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Rio Tinto (PB) - Onde o dia começa mais cedo

Porção mais oeste da Mata Atlântica une esforços de conservação

· Paraíba

A capital da Paraíba, João Pessoa, extremo oriental das Américas, é o local onde o sol nasce primeiro, no Brasil. Tal condição já seria motivo de sobra para a chegada de turistas em busca de praia e diversão à beira daquele mar esverdeado de águas mornas. Mas a fama do lugar não está propriamente no nascer, mas no pôr do Sol. É um momento de celebração – de louvor ao visual do céu pintado com matizes de dourado e vermelho. Um emocionante e reflexivo adeus no fim de tarde aos últimos raios de luz, ao ritmo do Bolero de Ravel, tradição que se mantém viva na praia fluvial do Jacaré, no cenário da Mata Atlântica próximo de onde o rio Paraíba encontra o mar.

Repleto de manguezais, o estuário é reduto dos primeiros povoamentos empreendidos no país e via de acesso comercial para o interior no período colonial. Simboliza a dura resistência a uma exploração da floresta que vem de muito tempo, com impactos ambientais atualmente acelerados pela pressão desenvolvimentista. Nas últimas décadas, o avanço de novos projetos econômicos, da expansão imobiliária e da popularização do turismo acendeu o sinal de alerta no entorno de um dos principais ícones que se mantiveram conservados na região: a Floresta Nacional da Restinga de Cabedelo, com seus 103 hectares – pequena, mas não menos valiosa, a única unidade de conservação desta categoria que protege ecossistemas tipicamente costeiros no país.

A área abrange uma mancha de floresta praticamente urbana, adjacente às periferias da capital e cidades que cresceram ao redor. A passagem é livre frente à guarita de vigilância desguarnecida. Mais à frente, uma surpresa: a estrada de acesso que margeia a vegetação densa cruza uma linha férrea. A buzina do trem de passageiros logo denuncia tratar-se de uma Floresta Nacional bastante peculiar – também conhecida como Mata do Amém, por abrigar uma antiga vila de residências onde vivem idosos de baixa renda atendidos pela Amem.

O lugar é ponto de parada dos vagões que desde o Século XIX transportam moradores entre a cidade de Cabedelo e a capital, passando por refúgios naturais e zonas de grande importância para o patrimônio histórico. Esse, que é um dos últimos remanescentes de floresta de restinga do litoral brasileiro, abriga também as instalações do Cemave e a sede regional do ICMBio, responsável pela coordenação geral de 34 unidades de conservação nordestinas. Do elevador panorâmico que serve o edifício, avista-se do alto o cenário de manguezais, rios e ruínas de chaminés de antigas fábricas, vestígios do poderio econômico do passado.

União de forças para a conservação

No lugar antigamente ocupado por um engenho de açúcar, funciona o quartel-general de uma ambiciosa iniciativa de conservação: o projeto Extremo Oriental das Américas, focado na gestão integrada de atividades produtivas, pesquisas científicas e políticas públicas das três esferas de governo para garantir um novo modelo de progresso capaz de proteger o que restou de Mata Atlântica e seus ambientes costeiros. “É um plano ousado, pois exige a articulação de vários atores e mexe com a agenda local do desenvolvimento”, admite Fabiano Gumier Costa, chefe da Floresta Nacional e coordenador do projeto. Não é uma tarefa fácil. Mas a experiência dele com a complexidade dos conflitos amazônicos, principalmente na região de Carajás, no Pará, onde dirigiu unidades de conservação, pode fazer a diferença para o sucesso da empreitada, com possibilidade de replicar o modelo em outras partes do país.

Nesse pedaço-extremo da Mata Atlântica, a preocupação ronda a questão urbana – ocupações irregulares, fogo, lixões, esgoto, desmatamento, aterros e outras mazelas da expansão desordenada das cidades. O assoreamento do estuário é um dos principais impactos. O desafio da sua conservação requer o engajamento do Porto de Cabedelo, um dos principais terminais pesqueiros do país, que se vê obrigado a gastar milhões de reais com dragagens contínuas para ser possível a atracação dos barcos. A lama é carregada pelos rios até o mar, devido ao desmatamento das margens ao longo do seu curso, causado principalmente pela agricultura e pecuária.

“Como caminho preventivo, o investimento deveria estar na conservação e não na reparação dos impactos”, ressalta Costa. Com a derrubada dos manguezais, a conta só tende a crescer e as medidas para o controle das causas do problema se apresentam como item básico de sustentabilidade das próprias operações portuárias, no futuro. O turismo, quando bem organizado, é visto como instrumento capaz de valorizar os usos da área, mantida conservada. O plano é articular a instalação de píeres turísticos na linha de mar e desenvolver junto com a Marinha projetos de recifes artificiais destinados à recuperação da pesca artesanal, com base em experiências bem-sucedidas no Paraná. Hoje, segundo o chefe da Floresta Nacional, a produção pesqueira sofre os efeitos das alterações no estuário do rio Paraíba e também do acesso desordenado de turistas aos bancos de corais. “Não há regras de visitação definidas com base em estudos sobre a capacidade máxima de pessoas que esses ambientes poderiam suportar”, lamenta Costa.

A lista de medidas para promover alternativas e reverter o quadro de ameaças é extensa. Inclui a restauração da fortaleza da Ilha da Restinga, uma das mais antigas do país, construída pelos portugueses para proteção da foz do rio Paraíba contra corsários franceses que traficavam pau-brasil com ajuda dos índios potiguaras. O atrativo tem potencial de compor roteiros turísticos alternativos, aliviando as pressões sobre os bancos de corais, já superexplorados. A cidade de Lucena, incrustada naquele cenário, guarda antigas estruturas e a memória da atividade baleeira que por muito tempo sustentou a região. Busca-se inverter a lógica da decadência em zonas de poluição por esgoto doméstico e proliferação de favelas.

O povoado Renascer, por exemplo, poderia seguir novos caminhos se integrasse ao turismo as tradições da antiga comunidade de marisqueiras. As mulheres que vivem da coleta de ostras, mexilhões e outros mariscos têm assento no conselho gestor da Floresta Nacional, o fórum no qual são decididas as ações que marcarão o futuro daquele remanescente de Mata Atlântica. Devido à importância ecológica e ao longo histórico de resistência contra o desmatamento, aquela unidade de conservação é estrategicamente o ponto de partida para uma agenda ampla, concebida para envolver os cinco municípios da Região Metropolitana de João Pessoa, situados no estuário do Paraíba. Mapeamentos mais precisos e detalhados dos fragmentos vegetais darão suporte a um mosaico de proteção, planejado para conectar 16 unidades de conservação de diferentes categorias lá existentes, a maioria estabelecida apenas no papel, sem estrutura mínima de gestão. Uma possibilidade em análise pelo ICMBio é a ampliação da Floresta Nacional, visando a proteção de importantes ilhas fluviais hoje fora de seus limites. A medida aumentaria em 20 vezes a atual área da unidade.

Em quatro décadas, estuário perdeu mais da metade da vegetação

“Não há futuro benéfico para as unidades de conservação, caso continuem geridas como manchas verdes intocáveis, cercadas por inimigos”, afirma Costa. Desenvolver pesquisas científicas nos fragmentos de restinga e mangue é chave para um plano de trabalho sério e bem fundamentado, capaz de fortalecer o modelo de mosaico e mudar a cultura predatória que prevaleceu até os dias atuais.

Em 40 anos, entre 1970 e 2010, a região perdeu quase dois terços de mata, passando de 32.800 hectares para 13.500 hectares de cobertura vegetal nos diferentes ambientes de Mata Atlântica. Ao longo desse tempo, os remanescentes mais castigados foram os campos de restinga que guardam os “cerrados relictuais”, de composições florestais únicas e funções ecológicas bastante especializadas – ou seja, é difícil achar em outro local as relações travadas ali pela biodiversidade.

Durante a evolução climática e geológica, a vegetação local conservou suas características, com solos rasos, de profundidade média de apenas 15 centímetros, abaixo do qual só há areia acumulada por depósitos marinhos. O ambiente é marcado por uma refinada reciclagem de nutrientes, vitais para fungos e outros organismos que desempenham importante papel como base da cadeia ecológica. De acordo com a pesquisadora Pamela Stevens, autora do diagnóstico dos remanescentes de vegetação nativa desenvolvido a partir de variáveis socioambientais e econômicas, a perda desses ecossistemas sensíveis e ainda pouco estudados está associada, principalmente, à expansão da cana-de-açúcar para produção de etanol.

O objetivo principal do estudo desenvolvido por sua equipe, com base em dados mais completos e refinados, é identificar áreas prioritárias de conservação. Pesquisas compararam o comportamento ecológico de borboletas na restinga ao nível do mar e nas florestas de maior altitude, com intuito de decifrar segredos dessa dinâmica e sugerir medidas de proteção para o benefício da fauna como um todo. “Esses ambientes naturais merecem atenção especial porque se formaram ao longo dos tempos a partir de sementes dispersadas por animais que já não existem mais”, afirma Pamela.

De olho no futuro, há dezenas de projetos de pesquisa ligados à Floresta Nacional da Restinga de Cabedelo em andamento. A área da unidade tem o tamanho médio dos demais fragmentos desse tipo existentes no Nordeste, abrigando 17 espécies de répteis, 63 de aves, 73 de peixes e 14 de mamíferos, como preguiças, guaxinins, saguis e morcegos. A realidade local espelha o que ocorre no bioma como um todo. A floresta, habitada no passado distante por bichos de grande porte, está hoje sufocada entre centros urbanos e uma das prioridades para a manutenção de biodiversidade é proteger espécies que comem frutos e dispersam sementes pelas fezes. De outro lado, para se chegar a um maior equilíbrio, há necessidade de estudos especiais para a reintrodução de animais que estão no topo da cadeia alimentar, o que requer a existência de fragmentos de maior tamanho, pelo menos de 100 hectares, e boa conectividade com áreas protegidas do entorno.

