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Rio de Janeiro (RJ) - Revolução sustentável

Charmoso bairro de Santa Teresa

busca no turismo a força

para melhorar a qualidade de vida

 

· Rio de Janeiro

“Enquanto o sistema do mundo tentar destruir o que afronta seus mecanismos de repressão e suas ciências .... eu sou o que ele não esperava ... a prova viva da resistência”. Os versos do hip hop, escritos na arte dos grafiteiros no muro de um dos acessos ao Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, profetizam os novos rumos que o tradicional bairro carioca escolheu para melhorar a qualidade de vida, criar novos negócios e gerar emprego e renda, valorizando a cultura e a peculiar característica urbana do lugar. Reduto de artistas e intelectuais, Santa Teresa é um bairro glamouroso. Casarões antigos, recantos de Mata Atlântica, mirantes fenomenais com vistas para a Baía de Guanabara e ruelas e ladeiras por onde até hoje transitam os bondes compõem um cenário de charme – nos últimos tempos manchado, não se pode esconder, pelas mazelas da violência urbana.

A falta de alternativas acabou atingindo essa ilha de tranqüilidade em meio à capital carioca. A paz que atraía tantos moradores em busca de maneiras diferentes de viver na cidade grande acabou abalada. E o descompasso social, representado, entre outros fatores, pelo crescimento desordenado das favelas que pontilham as encostas locais, tornou-se evidente. Dois caminhos se apresentaram ao bairro: submergir na decadência ou dar a volta por cima. Escolheu-se a segunda opção -- com um diferencial, que poderá fazer Santa Teresa ir além de simplesmente recuperar o prestígio. A retomada de rumos começou a ser empreendida por uma via duradoura – a do turismo sustentável, que pela primeira vez no Brasil está sendo implantado em área urbana.

A mobilização que hoje permeia vários setores do bairro começou depois que João Vergara, 26 anos, e Leonardo Rangel, 25 anos, velhos amigos de escola, voltaram de uma viagem de férias pela Europa, em 2001 – tempos de vacas magras, quando o dinheiro curto os obrigou a buscar alternativas baratas de hospedagem. De lá, trouxeram a idéia do sistema bed and breakfast, inexistente no Brasil. Juntaram-se a mais um sócio, o guia de turismo Carlos Magno Cerqueira, 26 anos, também antigo colega do bairro, e montaram a empresa Cama e Café, para estruturar e agenciar uma rede de residências de Santa Teresa dispostas a abrir as portas para a hospedagem de turistas. O convívio com moradores-anfitriões, no lugar de hotéis ou pousadas, permite experimentar o estilo de vida local e ter contato mais íntimo com a cultura e com a realidade social. No total, 120 casas foram classificadas em quatro categorias, com diárias de casal variando entre R$ 65 e R$ 240, e os perfis dos hóspedes são cruzados com os dos anfitriões, para que a sintonia seja total. Aos poucos, foram agregadas ferramentas de marketing, como o cartão de afinidade que o turista ganha contendo cupons que podem ser trocados por cortesias em restaurantes, lojas e museus.

“Não são turistas comuns, mas pessoas que querem uma hospedagem personalizada para se entrosar com o lugar”, afirma Pedro Veludo, 58 anos, roteirista de jogos em CD que há 22 anos fugiu da revolução em Moçambique e buscou refúgio em Santa Teresa. A sala de sua casa, na Rua Oriente 22, aberta para os hóspedes do Cama e Café, tem uma parede e parte do teto adaptadas com pinos para escalada. Excentricidades assim são típicas do bairro, reduto de moradores que procuram o novo e o alternativo.

A hospedagem pelo sistema bed and breakfast é apenas um aspecto do modelo de turismo sustentável proposto para Santa Teresa. Alojar turistas, por si só, não contribuiria para fixar novos conceitos e atitudes no bairro. Foi preciso algo mais. Como gerar atrativos e desenvolver o turismo sem agredir o caráter residencial desta área urbana? Como conviver com os problemas sociais e envolver as comunidades, inclusive das favelas? “Para o negócio da hospedagem dar certo, foi necessário traçar um projeto bem mais amplo”, explica João Vergara, um dos sócios do Cama e Café, que até 2009 tem como meta de ser a maior rede brasileira de bed and breakfast, com ocupação média anual de 30%. A empresa participou das consultas abertas e fechadas para a elaboração das primeiras normas nacionais de certificação para meios de hospedagem em turismo sustentável, recém-elaboradas pelo Instituto de Hospitalidade – e é uma das candidatas a receber o selo de qualidade, em 2005.

Formado em desenho industrial, João poderia ter uma vida profissional bem-sucedida no escritório de design que herdou do pai, o artista plástico Carlos Vergara, que tem o atelier no bairro. Faixa roxa em jiu-jitsu, poderia também fazer o tipo do bad boy carioca com um pittbull na coleira, rodando pelos points da moda nas praias da Zona Sul. Mas não foi assim. Ajudar a dar um destino nobre para Santa Teresa, bairro onde sempre viveu e estudou, se apresentou para ele como um desafio muito mais forte.

A idéia pegou. Era um caminho sem volta. Como as atividades para consolidação do turismo no bairro acabaram extrapolando o foco de negócios da empresa, João e os sócios articularam a montagem de uma organização não governamental, a Lunuz, para unir forças e integrar os diversos atores que participam desse processo. A sede da ong é um casarão, equipado com um dormitório-modelo e salas para cursos de capacitação, onde funcionará o primeiro Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Turismo Sustentável do país.

Como efeito dominó, a proposta contagiou moradores, comerciantes e poder público. O Sebrae abraçou a idéia, lançando o projeto Santa Teresa Território Turístico Sustentável, para desenvolver atividades capazes de estreitar laços sociais e capilarizar os novos conceitos no bairro, além de realizar inventários turísticos, planos de manejo e cursos de capacitação. “Da hospedagem ao entretenimento, o trabalho está conseguindo mexer com toda a cadeia produtiva atrelada ao turismo e é extremamente participativo, o que garante legitimidade e continuidade”, destaca Heliana Marinho, do Sebrae-RJ. Para 2005, segundo adiantou Heliana, o plano é iniciar a operação, em Santa Teresa, dos chamados roteiros populares. São percursos que se faz principalmente à pé, sem necessidade de transporte de massa e grandes estacionamentos, que não comportam no bairro. Para isso, o Sebrae está estabelecendo uma parceria com o Ircord (Instituto Regional de Cooperação e Desenvolvimento, sigla em francês), que aplicou a metodologia com sucesso nas rotas das carpas, dos vinhos e dos castelos, na região da Alsacia, noroeste da França.

Um dos roteiros já oferecidos em Santa Teresa é a visita ao morro dos Prazeres, que abriga uma das 17 favelas dos arredores. As próprias comunidades definiram os atrativos a serem explorados. Durante o percurso, além de mirantes que proporcionam visitas deslumbrantes do Rio de Janeiro, o turista visita biroscas e barracas de artesanato, mantêm contato com moradores e conhece projetos sociais e culturais conduzidos no morro – um celeiro de boas idéias, como o @galera, voltado para a inclusão digital, além da padaria e da rádio comunitárias. Enfim, é possível conhecer nas favelas uma realidade bem diferente daquela mostrada na TV. “Tínhamos de montar um esquema de visitação para receber muitas pessoas que chegam aqui perto e tinham medo de subir”, afirma Zoraide Soares, a Cris, líder comunitária que começou a estudar inglês e fará os cursos de capacitação de guias do Sebrae, para tornar o velho projeto uma realidade.

“O roteiro ajuda a reduzir a tensão social no bairro”, ressalta Gabriel Barrouin, 23 anos, dono da empresa que opera os passeios na favela, a Rio Hiking, instalada na casa onde funciona a Iniciativa Jovem, incubadora de empresas patrocinada pela Shell em Santa Teresa. A casa abriga também o Cama e Café e outras cinco empresas emergentes. A Rio Hiking realiza caminhadas e escaladas em várias montanhas e praias cariocas e agora aposta no diferencial de Santa Teresa, lançando o Santa Maravilha Tours – um programa de quatro roteiros que incluem passeios de jipe e bonde, visitas a museus e gastronomia. Além do exótico pastel de feijão do Bar do Mineiro, dirigido por Diógenes Paixão, um dos maiores colecionadores brasileiros do pintor Volpi, o destaque culinário são os frutos do mar comprovadamente frescos do restaurante Sobrenatural. A qualidade é resultado do casamento de uma chef de cozinha, Sévula, com o dono de um barco pesqueiro, Carlos Moura, o Carlinhos, filho de pescador – um raro brasileiro, talvez o único, que tem a estranha paixão pelo trabalho de descascar camarões. Ele comemora: “Finalmente estão reconhecendo a nobreza do bairro”.

