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Rio de Janeiro (RJ) - Beleza escondida

Praias cariocas inexploradas atraem

visitantes em busca de sossego e lutam para

permanecer praticamente intactas

 

· Rio de Janeiro

“O homem com sua sapiência

Transformou tudo em ciência

Reciclando a minha natureza

Mexeu com lixo,

Domou os ventos,

Usou o átomo sem consciência

Causou tristeza, degradação

Coloca em risco toda a civilização

E assim num grande gesto de amor

Já tem gente a refletir

E por mim vive a lutar ...

Um fio de esperança a reluzir...

Produzir sem maltratar

Sou a mãe Terra

Só o seu amor vai me salvar ...

Pra natureza sorrir, o homem tem que mudar

E aprender a preservar”

(samba-enredo do Império Serrano)

Todos os anos, em fevereiro, a rua Marques de Sapucaí, no Rio de Janeiro, converge sonhos e desejos de uma multidão de foliões – sejam celebridades, sambistas anônimos dos morros cariocas ou turistas que chegam de bem longe para forçar os quadris a entrar no compasso do samba. Mas nem tudo é frenesi nesta metrópole, no período carnavalesco. Enquanto o sambódromo pulula na grande explosão de energia do carnaval, bem perto dali, dentro ou nos arredores da capital, recantos de natureza pouco explorados, emoldurados por montanhas de mata atlântica e enseadas com praias quase intocáveis, reservam aventuras especiais para quem prefere a tranqüilidade.

Percorremos a rota das praias cariocas inacreditavelmente desertas (ou quase), reduto de visitantes descolados e adeptos do turismo de aventura, dispostos a enfrentar caminhadas em trilhas e viagens em barco de pescadores para chegar a privilegiados pontos do litoral desprovidos de estradas – e do burburinho da folia. Que nos desculpem os mestres-salas e as porta-bandeiras! Decidimos, no final das contas, colocar em prática a mensagem do samba-enredo do Império Serrano, uma das escolas de samba do primeiro time do carnaval carioca, que exalta em 2005 o amor à mãe-natureza. E partimos para as novas experiências.

Na primeira etapa da viagem, saindo do bairro de Copacabana, o carro percorre 280 Km pelas curvas da Rio-Santos até a entrada de um condomínio de luxo, Laranjeiras, um pouco depois de Paraty – e ali fica estacionado. Deste ponto em diante, uma trilha de 50 minutos de subidas e descidas em meio a remanescentes de Mata Atlântica leva à praia do Sono – um lugar estrategicamente cercado de montanhas, como o Pico do Cairuçú, que escondem por mais tempo o sol ao amanhecer e o cobrem mais rápido ao entardecer – ou seja, o dia nasce mais tarde e escurece mais cedo, um convite para um sono mais prolongado, embora pesadelos rondam a tranqüilidade dos nativos. Um deles é o dilema que enfrentam, depois que a captura predatória de peixes pelas redes de arrasto dos grandes barcos pesqueiros começou a eliminar o principal meio de sustento da comunidade. Hospedar visitantes passou a ser uma alternativa econômica, mas também um precedente que pode abalar a tranqüilidade de uma praia quase virgem, onde só se chega caminhando ou em barcos, quando as condições do mar permitem.

De olho nos benefícios do turismo, discute-se na comunidade o projeto de se abrir uma estrada. “Isso seria catastrófico, sem cuidados especiais para evitar a degradação de uma vila que não tem saneamento básico”, adverte a professora Emily Brawn, 26 anos, mineira radicada na Inglaterra que conheceu a praia em 2001, se apaixonou por um pescador e ali ficou. “Aqui não temos energia elétrica ou acesso à Internet e, com o ritmo mais lento que na cidade grande, sentimos a vida pulsar, seja na forma das flores, seja no canto dos passarinhos”, conta Emily. Hoje a professora ensina inglês para 60 crianças na escola do lugarejo, com apoio de uma entidade americana, a Six Friends Brasil. Muitos chegam aos 12 anos falando inglês fluentemente. Em lugar onde os adultos mal sabem falar o português e muitos são analfabetos, expressões como excuse me e I am sorry são comuns no linguajar local. “Os jovens estão se preparando para trabalhar com visitantes estrangeiros aqui ou em restaurantes ou pousadas de outras cidades de maior fluxo turístico, como Paraty”, explica Emily, que confessa ter enfrentado oposição dos moradores mais velhos – uma desconfiança natural logo resolvida.

