Return to site

Rio de Janeiro (RJ) - “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”

 

Identidade que inspira novos caminhos diante dos antigos e novos problemas da capital carioca

· Rio de Janeiro

Banquinho, violão, roda de amigos. Descontração, alegria de um Rio de Janeiro em alto astral. As fotos antigas nas paredes guardam a memória dos áureos tempos; registram encontros históricos. Sentados despretensiosamente à mesa do antigo bar Veloso, na então rua Montenegro, Tom Jobim e Vinícius de Moraes se inspiraram para compor a imortal Garota de Ipanema -- ainda hoje uma das dez músicas mais conhecidas e tocadas no planeta. É ícone de um movimento musical que comemora 50 anos: a bossa nova, marco da identidade brasileira que encanta o mundo, promove o país lá fora e atrai atenções e dólares para o charmoso bairro carioca que preserva a “beleza que não é só minha” e o “doce balanço a caminho do mar”.

Ao longo das décadas, o velho botequim onde antigamente os clientes tomavam cerveja com tremossos e davam guaraná às crianças, passou a se chamar Garota de Ipanema; a rua ganhou o nome de Vinícius de Moraes, e o bairro se tornou cartão-postal obrigatório do Rio de Janeiro, cidade-berço da bossa-nova. Oficialmente, o movimento nasceu em agosto de 1958, quando João Gilberto criou uma nova batida ao violão, misturando as raízes do samba à modernidade do jazz norte-americano, em “Chega de Saudade”. No começo, tratou-se de uma expressão cultural intimista, restrita a noitadas em apartamentos da Zona Sul carioca. Logo a bossa nova deixou os guetos, chegou às boates e bares e ganhou notoriedade. Encontros memoráveis eram realizados no Beco das Garrafas, em Copacabana, foco atual de projetos para a revitalização e a retomada do antigo apogeu. De lá, a turma da bossa-nova costumava seguir para o restaurante Fiorentina, no Leme, onde encontrava ídolos como Ary Barroso -- o autor de Aquarela do Brasil, um dos clientes mais assíduos, homenageado por uma estátua na calçada à porta do estabelecimento.

Não demorou e o novo ritmo começou a ter grande exposição no exterior, depois que compôs a trilha sonora do filme “Orfeu Negro”, lançado em 1959 pelo cineasta francês Marcel Camus, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. A partir de 1962, quando os brasileiros levaram a novidade ao palco do Carnegie Hall, em Nova York, o gênero ganhou interpretações de nomes internacionais famosos, como Frank Sinatra e Elvis Presley -- e conquistou definitivamente o mundo.

Retrato do Brasil no exterior

A bossa nova marcou a imagem do país -- suas belezas naturais, suas expressões culturais e, principalmente, o peculiar jeito de ser brasileiro. “Não poderíamos ter um cartão-postal melhor”, afirma Rubem Medina, secretário especial de Turismo do Rio de Janeiro. “É uma marca muito forte e importante, capitalizada pelo turismo”. Tanto assim, que o ritmo cinqüentão foi nesse ano tema central da participação do país na Bolsa Internacional de Turismo (BIT), em Milão. O objetivo foi divulgar a Marca Brasil junto ao mercado italiano, o quarto do mundo e o segundo da Europa que mais emite turistas para os destinos brasileiros. Dentro do país, diversas ações de marketing pegaram carona nesse aniversário, com lançamento de livros, exposições e shows comemorativos. Na capital carioca, a bossa nova, tombada como patrimônio cultural da cidade, se transformou em atrativo turístico -- dos antigos bares onde o ritmo nasceu, às lojas de disco especializadas nessas canções e museus que guardam a sua história e hoje compõem roteiros culturais.

De todos os bairros cariocas, Ipanema é o que mais celebra o estilo de vida e as belezas cantadas por Tom, Vinícius e seus companheiros. Inspiradora, a paisagem pode ser apreciada de vários ângulos. Da Pedra do Arpoador, pedaço da praia freqüentado por surfistas, avistam-se o morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea e o Cristo Redentor -- além, é claro, da imensidão do mar pontilhado por ilhas. No calçadão da sofisticada avenida Vieira Souto, passarela de artistas globais e seus paparazzis, o carioca se exercita para manter o corpo em forma e a vida saudável. Essas areias, não raro disputadas palmo a palmo, constituem um cenário de várias tribos -- da turma GLS em frente à rua Farme de Amoedo aos jovens do badalado Coqueirão, point de rodas de “altinho”, redes de vôlei e moçada sarada, próximo ao Posto 9 e à rua Vinícius de Morais.

Reduto de maisons e lojas de grife, como as existentes na avenida Visconde de Pirajá e imediações, Ipanema não esconde o ar blazé que alia descontração e requinte para atrair endereços de charme. Entre os destaques, está o luxuoso Hotel Fasano, à beira da praia, no Arpoador, ambientado na bossa nova. Vizinho ao lobby funciona o restaurante Fasano Al Mare, criado há um ano por Rogério Fasano com especialidade em frutos do mar ao estilo mediterrâneo. A iniciativa arrasta novos projetos de sofisticação, como o Banana Café, tradicional ponto de encontro carioca dos anos 80 e 90, que reabriu em Ipanema sob o comando do chef Ronaldo Canha.