O restaurante se localiza no Largo dos Guimarães, um dos pontos mais movimentados de Santa Teresa, onde os trilhos dos bondes se cruzam. Perto dali, subindo e descendo pelas ruas apertadas, avista-se patrimônios culturais importantes, como o Museu da Chácara do Céu, antiga residência do empresário e mecenas Raimundo Castro Maya. De belos jardins, a casa proporciona uma vista de 360 graus da cidade e guarda um rico acervo com obras de Monet, Matisse, Picasso, Portinari e a maior coleção sobre paisagens brasileiras do artista Jean-Baptiste Debret. Na Igreja de São Paulo, além das missas, o altar é palco de projeções de filmes de arte do circuito alternativo, atraindo um público que nada tem de carola. Iniciativas assim, digamos claramente, são “coisas” de Santa Teresa. Surpresas, como se pode encontrar na rua Leopoldo Fróes, onde uma porta de garagem dá acesso ao maior acervo brasileiro de literatura de cordel, mantido pelo autor Gonçalo Ferreira da Silva com 13 mil títulos entre os 200 mil folhetos do estoque.

As novas luzes que pairam sobre Santa Tereza dão ao lugar um valor maior do que a fama da boemia e dos bares que são palcos de rodas de samba e chorinho. Aos poucos, casarões antigos abandonados estão sendo reformados. O canadense Gwenael Allan, 38 anos, descobriu o lugar há um ano e meio. Encantou-se. Na onda dos projetos de incentivo ao turismo, representa um grupo de investidores europeus e americanos que está investindo na compra de mansões coloniais. “Queremos montar um clube de hospitalidade, para visitantes que querem serviços personalizados, especialmente profissionais estrangeiros que atuam na indústria do lazer, que terão acesso a todo suporte técnico necessário para produzir enquanto descansam”, revela Allan. Ele justifica: “Este lugar está longe da velocidade do mundo”.

Por esse motivo, os coordenadores do projeto turístico do bairro sabem que terão limites. “É preciso crescer dentro dos padrões sustentáveis e depois, ser for o caso, replicar a experiência em outro bairro ou cidade”, afirma Glauber Santos, do Instituto Theoros, responsável pelo projeto de capacidade de carga de Santa Teresa, evitando impactos negativos. “Pela primeira vez a metodologia VIM – Visitors Impact Managment, com as devidas adaptações, é aplicada em zona urbana”, revela Santos.

Os desafios são muitos. “Não podemos deformar as características do lugar e, ao mesmo tempo, não podemos nos omitir e fugir das questões sociais”, arremata Ruth Casoi, professora de yoga, contadora de histórias, poeta e artista plástica especializada em poemas bordados em painéis de tecidos. Ruth articula atualmente o projeto Residências Culturais, no qual várias residências-ateliers de artistas plásticos abrirão as portas ao público de maneira permanente, durante todo o ano – e não apenas durante o evento Arte de Portas Abertas, que acontece anualmente no bairro, durante um fim de semana. Experiências não faltam: Susanita Freire produz bonecos para peças teatrais; o casal Hubert e Gabi organiza cabarés com espetáculos de circo e dão aulas de trapézio e cama elástica; e dona Dinorah Parreira orgulha-se em exibir a tela que pintou na porta de casa. Em busca de tranqüilidade, o ex-bancário Wanderley Figueiredo, 50 anos, aplicou o dinheiro do plano de demissão voluntária do Banco do Brasil numa pousada, que depois não deu certo, e acabou se refugiando em Santa Teresa. Hoje trabalha como designer de luminárias e hospeda turistas em casa. “Através disso, poderemos contribuir para mudar atitudes”, afirma Figueiredo.

Mudança de atitudes, aliás, é o objetivo principal do trabalho que começa a ser desenvolvido nas escolas de Santa Teresa pelo Instituto Virtual de Turismo, coordenado por pesquisadores do curso de Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio de Janeiro. De forma voluntária, os estudantes participam de palestras e oficinas para estimular a criatividade e o conceito de sustentabilidade nos colégios Tomás de Aquino, Taiguara e Ceat, de onde, aliás, saíram os cérebros que hoje comandam a virada de Santa Teresa. Na mão deles estão os destinos do lugar. A terapeuta corporal Ana Clark, dona de uma mansão luxuosa que abriu um dos quartos para os hóspedes, confia na força dos jovens para fazer mudanças, preservando o que o bairro tem de melhor: a hospitalidade. Ela ressalta: “Aqui não somos números, temos nome”. Em homenagem a essa peculiar característica de Santa Teresa, eis os nomes de personagens dessa história pioneira: João, Leonardo, Carlos, Rudi, Heliana, Zé Andrade, Gabriel, Cris, Pedro, Gwenael, Glauber, Ruth, Susanita, Hubbert, Gabi, Dinorah, Wanderley, Gonçalo, Ana, Gabriela,Simone, José Henrique, Diógenes, Carlinhos, Sévula, Uendel, Zila, Flávio, Mariana, Cláudia – e tantos outros anônimos que trabalham para esse futuro melhor.

