões, machados, motosseras e outros apetrechos levados para campo, os operários da fazenda São Jorge I usam um equipamento cada dia mais rotineiro e importante no manejo sustentável da madeira: o GPS (Global Position System), que localiza as árvores previamente planejadas para exploração. O aparelho é alimentado com informações georeferenciadas por satélite sobre a floresta, obtidas a partir do inventário das espécies de interesse para o corte. Um sistema de computador processa dados como quantidade e medidas das toras, estoques e árvores preservadas para futuras colheitas. E possibilita maior controle do processo, planejando o corte de modo a permitir a regeneração da floresta. Além disso, o método permite saber exatamente de onde vem a madeira -- ou seja, facilita o seu rastreamento em toda a cadeia, desde a extração até o uso industrial. Ao clicar sobre alguma árvore no mapa digital, por exemplo, o sistema abre uma janela contendo um banco de dados sobre aquele exemplar: o número da plaqueta de identificação, as medidas da tora, a localização, a espécie e o volume de madeira nela existente.

“A tecnologia pode variar de empresa para empresa; o importante é que a madeira seja explorada com critérios ambientais e sociais, dentro do que foi planejado e aprovado pelos órgãos ambientais”, explica o engenheiro florestal Leonardo Sobral, auditor do Imaflora responsável pelos trabalhos no Acre. Sua equipe a outras medidas exigidas pela certificação, como o uso de equipamentos de proteção, o arraste das toras por tratores florestais até os pátios de estocagem sem danificar outras árvores e os métodos para evitar desperdício. Não são fiscais em busca de atividades ilegais para aplicar multas, mas profissionais alinhados com a missão do desenvolvimento sustentável, capacitados a zelar pelo cumprimento dos princípios e critérios do FSC. E ir além nessa tarefa, acreditando nesse modelo como ferramenta de transformações socioambientais, resultantes de boas práticas assumidas voluntariamente por empresas interessadas em diferenciar seus produtos florestais com o selo da certificação socioambiental.

Ajustes e medidas corretivas equilibram proteção ambiental e ganho econômico

No caso da Fazenda São Jorge I quase a metade de seus 3,8 mil hectares está reservada para explorar a madeira mediante plano de manejo florestal, dentro de um ciclo de corte de 25 anos. Nessa mata selecionada, resguardam-se 700 hectares de áreas de preservação permanente. Na porção a ser aproveitada economicamente, o inventário selecionou 22 mil árvores de 150 espécies, das quais 2,2 mil foram liberadas para o corte, abrangendo 33 espécies. Até julho de 2008, cerca de 60% delas já tinham sido exploradas com base nos princípios do FSC aferidos pelo Imaflora nas auditorias anuais. Trata-se de uma melhoria contínua, focada na redução de impactos, com o desafio de equilibrar medidas socioambientais e viabilidade econômica.

Garantir o equilíbrio desse balanço, sendo fiéis aos princípios da certificação, é uma ciência. Um know-how desenvolvido pelo Imaflora para além da aplicação técnica de um manual, uma vez que o trabalho muda vidas; promove uma nova cultura no uso da floresta. As auditorias de campo, como a realizada na Fazenda São Jorge I, refletem esse conhecimento. O trabalho inclui diversos procedimentos. Na reunião de abertura, os auditores apresentam à direção da empresa ou seus representantes os objetivos da inspeção. Na visita de campo, estão previstas rotinas, como revisão dos documentos do plano de manejo, detecção de desmatamento em APPs, avaliação das condições gerais da floresta e análise sobre o controle da produção, por exemplo. É também verificado o cumprimento das ações corretivas impostas na visita anterior e as mudanças proporcionadas por elas -- tanto no caso das correções mais graves, chamadas “car-maior”, quanto as mais brandas, as “car-menor”. A última etapa é a reunião de fechamento com a empresa, na qual os auditores fazem um balanço sobre o que foi verificado e as necessidades de mudança -- informações que depois irão compor oficialmente o relatório final da visita.

Avanços na área social e condições mais dignas de trabalho na floresta

Os cuidados envolvem também a segurança e o bem-estar dos trabalhadores. Estrutura e higiene dos alojamentos, tratamento de água e depósitos de combustíveis foram alvo das inspeções do Imaflora na fazenda. “Muita coisa mudou”, atesta o técnico agrícola Waltair Costa de Oliveira, coordenador da equipe de funcionários da São Jorge I. Ele lembra os tempos quando o descaso era a regra. “Habitávamos acampamentos inadequados com barracas de lona sem banheiro”, conta o trabalhador, mineiro de Belo Horizonte que migrou para Rondônia com os pais em busca de terra farta e barata, na década de 1980. Naquela região, Waltair vivenciou a devastação da floresta para a abertura da fronteira agropecuária. Mas hoje segue um modelo bem diferente, após fazer cursos para a derrubada de árvores com baixo impacto. “Meu pai jamais sonhava que um dia trabalharíamos dessa forma”, revela o funcionário. Hora-extra remunerada, crédito pessoal, alimentação e água de qualidade foram algumas conquistas. “Muito se deve à certificação e às cobranças das auditorias”, afirma Waltair, com ar de professor, explicando que “esse foi o caminho que as empresas passaram a buscar para sobreviver no mercado”. O desafio, para ele, é ampliar o conceito para toda a Amazônia: “as melhorias são visíveis, mas há muitos trabalhadores treinados em manejo florestal sem emprego”. Waltair teve mais sorte. Mora no conforto da capital acreana, onde construiu uma casa de quatro dormitórios, e tem orgulho de falar sobre o seu automóvel e sua chácara -- frutos do trabalho com a exploração sustentável da floresta.

As exigências para a certificação incluem questões sociais, como as boas relações com as comunidades do entorno. A exemplo da Fazenda São Jorge I, ações corretivas são aplicadas pelas auditorias para incentivar canais de interação com assentamentos e povoados vizinhos. Um diagnóstico realizado por sociólogos no entorno do empreendimento revelou a importância de conscientizar a população sobre a origem da madeira legal e seus benefícios. “Antes pensávamos que eram forasteiros tirando da floresta o que era nosso”, conta Irene Batista da Hora, moradora do Projeto de Assentamento Agrícola Joaquim da Mata, onde vivem 160 famílias. A escola é chave nesse processo de conscientização. “Os alunos dizem que é preciso derrubar mata para fazer pasto, embora algo prático aconteça aqui ao lado para mostrar que há alternativas”, completa a professora Everlin Lemos, diretora do grupo escolar da comunidade.

Rumo a uma nova cultura empresarial

“Aposto no potencial dessas mudanças”, ressalta o empresário Jandir Santim , da Laminados Triunfo, proprietária da fazenda São Jorge I. Ele admite os erros da família, tradicional no ramo madeireiro, que no passado derrubava araucárias no Sul do país. Com a devastação das árvores naquela região, o empresário buscou alternativas, transferindo-se para Campo Grande (MS), onde montou uma indústria de compensado abastecida com matéria-prima do Mato Grosso. “No início, toda madeira era ilegal”, reconhece o empresário, contando que mais tarde optou por adquirir uma floresta própria para fazer plano de manejo e trabalhar na legalidade. Mas paralisou duas atividades diante das barreiras impostas pelos órgãos ambientais. Até que um dia conheceu o projeto dos corredores de exportação pelo Pacífico e sentiu-se atraído pelos incentivos do governo acreano. O estado começava a se destacar pela adoção de políticas públicas em favor da exploração da floresta com certificação socioambiental. “Decidi montar uma fábrica de compensado em Rio Branco e o governo me falou: veio para o lugar certo desde que pense como a gente”, conta Jandir. Foi a senha para que começasse a entender o conceito do manejo certificado pelo FSC, ao participar de uma palestra na Secretaria de Floresta do Acre. “Sequer sabia o que era uma APP”, diz o empresário. “Finalmente descobri um caminho diferente de tudo aquilo que repudiei no Mato Grosso e pude reiniciar minha vida empresarial dentro da legalidade”. De olho no futuro, Jandir comprou três novas propriedades e decidiu certificar uma delas, a Fazenda São Jorge I -- o que logo abriu o leque para novos mercados no exterior. “É um selo mágico, que gera confiança e vale ouro”, avalia. A meta é atacar agora o mercado interno, certificar a cadeia de custódia que envolve seus produtos e chegar a 2010 usando madeira certificada em 80% da produção. Com esse objetivo, a empresa planeja operar uma fábrica de pisos em Xapuri, além de explorar a Floresta Estadual Antimary, via concessão pública. A área já está certificada pelo FSC, mediante o trabalho do Imaflora, e pretende ser modelo de uso sustentável para a Amazônia.