“Alma” de Ipanema é atração turística

“Aqui está a melhor praia, as melhores lojas, os melhores restaurantes. É prático, é lindo”, afirma a empresária Carolina Fernandes, dona do Ipanema Beach House, hostel de luxo voltado para turistas de perfil diferenciado. “São pessoas que querem o melhor ponto, estão dispostas a pagar mais por isso e são exigentes, na maioria europeus bastante viajados”, descreve Carolina. Ela teve sorte, ao achar no bairro um casarão neoclássico de 1919 para montar o albergue com localização cinco estrelas, piscina, área externa com fontes e jardins e um toque de sofisticação. “Recebo mochileiros especiais”, conta a empresária, acreditando que Ipanema, além de tudo que já oferece, tem grande potencial para o turismo musical. “Ainda não somos iguais a Cuba nesse aspecto, mas podemos chegar lá”, diz.

“Muitos lá fora podem não saber onde fica o Brasil, mas identificam a nossa música”, ressalta Paulo Jobim, filho de Tom e herdeiro do maior acervo cultural da bossa nova, guardado no Espaço Tom Jobim de Meio Ambiente e Cultura. “Esse movimento musical retratava uma época do Brasil otimista e cheio de planos”, explica Paulo, indagando qual seria a contribuição da bossa nova para o Brasil de hoje. “Elevar a auto-estima do brasileiro, tendo como base o valor e o reconhecimento que tem essas batidas verde-amarelas no exterior”.

Quando o assunto é turimo, esse astral lá em cima é condição para abrir o sorriso e receber bem. É, entre outros fatores, uma motivação especial que se pretende conseguir com a criação de pólos turísticos-culturais-gastronômicos em Ipanema. Além do chamado “Quadrilátero do Charme”, envolvendo a área onde se concentram as grifes de moda, a Riotur se prepara para lançar o Pólo da Praça General Osório, onde se realiza todos os domingos a tradicional Feira Hippie. O projeto abrangerá uma extensa região de hotéis, restaurantes, lojas e bares, incluindo o Garota de Ipanema e outros pontos de encontro que marcaram a história da bossa nova. A idéia é promover o associativismo, ou seja, mobilizar os empreendedores em torno de objetivos comuns, em parceria com a prefeitura. Melhorias urbanas, sinalização, divulgação e segurança mais eficiente são algumas conquistas. “Isso sem contar com a melhor qualificação dos serviços, por meio de treinamento profissional, e com a maior sinergia para realizar conjuntamente eventos de promoção, como festivais gastronômicos”, explica Márcio Bahiense, diretor de planejamento da Riotur.

No aniversário dos 50 anos, a força da bossa nova dá asas à imaginação, com impactos no turismo. O escritor Ruy Castro, especialista na história desse movimento genuinamente nacional, costuma dizer que a bossa-nova não pode ser condenada ao passado. “Ela está em todos os lugares, dentro e fora do Brasil”, afirma o autor, que lançou em 2006 o “Rio Bossa Nova” -- um guia para o turista carregar debaixo do braço em andanças pela cidade. Da Rua Nascimento Silva 107, famoso endereço de Tom Jobim, em Ipanema, ao apartamento da cantora Nara Leão em Copacabana e aos antigos redutos da boemia carioca, o tour reúne atrativos agora redescobertos. Alguns desses lugares, ao longo das décadas, mudaram de função ou, engolidos pela modernidade urbana, já não existem mais. Outros continuam de pé e se revitalizam. Revigorada, a bossa nova ganha espaço entre cantores e compositores da atual geração e, no rastro do turismo, deixa de ser apenas nostalgia -- chega de saudade!

BOX-

O refúgio verde de Tom Jobim

Os olhos da bossa nova se voltavam quase sempre para as praias cariocas. Mas havia exceção. Além da beleza do mar e das moças ao sol, um lugar inspirava Tom Jobim como algo sagrado: o Jardim Botânico do Rio de Janeiro com suas aléias que serpenteiam árvores frondosas, lagos e chafarizes. Em manuscritos do compositor, publicados recentemente, encontra-se a declaração de amor: “Meu querido Jardim Botânico/De transcendental meditação/quanta vez experimentei o pé/Na areia grossa de tuas quietas alamedas/De manhazinha, cedo, o tempo enfarruscado/Manhã noiteira, ao longo dos riachos”.

Criado em junho de 1808 por D. João VI após a chegada da família real, o Jardim Botânico tinha a função de aclimatar especiarias vindas das Índias Orientais. Ao comemorar 200 anos, esse oásis de paz e tranqüilidade em meio ao caos urbano foi revitalizado, ganhou atrativos e novas funções. Além de jardins temáticos, como o Roseiral, o Medicinal, o Japonês e Sensorial para deficientes físicos, a reforma incluiu as estufas de plantas insetívoras, o orquidário e o bromeliário. Entre as atrações dos novos tempos, um antigo depósito de tralhas, tombado pelo patrimônio histórico, foi recuperado para abrigar o Centro Cultural Tom Jobim, com teatro, salas de aula e espaço para oficinas educacionais. Ao lado do Museu do Meio Ambiente, também criado na revitalização, compõe um roteiro cultural inédito por entre lagos e árvores.

“O Jardim Botânico começa a promover o diálogo entre ciência e cultura, entre meio ambiente e arte”, afirma Liszt Vieira, presidente da instituição. O legado de Tom é parte importante nesse processo. Nos últimos anos de vida, em suas entrevistas, o maestro da bossa nova falava mais sobre Amazônia do que sobre música -- uma paixão que hoje contribui para abrir um rumo diferente a esse cartão-postal carioca visitado por 600 mil pessoas ao ano.

Publicado originalmente na revista Host

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly