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Rio de Janeiro (RJ) - O jardim do imperador

· Rio de Janeiro

“Meu querido Jardim Botânico

De transcendental meditação

Quanta vez experimentei o pé

Na areia grossa de tuas quietas alamedas

De manhãzinha, cedo, o tempo enfarruscado

Manhã noiteira, ao longo dos riachos”

 

(Tom Jobim, em manuscrito publicado no livro Meu Querido Jardim Botânico, Jobim Music, 2005)

 

 

O lugar, como mostra a declaração de amor acima, encantava o poeta e maestro Tom Jobim (1927-1994). Era o preferido entre as maravilhas do Rio de Janeiro que o inspiravam. Visto do Cristo Redentor, no alto do Corcovado, o corredor de palmeiras imperiais chama a atenção na paisagem verde ao pé das montanhas cobertas pela Floresta da Tijuca. Ali se localiza o Jardim Botânico, famoso cartão-postal da capital carioca, que completa 200 anos de existência. Criado por D. João VI cinco meses após chegar ao Brasil com a Família Real, em 1808, o antigo Jardim da Aclimação, depois Real Horto, tinha o papel de receber e aclimatar as especiarias vindas das Índias Orientais.

De beleza exuberante, nada mais natural que fosse freqüentado como um parque, um oásis de tranqüilidade em meio ao caos urbano. Ao longo das décadas, esse refúgio para o lazer ao ar livre, palco para a locação de filmes e telenovelas, ganhou importância científica. Montou coleções botânicas a partir das plantas coletadas por seus pesquisadores em expedições na natureza. Hoje, ao celebrar o bicentenário, o Jardim Botânico busca novos caminhos. E desponta como fonte de pesquisas sobre a flora brasileira, peça-chave para o país conhecer – e defender – a sua biodiversidade.

“Vamos centralizar no Brasil os estudos sobre espécies vegetais ameaçadas”, revela Fábio Scarano, diretor de pesquisas do Jardim Botânico. Marco dessa nova era é a inauguração do Centro Nacional de Conservação da Flora Brasileira, prevista para os festejos do bicentenário, em junho de 2008. Equipados com aparelhagem moderna, os laboratórios estão prontos para fazer estudos de biologia molecular e de genética das plantas, com foco nas espécies ameaçadas. A última lista oficial inclui 108 vegetais em risco de extinção no país e uma nova relação, elaborada pela Fundação Biodiversitas referente ao período de 2005 a 2008, deverá ser divulgada nesse primeiro semestre. “Nosso trabalho será aprofundar estudos sobre a ecologia, a reprodução e as áreas onde essas espécies ocorrem, com objetivo reduzir as ameaças e propor ao governo instrumentos legais para protegê-las”, explica Scarano.

Salvar o pau-brasil

“É preciso traçar um plano para retirá-las da lista vermelha”, diz o pesquisador, citando como exemplo o que já acontece com o pau-brasil – uma das espécies mais ameaçadas, exploradas de maneira predatória desde os tempos da colonização como fonte de madeira e pigmentos. Hoje a árvore é utilizada principalmente para a produção de arcos de violino. “Ao mapear a ocorrência da espécie no país, descobrimos que a maior parte está fora das áreas protegidas”, revela o pesquisador Haroldo Cavalcante de Lima, há vinte anos estudioso do pau-brasil. Ele diz que o desafio agora é usar a genética para entender as diferenças entre os três tipos de pau-brasil existentes na natureza, seus ambientes e suas relações com a qualidade da madeira. A informação é importante para criar reservas ecológicas e subsidiar plantios para o aproveitamento comercial da espécie.

O pau-brasil, não poderia deixar de ser, é destaque no herbário do Jardim Botânico. Criado em 1890, a coleção guarda hoje perto de 500 mil amostras de plantas retiradas da natureza, ressecadas e fixadas em pastas de arquivo. Em paralelo, um banco de DNA guarda informações sobre a diversidade genética das espécies. Informatizado, o herbário está conectado a redes internacionais para consulta e troca de dados, incluindo também as milhares de amostras de madeira do Brasil e do exterior existentes na xiloteca e os variados frutos mantidos na carpoteca.

O charme das palmeiras imperiais

Uma parte considerável dessa riqueza pode ser observada ao ar livre, como um museu vivo, no arboreto do Jardim Botânico. Além do pau-brasil e suas variações, há ipês, cedros, canelas -- todas árvores nativas. E também samambaias, bananeiras, begônias, bromélias e cipós, que compõem a vegetação de sub-bosque típica da Mata Atlântica. Da Amazônia, destacam-se o pau-mulato e as gigantescas samaúmas. Estão entre os 9 mil exemplares de vegetais lá plantados.

As primeiras plantas vieram das Ilhas Maurício, trazidas pelo militar português Luiz Abreu Vieira e Silva, entre as quais a Palma Mater, plantada por D. João, em 1809. Logo passou a ser conhecida como palmeira imperial e hoje vários exemplares ornamentam lado a lado a principal aléia do Jardim Botânico, com 640 metros de extensão. Essas árvores, capazes de alcançar 20 metros de altura, foram disseminadas depois que os escravos roubaram sementes para vendê-las a 100 réis cada uma – e o mesmo ocorreu com outras plantas estranhas ao Brasil, como a jaqueira, vinda da Índia, hoje existentes em várias praças e parques do Rio de Janeiro e diversas cidades brasileiras.

Em paisagem tão diversa, habitam aves em grande número. São periquitos, tucanos, maritacas, jacutingas e saracuras, entre muitos outras. Tico-tico, sabiás e bem-te-vis vivem ali o ano todo. Dividem espaço com insetos como cigarras, libélulas e borboletas, alem sapos e pererecas que vivem perto dos cursos d’água, e de cobras, a exemplo de jararacas e corais, que preferem a parte mais densa da floresta.

Reformas para o aniversário

Desde o Império, esse cenário mudou bastante. Ganhou jardins temáticos – o Roseiral, o Medicinal, o Japonês e o Sensorial, para os deficientes visuais. E também atrações, como as estufas para plantas insetívoras, o orquidário, o bromeliário e o cactário. Vários eles foram restaurados para os festejos dos 200 anos. E novos espaços foram criados, a exemplo do jardim dos beija-flores e o bíblico, que reúne plantas citadas no Livro Sagrado. O Aqueduto da Levada e o Caminho da Mata Atlântica, uma aprazível trilha em meio à Floresta da Tijuca, antes de acesso restrito, foram abertos à visitação.

Na celebração dos 200 anos, será inaugurado o Museu do Meio Ambiente, nas instalações de um casarão histórico recém-restaurado. O novo prédio abrirá as portas com uma exposição itinerante sobre Domenico Vandelli, homem de ciências que criou o Jardim Botânico de Lisboa e aconselhou D. João VI a fazer o mesmo no Rio de Janeiro. Tratava-se de um projeto estratégico: trazer espécies cultiváveis de interesse econômico para o reino.

Recentemente, um antigo depósito de tralhas foi recuperado para abrigar o Centro Cultural Tom Jobim. Ao lado do Museu do Meio Ambiente, compõe um roteiro cultural inédito por entre lagos e árvores. “Nos novos tempos, o Jardim Botânico começa a promover o diálogo entre ciência e cultura, entre meio ambiente e arte”, afirma Liszt Vieira, presidente da instituição. Essa é, segundo ele, a melhor maneira de aproximar o público da conservação da biodiversidade, fazendo o velho Jardim Botânico de D. João VI sair da torre de marfim.

 

 

“Meu querido Jardim Botânico

De transcendental meditação

Quanta vez experimentei o pé

Na areia grossa de tuas quietas alamedas

De manhãzinha, cedo, o tempo enfarruscado

Manhã noiteira, ao longo dos riachos”

(Tom Jobim, em manuscrito publicado no livro Meu Querido Jardim Botânico, Jobim Music, 2005)

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