“Tirar da floresta apenas o que ela pode oferecer sem risco para o futuro é uma mudança de cultura”, ressalta Jandir., dizendo que tomou essa consciência na hora certa porque “papagaio depois de velho não aprende a falar”. Ele diz que agora “tem orgulho de ser madeireiro”. E começa a preparar o terreno para o filho, Jandir Júnior, dar continuidade aos negócios e também usufruir da floresta mantida em pé. “Com o plano de manejo, guardo 30% da floresta como uma galinha dos ovos de ouro, um estoque para a exploração futura”, explica o empresário, consciente sobre a importância das auditorias.

“Inicialmente, as exigências de mudanças causaram espanto, mas depois percebemos os benefícios”, afirma. Ele lista os resultados: “maior qualidade aproveitamento das árvores abatidas, melhor mão de obra, mais rendimento do processo, satisfação dos funcionários e, com tudo isso, maior retorno financeiro”. São efeitos que estimulam novos avanços, "uma força que mostra a confiança no produto certificado e um compromisso de vida: “não quero que se repita na Amazônia o que aconteceu no Sul com as araucárias”.

A importância do manejo certificado na Amazônia

A experiência no Acre demonstra que a certificação socioambiental conduzida pelo Imaflora gera mudanças na valorização e no trato com a floresta amazônica, hoje centro das atenções mundiais. A região é estratégica ao equilíbrio climático do planeta e o uso sustentável de seus recursos naturais com viabilidade econômica pode ser decisivo na sua conservação. Com 4,1 milhões de quilômetros quadrados, o bioma amazônico guarda a maior área de florestas tropicais do mundo, reduzida em quase 20% de sua extensão original. Vista como uma imensidão vazia a ser ocupada, a Amazônia é continuamente pressionada pelo avanço do desenvolvimento. Conversão em pastagens, agricultura de alto insumo sem técnicas para reduzir danos e corte ilegal de madeira são os vilões. Soma-se a as esses fatores a dificuldade do poder público para se fazer presente e exercer a fiscalização contra o desmatamento ilegal. Pelo código florestal, na Amazônia, proprietários de terra podem derrubar até 20% da floresta para a exploração econômica. Mas devastação supera esse limite -- não só em terras privadas (muitas com documentação irregular), como nas públicas (derrubadas mediante o esquema da grilagem, ou seja, a ocupação ilegal para posterior tentativa de obter documentos de posse).

As soluções passam por diferentes rotas. Além de aparelhar o estado, planejar o uso do solo e combater a corrupção e as ações ilegais na exploração da floresta, as medidas de controle incluem a criação maior número de parques nacionais, reservas extrativistas e outras áreas protegidas como escudos contra o desmatamento. Entre 2003 e 2008, mais de 19 milhões de hectares de terras amazônicas, duas vezes o tamanho de Portugal, tornaram-se unidades de conservação federais, além das que foram decretadas pelos estados. Somam-se as terras indíginas, assentadas sobre 20 % do território amazônico.

Embora não esteja imune a invasões e destruição, o mosaico de áreas protegidas é eficiente inibidor de atividades predatórias. Mas, sozinho, não é suficiente. Para frear o desmatamento faz-se necessária uma política de desenvolvimento sustentável que leve em conta as particularidades ambientais e sociais da região, produza efeitos para reduzir a pobreza e tenham reflexos na valorização de toda a cadeia dos produtos florestais até o consumo nos grandes centros urbanos do país e do exterior. O cerco à madeira ilegal, com mais fiscalização e restrições de mercado, abrem horizontes para o desenvolvimento de ações sustentáveis. A certificação sociambiental com seu potencial de mudanças é uma importante ferramenta para essa engrenagem. Ao valorizar os recursos florestais obtidos com critérios ecológicos e sociais, o selo contribui para evitar que atividades destruidoras prevalesçam.

As esperanças recaem sobre o manejo florestal sustentável e seu poder de permitir a exploração das árvores de uma maneira planejada e com menos impactos. Trata-se de um importante diferencial de mercado que aumenta o valor econômico para os recursos naturais da Amazônia e também a sua escala -- e ainda conserva a floresta de pé para aproveitamento futuro, mantendo ativos os seus benefícios ambientais para a vida no planeta. A floresta amazônica remanescente, em torno de 3,3 milhões de quilômetros quadrados, guarda um estoque disponível de madeira orçado em aproximadamente 8,6 trilhões de dólares no mercado internacional. Aproveitado no regime de manejo, poderia dar retorno financeiro capaz de frear o desmatamento ilegal, com um faturamento anual em torno de 36 bilhões de dólares, estimado pelo Inpa (Instituto de Pesquisas da Amazônia).

Mas 80% da madeira retirada da floresta é ilegal, de acordo com relatórios de outro importante centro de pesquisa regional, o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), parceiro do Imaflora nas pesquisas florestais. Quase tudo se destina ao mercado interno, absorvido pela construção civil, pela indústria moveleira e pela siderurgia, na forma de carvão vegetal para a produção de ferro-gusa. Em muitos casos, é extraído da floresta sem critérios, por métodos ineficientes que desperdiçam 70% da madeira.

Caso expanda o manejo florestal e se modernize, o setor madeireiro contará com uma tremenda janela de oportunidade. Em razão do esgotamento das florestas tropicais da Malásia e da Indonésia, os maiores fornecedores do mundo, o preço da madeira deve subir no mercado global a partir de 2010. Se escolher o melhor caminho, o Brasil poderá chegar ao topo da produção mundial. O potencial inclui produtos não-madeireiros, como óleos essenciais para cosméticos, princípios ativos para novos medicamentos, frutos tropicais, castanha e sementes. São trilhões de dólares escondidos na floresta, a espera de um caminho adequado e economicamente sustentável para aproveitá-los. Igualmente promissor é o papel desempenhado pela Amazônia no equilíbrio climático. Expande-se o mercado de crédito de carbono e de mecanismos de doação voluntária de recursos para a remuneração de projetos de reflorestamento e conservação da floresta (leia no capítulo 7). Abrem-se novas perspectivas ao manejo florestal como instrumento de desenvolvimento econômico.

É forte a pressão internacional para mudar a equação econômica da floresta e fazer que as árvores em pé sejam mais valorizadas e dêem lucro. Instituições financeiras, traders, grupos de consumidores, organizações ambientalistas e de direitos humanos unem forças para promover critérios socioambientais rigorosos na exploração econômica da Amazônia. Mesmo em áreas remotas, produtores são levados a obedecer leis ambientais e a adotar boas práticas de uso da terra e de convívio com as populações se quiserem vender sua produção e conquistar novos mercados. A força do mercado alia-se à necessidade de preservar a floresta como fonte de riquezas para o futuro. Como resultado, cresce a procura pela certificação como ferramenta que atesta a origem ambiental e socialmente correta dos produtos.

Quem garante a aplicação do sistema de normas referente a um determinado selo é a instituição certificadora -- daí o seu papel-chave entre protagonistas na conservação da biodiversidade e no zelo pelas condições sociais na floresta. No caso da certificação FSC, uma das principais bandeiras do Imaflora como instituição promotora do desenvolvimento sustentável, as auditorias em empreendimentos florestais brasileiros são as principais ferramentas. Com um detalhe que faz a diferença: todo o trabalho técnico de campo e também de planejamento, capacitação técnica, debate e articulação para colocar os princípios socioambientais em prática gera algo mais que simples selos, diplomas ou carimbos. Disso tudo resultam transformações e, importantíssimo, um valioso acervo de experiências, métodos lapidados por um contínuo aprender.

Acervo de conhecimento para subsidiar as concessões florestais

O Imaflora é a certificadora brasileira que reúne o maior número de projetos certificados pelo FSC e a maior extensão de áreas, envolvendo ampla diversidade de ambientes. Guarda uma fonte de experiências que lançam luzes sobre o manejo florestal, constituindo-se referência para o futuro de uma floresta que está sob a mira internacional. É uma base sólida para se construir uma Amazônia diferente -- um desafio atrelado a políticas de governo para a expansão do manejo florestal. Entre as iniciativas de maior destaque está a Lei de Gestão das Florestas Públicas (lei 11.284, promulgada em março de 2006), que regulamenta a concessão de florestas de propriedade do governo federal à exploração sustentável por empresas. A iniciativa pode dar larga escala à economia florestal, sendo capaz de proporcionar investimentos também para o aproveitamento de produtos não-madeireiros -- como resinas, óleos e frutos -- e reduzir alguns dos principais problemas associados ao desmatamento. Entre eles estão a insegurança fundiária, a burocracia e a lentidão na aprovação dos projetos de manejo florestal, os assentamentos rurais em licença ambiental, a mão-de-obra desqualificada e projetos empresariais inadequados. Essas questões contribuíram para diminuir o ritmo da certificação de florestas após 2004, em contraste com os anos anteriores, quando o selo FSC para o manejo empresarial na Amazônia obteve grande procura. O plano, com a política de concessão de florestas públicas, é retomar esse crescimento. O propósito do Ministério do Meio Ambiente é dobrar de 2 milhões para 4 milhões de hectares a área aberta à concessão em Flonas (Florestas Nacionais) e APAs (Áreas de Proteção Ambiental) -- o que poderá resultar, segundo cálculos do Serviço Florestal Brasileiro, na injeção de R$ 700 milhões por ano na economia florestal. O cumprimento da meta, no entanto, exige medidas do governo para dar agilidade à elaboração e aprovação dos planos de manejo, obrigatórios para a exploração das áreas. Na dimensão técnica, considerando-se o desenvolvimento alcançado pela certificação florestal, o país está preparado para essa retomada dentro de padrões reconhecidos no mundo.

Os avanços brasileiros são visíveis e, ao longo das décadas, eliminam incertezas. O manejo sustantável preconiza a extração de produtos florestais nos limites que a natureza pode repor. No caso da madeira, o número de árvores cortadas varia, conforme o nível de rigor do plano. Na certificaçao FSC, no período de 30 anos, apenas cinco a seis árvores mais antigas são extraídas das mais de 500 existentes em um hectare. A exploração é executada mediante técnicas de baixo impacto sobre a biodiversidade. No rastro desse trabalho, desenvolvem-se métodos para medir danos, avaliar o crescimento da floresta e comparar áreas exploradas sem critérios com outras que utilizam o bom manejo florestal. Incluem-se, no caso do selo FSC, critérios sociais como medidas para reduzir acidentes de trabalho nas serrarias e cumprimento de legislação trabalhista. O trabalho criterioso em torno da certificação contribui para avaliar a eficiência do manejo florestal, permitindo chegar a novos conhecimentos técnicos para aprimorá-lo. “É como um grande laboratório, no qual nos aproximamos da realidade das empresas e verificamos na escala da produção aquilo que imaginamos experimentalmente na universidade”, afirma o engenheiro florestal Edson Vidal, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queirós, a Esalq, da Universidade de São Paulo, em Piracicaba (SP). O pesquisador integrou os primeiros treinamentos técnicos realizados pelo Imaflora para a certificação. E também participou dos trabalhos para a adequação dos padrões do FSC para a Amazônia, em 1995.

Em que níveis de segurança pode-se cortar árvores em escala comercial e ao mesmo tempo manter a floresta saudável e em condições de se regenerar? A biodiversidade estaria com certeza protegida? O método seria economicamente viável? Dúvidas desse tipo ainda intrigam o meio científico, embora atualmente -- mais de uma década após as primeiras experiências de manejo certificado de mata nativa na Amazônia -- as respostas sejam mais confiáveis. A perspetiva é que tornem-se conclusivas após 30 anos correspondentes aos ciclos de corte das árvores dos primeiros planos de manejo. “Sabemos que o manejo faz a diferença para reduzir impactos e manter a cobertura florestal”, conta Vidal. “Mas falta refinar estudos para entender melhor como a floresta se regenera, como evitar o seu empobrecimento e identificar quais espécies conseguem se recuperar”, ressalva Vidal. É esse crescimento florestal que ditará o fluxo do manejo, ou seja, o tempo que é preciso esperar para a natureza repor os estoques.

Na opinião de Vidal, a experiência do Imaflora na inspeção do manejo ajuda a preencher lacunas, reduzir divergências e elucidar questões importantes. São como diferentes peças de um quebra-cabeça que, montadas, permitem tirar conclusões sobre a recuperação da floresta e o equilíbrio da fauna. A análise das parcelas permanentes de floresta e a avaliação dos cuidados com o corte e das tabelas com estatísticas sobre a mortalidade das árvores, por exemplo, são ferramentas trabalhadas pelas auditorias capazes de apontar o sucesso ou o fracasso do manejo. Igualmente importantes são inventários botânicos exigidos pela certificação socioambiental. Avaliados periodicamente nas auditorias da certificação, são essenciais para a seleção das árvores destinadas ao corte, preservando a distância necessária entre elas para garantir a polinização e manter a variabilidade genética das espécies.

“Com o suporte de resultados científicos, o Imaflora pode fazer recomendações para mudanças nos empreendimentos e encaminhar propostas para ajustes nos indicadores que compõem os critérios e princípios do FSC, tornando o manejo florestal mais sustentável”, explica Vidal. Assim o trabalho da instituição certificadora vai além do que exige a legislação para a prática do manejo. Não raro as regras precisam de acertos e complementos para que o método de exploração seja um instrumento aplicável nas diferentes realidades locais e contribua efetivamente para reduzir impactos e abrir perspectivas para a exploração econômica sustentável da floresta.

Aperfeiçoamentos e mudanças de rumo surgem naturalmente -- uma responsabilidade a que o Imaflora não se priva, tendo como base o conhecimento e a competência acumulados nesses anos de trabalho com a certificação. Seus profissionais estão atentos a recomendações que, muitas vezes, partem da universidade. Constitui uma via de mão-dupla, uma colaboração mútua que proporciona melhorias, transparência, rigor técnico e confiabilidade à certificação. “É um trabalho que contribui para saltos expressivos sob ponto de vista ambiental e social”, avalia Vera Angel, pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que auxiliou auditorias do Imaflora para a concessão do selo FSC. Pesquisadores são contratados para analisar os relatórios de auditoria, verificando a coerência entre os critérios da certificação e as evidências colhidas em campo. Entre outras tarefas, avaliam se as observações que balizam a pontuação final para a empresa auditada condizem com os diferentes indicadores socioambientais que precisam ser respeitados. “O objetivo é evitar discrepâncias entre os relatórios”.

“As auditorias são respaldadas por métodos e procedimentos com notável organização, das planilhas econômicas aos relatórios sociais, o que garante a qualidade final e permite que a certificação atinja seus objetivos”, afirma Vera, também chamada para fazer palestras sobre ecologia de paisagem nas oficinas de capacitação para auditores. Atividades de aprendizado contínuo são vistas pelo Imaflora como estratégicas para alcançar bons resultados. A conduta traz diferenciais: “com formação de ótimo nível, os auditores vão a campo organizados em equipes com capacidade de visão ampla sobre as diferentes áreas da questão ambiental”. Assim, não se restringem a detectar erros e acertos, mas estimulam soluções. Conhecendo a realidade e o contexto social, econômico, ambiental e cultural das diferentes regiões onde os projetos estão inseridos, o trabalho da certificação busca o balanço ideal entre rigor e bom-senso. A flexibilidade é por vezes necessária para que as normas em favor de melhores condições de vida sejam aplicáveis na prática e produzam mudanças duradouras. A experiência de campo credencia para conduzir esse processo com reconhecimento por empresas, governos, universidades e organizações sociais e ambientais.

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