A descoberta da praia por forasteiros causa arrepios à Maria Joana Alvarenga dos Santos, a dona Baíca, 61 anos, nativa que não quer vivenciar de novo os conflitos de posse de terra que marcaram a história do lugar. “Um grande fazendeiro chegou a espalhar búfalos perto da vila para espantar os moradores, forçando-os a vender as terras a preço de banana”, recorda-se dona Baíca. Ele conta o desfecho da pendenga: “o fazendeiro acabou expulso a tapa”.

Da Praia do Sono, percorremos uma trilha cheia de mirantes espetaculares de onde avistamos florestas beijando enseadas de mar azul, cercadas pela Reserva Ecológica de Joatinga e pela Área de Proteção Ambiental de Cairuçú. Após 40 minutos de caminhada, chegamos à Praia de Antigos, um lugar totalmente desabitado. Poucos metros à frente, alcançamos a Praia de Antiguinhos e, depois, Galheiras, habitada por um morador solitário – o caiçara Luziano Costa, 52 anos. Ele trocou a pesca, já decadente, pelo trabalho de caseiro. “Não queremos estradas, porque com elas vêm favelas e bandidos, e preferimos continuar como no tempo de nossos avós”, afirma Luziano. “Mas precisamos encontrar uma saída, pois a pesca está fraca e os homens da lei proíbem cortar árvore para plantar”.

“A presença de áreas de proteção ambiental está ajudando a manter algumas praias quase intocáveis”, afirma Gabriel Werneck, dono da RioHiking, operadora de turismo de aventura no Rio, especializada em descobrir refúgios ainda preservados, destinos para visitantes, principalmente estrangeiros, que buscam sossego e contato com a natureza. Rodando pela Rio-Santos, estacionamos o carro em Magaratiba, a 130 Km de Paraty, e de lá zarpamos para a Ilha Grande, antigo esconderijo de piratas que pilhavam barcos carregados de ouro após deixar os portos brasileiros com destino a Portugal, durante o período imperial. O fundo do mar, naquela região, é um cemitério de navios naufragados. Um detalhe faz toda a diferença: nos 36 Km de extensão da ilha, a existência de florestas e restingas preservadas por lei, onde é proibido desmatar e construir, tem guardado para as futuras gerações uma vasta coleção de praias desertas. Além disso, o presídio da Ilha Grande, famoso cárcere de presos políticos na ditadura, manteve restrito o acesso dos visitantes, até ser desativado e implodido, em 1994.

Após essa data, a população local multiplicou e a região passou a receber número crescente de visitantes em busca de lugares tranqüilos perto da metrópole carioca. Se no tempo do presídio, há 10 anos, existiam somente duas pousadas, hoje são 185 cadastradas, sem contar as clandestinas e os campings. Os porões da cadeia, atualmente em ruínas, passaram a ser atração para quem se aventura a caminhar 13 Km até chegar à Praia dos Dois Rios, partindo da Vila do Abraão, principal povoado da ilha, descoberta pelo navegador André Gonçalves, em 1502. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro, hoje responsável pelo que restou do presídio, mantém no local uma base de campo e em 2005 começará a recuperar uma parte dos escombros, para a instalação do Museu do Cárcere e de um centro de visitantes que exibirá pesquisas com a fauna e a flora locais.

A rotina pacata do vilarejo, onde moram as famílias de ex-guardas e de ex-presidiários, deve ficar mais agitada, embora seja proibido construir pousadas e montar acampamentos. Numa esquina, arrodeado pelos inseparáveis cachorros, encontramos um senhor de barbas brancas e longas – Júlio de Almeida, 74 anos, um ex-detento que chegou ao presídio em 1957 e está em liberdade condicional até o fim da pena, em 2014. Se o passado de condenações o enquadrava como um jovem perigoso, hoje Júlio é um boa-praça, sempre procurado pelos visitantes. Não é para menos. O anfitrião representa a história-viva da cadeia, considerada intransponível devido ao isolamento. Entre os personagens que viveram com ele na prisão estavam Leonel Brizola, Castor de Andrade e Madame Satã, o travesti matador do Largo da Carioca, famoso também por fazer shows para os presidiários no teatro da cadeia da Ilha Grande.

“As pessoas de fora representam um grande empurrão para melhorar a nossa vida”, destaca Júlio. É preciso, contudo, tomar cuidados. Várias ameaças rondam o Parque Estadual da Ilha Grande, de 40,8 Km². “O desmatamento para instalação de campings, a caça e a coleta de bromélias e orquídeas são as principais”, revela Ibá dos Santos, administrador do parque. Além de um plano com normas para evitar a ocupação desordenada, as autoridades discutem como restringir o número exagerado de visitantes, evitando problemas com lixo e esgoto. Por enquanto, praias quase desertas como Lopes Mendes, Aventureiro e Feiticeira e as piscinas naturais dos lagos Verde e Azul – só alcançados por barcos ou trilhas ecológicas, algumas de longo percurso -- continuam cenário incomum para um balneário situado entre as duas maiores metrópoles do país. No total são 106 praias – ou 114, se contarmos aquelas que se formam no recuo da maré.

Santa tranqüilidade! Não é preciso ir tão longe para explorar paisagens que se mantém como nos tempos em que Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro, em 1565, na luta contra os corsários franceses atraídos pelo rendoso comércio do pau-brasil. A somente 40 minutos da movimentada Praia de Copacabana, perto da Barra de Guaratiba, zona oeste do Rio, tomamos uma trilha de uma hora e meia até alcançar enseadas de areia branca e água cristalina incrustadas entre montanhas onde carros não podem chegar, como as praias do Perigoso, Meio, Funda e Inferno. Sinais de civilização nessas paragens, só pegadas na areia – poucas, diga-se de passagem.

O desafio de encontrar lugares assim reserva surpresas. Navegar a bordo de um caiaque na Baía de Guanabara pode parecer uma aventura indigesta, tendo em vista a fama da poluição ali existente. Nada disso. Trata-se de uma experiência sem-igual. Saindo Praia da Urca, situada dentro da Fortaleza de São João, remamos 30 minutos até a Ilha da Laje, tendo ao fundo a enseada de Botafogo, o Pão de Açúcar e o Corcovado. A ilha é na verdade uma fortaleza de pedra, o Forte do Lages, que serviu para a proteção militar da entrada da Baía, mas hoje está abandonado, em ruínas. Através de uma escada de corda, pendurados sobre o mar, conseguimos entrar na gigantesca estrutura – da plataforma de acesso, situada a cerca de 10 metros de altura, os mais afoitos arriscam um salto para o mergulho.

Remar para atingir recantos inexplorados na orla carioca é a especialidade de Simone Miranda Duarte, 45 anos, atleta premiada em provas internacionais de canoagem. Além de oferecer cursos de caiaque nas águas da Baía de Guanabara, Simone é procurada por pessoas que querem fugir do burburinho das praias movimentadas e remar até ilhas situadas bem próximo a elas, como a de Cotunduba, onde se chega navegando 45 minutos – um esforço que vale a pena: a transparência da água permite observar peixes.

Os aventureiros em melhor forma física podem ir mais longe e chegar até as inabitadas Ilhas Cagarras, após uma hora e meia remando. Há quem prefira atravessar a Baía de Guanabara e aportar na praia de Adão e Eva, em Niterói. “É preciso enfrentar desafios para experimentar novos caminhos de convivência com a natureza marinha”, ressalta Simone. Assumir desafios, aliás, é a proposta do samba-enredo da Mangueira, na Marques de Sapucaí em 2005. Que nos perdoem dona Zica, Jamelão e outros ícones da história do carnaval mangueirense. Certo mesmo estava o carioquíssimo Tom Jobim, nos versos da bossa-nova:

“As praias desertas continuam

Esperando por nós dois

E este encontro eu não devo faltar

O mar que brinca na areia

Está sempre a chamar

Agora eu sei que não posso faltar ...”

(As Praias Desertas, Antônio Carlos Jobim)

BOX

Privilégio de poucos

Quando ocupou o poder, nas décadas de 30 e 50, o presidente Getúlio Vargas tinha o lugar como um refúgio de privacidade. Da mesma maneira, a primeira dama do governo Figueiredo, dona Dulce, na ditadura dos anos 70, mandava impedir o acesso de qualquer pessoa para que pudesse deliciar-se nas praias desertas sem amolação. Mas foi depois que o presidente Fernando Henrique Cardoso declarou ser aquela paisagem o seu paraíso de verão que a Restinga de Marambaia ganhou projeção nacional, embora a regalia seja para privilegiados. Essa extensa faixa de restinga de 42,5 Km, que avança mar adentro na Baía de Sepetiba, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, é uma área exclusiva das Forças Armadas. Exército, Marinha e Aeronáutica desenvolvem, em diferentes pontos da restinga, atividades de treinamento militar. Somente o Presidente da República e os militares e suas famílias, salvo raras exceções, podem entrar na área. O presidente Lula ainda não visitou esse paraíso escondido – ninguém sabe quanto tempo resistirá. Motivos para tentação não faltam: a Marambaia, protegida pelos militares, tem um belo acervo de praias, matas, lagoas e manguezais em ótimas condições de preservação.

Com autorização da Marinha, embarcamos no cais de Itacuruçá, a 94 Km da capital carioca, rumo à Ilha da Marambaia, no extremo da restinga. Cruzamos a Baía de Sepetiba, numa viagem de 50 minutos onde é possível avistar várias de suas 365 ilhas e também golfinhos. A Marambaia, nosso destino final, é habitada por cerca de 400 ilhéus, descendentes dos escravos que trabalhavam nas antigas fazendas de café do proprietário Joaquim Breves. O local funcionava como um entreposto de comércio de escravos, onde os negros que chegavam da África eram submetidos a regime de engorda antes de serem vendidos. A ilha chegou a abrigar 3 mil deles, no auge do ciclo cafeeiro. Com a abolição, a maioria permaneceu na região, vivendo principalmente da pesca, atividade que perdura até hoje.

Além de reivindicar energia elétrica, escolas de nível médio e posto médico, os atuais moradores, classificados como descendentes de quilombos, lutam pela posse de suas terras, hoje nas mãos da Marinha. “Não troco esse lugar por nenhum outro”, afirma Dionato de Lima Eugênio, 63 anos, bisneto de escravos e presidente da associação dos moradores civis da ilha. A comunidade preserva tradições negreiras, como a prática da capoeira. No cardápio das festas, ao invés de peixes, a feijoada é a atração principal, degustada como no tempo dos escravos, quando a casa-grande destinava as piores partes do porco para a senzala.

O Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (Cadim), da Marinha, ocupa as terras das antigas fazendas. A senzala foi adaptada como hotel para militares e suas famílias e amigos, além de pesquisadores autorizados a estudar a rica biodiversidade da restinga. Alguns animais só existem ali, como a rã Leptodactylus marambaeae. Os lagartos-de-praia, já extintos no continente, continuam vivendo naquele litoral preservado. Jacarés habitam a Lagoa Vermelha, onde se chega após três horas de uma dura caminhada. Tartarugas sobem à tona a qualquer hora, inclusive em pontos de maior movimentação de barcos, como o cais da Marambaia. “Ainda bem que até hoje não conseguiram tirar as Forças Armadas para instalar resorts nesse lugar paradisíaco situado em plena capital”, ressalta o biólogo Roberto Xerez, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As praias são a perder de vista. Na do Sino, encontramos o casal de remadores Alexandre Fitaroni e Fernanda Cabral, que retornava de uma viagem de caiaque de 300 Km entre o Rio de Janeiro e a Ilha Grande, e foram atraídos pela paisagem virgem daquele recanto. Apesar dos avisos indicando área militar, a dupla desembarcou na praia para descansar e secar toda a tralha levada nos apertados caiaques – duas pranchas, barraca, panelas, fogareiro e roupas, entre outros apetrechos. Mas a alegria não durou muito, pois logo chegou um militar da Marinha ordenando que fossem embora. Eles já estavam acostumados. Na manhã anterior, em outra praia da restinga, foram acordados na barraca e expulsos por soldados do Exército.

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