BOX – História de mudanças

Isolada do resto da cidade, Santa Teresa, antigo Morro do Desterro, foi território de cultos africanos e redutos de escravos fugitivos e bandidos, até meados do século XVII. Rico em nascentes, o lugar começou a ser valorizado, quando começou a abastecer a cidade do Rio de Janeiro com as águas do Rio Carioca. Os Arcos da Lapa, um dos atuais cartões-postais da cidade, sustentavam o grande aqueduto, concluído em 1750, levando água para o Chafariz da Carioca, com suas 16 fontes que enchiam os baldes da população. No fim do século XIX, um trilho foi colocado sobre o aqueduto para a passagem dos bondes, ligando o centro da cidade a Santa Teresa.

Santa Teresa é ainda hoje um dos caminhos de acesso ao Cristo Redentor. Com a inauguração da estátua, em 1931, as chácaras que existiam na região foram loteadas, favorecendo o avanço da ocupação urbana. Foi construída a Estrada de Ferro do Corcovado, uma das únicas do Brasil que se destina somente ao turismo. Nos anos 40, por conta dos aluguéis mais baratos, do clima agradável e da proximidade das florestas, o fluxo da urbanização tornou-se mais intenso. Muitos procuravam o bairro por razões de saúde. Após as inundações da década de 60, que atingiram em cheio Santa Teresa, muitas casas foram abandonadas, dando lugar mais tarde à ocupação irregular por representantes do movimento hippie. Durante o regime militar, foi reduto de ativistas políticos que precisavam se isolar para escapar das garras do autoritarismo.

“Em 1984, Santa Teresa torna-se por decreto a primeira Área de Preservação Ambiental do Brasil, o que demonstra o pioneirismo do lugar na causa ecológica e a necessidade de se continuar com as ações que conservem o patrimônio histórico, arquitetônico e cultural”, afirma o historiador Marcelo Gomes Arantes, morador do bairro. Atualmente, entidades e personalidades locais estão unidas no Fórum da Agenda 21 Local de Santa Teresa, no qual são definidas as diretrizes de sustentabilidade, para garantir o acesso das gerações futuras às riquezas naturais e culturais.

BOX – Jardins encantados

Quando se fala em turismo sustentável, os atrativos não se restringem a hotéis, restaurantes, lojas, museus, praias, rios ou florestas. É preciso agregar componentes culturais e sociais. Em Santa Teresa, entre os atrativos turísticos, um em especial se destaca pelo exotismo: os jardins orgânicos, como o que existe na casa do artista plástico Zé Andrade, famoso pelas miniaturas de artistas, políticos e celebridades, vendidas em quase todas as livrarias e cinemas do Rio de Janeiro. São temperos e plantas medicinais, que ele conhece como a palma da mão. Cada uma tem uma propriedade e um cheiro próprio – atração para os turistas que se hospedam na casa do artista. Uma das mais cultivadas ali é a capuchinha, uma flor comestível com alto teor de vitamina C. “Os antigos navegadores levavam-nas nas caravelas para prevenir o escorbuto, doença causada pela carência desta vitamina”, conta o artista, que tem o hábito de assar pizza de flores no forno à lenha para os hóspedes.

A idéia dos cultivos já chegou a mais sete casas de hospedagem, onde os proprietários desejam transformar os quintais em hortas de ervas medicinais. Um terço da produção será doada para o posto de saúde do bairro, que produz e distribui fitoterápicos para tratamento e prevenção de várias doenças.

O projeto-piloto dos jardins, modelo que será aplicado em todo o bairro, está sendo desenvolvido nas encostas do Equitativa, um tradicional conjunto residencial, no passado procurado por quem almejava uma vida tranqüila longe da confusão da cidade. Com o passar dos anos, por conta da violência, o condomínio viveu o dilema de se isolar por definitivo ou amenizar o problema, apostando na possibilidade de um convívio mais harmônico com as favelas vizinhas.

Cultivar hortas orgânicas com árvores frutíferas, plantas medicinais e até estufas de orquídeas em áreas degradadas está abrindo novas perspectivas para o lugar. “Esse é o diferencial do turismo sustentável”, enfatiza o biólogo Rudi Moreno, 25 anos, morador do Equitativa que trocou o futuro promissor como pesquisador em laboratórios de biotecnologia das universidades pelo trabalho comunitário. Filho de psicólogo que se mudou para Florianópolis em busca de paz e segurança, Rudi quer provar ao pai que o destino do bairro pode ser diferente. Além de mobilizar os jovens do condomínio para o cultivo orgânico, o biólogo presta assistência técnica aos anfitriões que começam a cultivar plantas medicinais, no projeto apoiado pelo Sebrae.

Publicado originalmente na revista Host

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