Papel dos manguezais no equilíbrio do clima

De acordo com o levantamento do ICMBio citado anteriormente, os manguezais tiveram maior sorte que outros remanescentes naturais. Perderam relativamente pouco, cerca de 200 hectares em quatro décadas, e a razão parece irônica e paradoxal: a destruição só não foi maior, dizem os pesquisadores, porque o lixão da Região Metropolitana, localizado nas proximidades do estuário, inibiu o avanço de projetos imobiliários e de criação de camarão em cativeiro, atuais vilões do desmatamento.

Naquela parte do litoral, as espécies vegetais do mangue obedecem a um peculiar padrão de dispersão, alvo de pesquisas científicas destinadas a entender a dinâmica e reconstituir a história de como se formaram. “A estratégia de conservação deve estar baseada na ciência e não na suposição”, argumenta Orioni Álvares, pesquisador do ICMBio que coordena os estudos no estuário do rio Paraíba. Um pôster de Dom Quixote na porta do laboratório simboliza o que move a equipe: “o espírito sonhador”, afirma o cientista, imbuído na investigação sobre atuais ameaças e também oportunidades que surgem a partir do desafio de manter vivos os manguezais.

Entre outros pontos, preocupa o efeito da obra da transposição do rio São Francisco na zona costeira onde estão os remanescentes da Mata Atlântica. Explica-se: a bacia do rio Paraíba, historicamente associada à seca, à desertificação e à pobreza no interior do estado, receberá aporte de água retirada do Velho Chico. Como resultado do maior volume hídrico que chegará até o mar, a salinidade na região do estuário poderá sofrer alterações, com interferência na dinâmica ecológica. “Mudanças podem prejudicar a dispersão dos manguezais, ao atrapalhar o processo de germinação das sementes, bastante peculiar na área”, explica Álvares.

Em outra linha de trabalho, o pesquisador mede a contribuição dos manguezais para a captura de carbono da atmosfera. Estudos internacionais indicam que esses ambientes teriam maior poder de fixação de carbono do que as florestas tropicais. Em conjunto com o Instituto Federal de Educação da Paraíba e uma universidade espanhola, o grupo analisa sedimentos em laboratório para entender qual a contribuição específica dos sistemas estuarinos próximos à Linha do Equador para o equilíbrio climático. “Nas regiões tropicais, a captura de carbono pode ser ainda maior do que nas temperadas, mas tudo depende de como se distribui a biomassa aérea, ou seja, as copas de árvores e galhos mais altos”, explica o cientista. Diante da urgência de controle das mudanças climáticas, os manguezais poderão se tornar economicamente mais valorizados e se beneficiar do pagamento por serviços ambientais, remunerando quem faz a conservação.

O sucesso da conservação depende da união entre municípios. “O esforço de juntar peças é prioritário, diante das pressões ambientais”, reforça Carla Marcon, coordenadora regional do ICMBio. A contar pela cultura predatória do entorno, o que se vê de conservação “ocorreu praticamente por um acaso”. É preciso um modelo de gestão capaz de blindar os fragmentos que restaram e garantir a continuidade do que foi conquistado. O processo para se alcançar esse objetivo foi inicialmente conflituoso. Exigiu inclusive auditorias federais e ações judiciais contra gestores públicos e empresas que geravam impactos ambientais com a carcinocultura. Apesar das forças que agiam no sentido contrário para nada mudar, empreendimentos foram embargados e instaurou-se um ambiente de maior legalidade.

“Agora as atenções se voltam para a expansão imobiliária e industrial”, destaca Carla. Uma das preocupações envolve a Reserva Extrativista Acaú-Goiana, no trecho de ecossistemas costeiros na divisa entre Paraíba e Pernambuco. No local, foram constatados os efeitos danosos dos viveiros de camarão, multados pelo lançamento de efluentes sem tratamento em manguezais e pela queima de resíduos a céu aberto. A região acolhe também indústrias de cimento e papel. Algumas empresas desconhecem a existência da unidade de conservação, que hoje vive um dilema adicional: o da ocupação urbana desordenada e outros efeitos resultantes da instalação de uma fábrica de automóveis no município de Goiana (PE).

Na APA da Barra do Rio Mamanguape, onde se localizam os maiores manguezais da parte mais oriental da Mata Atlântica, a cana-de-açúcar plantada sem respeitar a mata da beira dos rios também é foco de conflitos. A rodovia PB-041, margeada por sítios e canaviais, leva ao município de Rio Tinto, com 90% do território dentro da APA. Distante 50 km da capital, a cidade nasceu a partir de uma antiga fábrica de tecidos, mantida pela tradicional família Lundgreen. Nas antigas instalações fabris, funciona hoje um campus da Universidade Federal da Paraíba.

O despejo de tintas e corantes industriais no curso d’água inspirou o nome da cidade, que guarda a herança de uma arquitetura tipicamente europeia, como a velha igreja de tijolinhos aparentes, construída nos velhos tempos da tecelagem. Na praça central, réplicas do bicho-preguiça no alto das árvores ilustram a rica biodiversidade de outrora, drasticamente reduzida ao longo das décadas pelo avanço da cana com a derrubada da Mata Atlântica. Os cultivos cobrem hoje mais de um terço da APA, criada em 1993 com 14,4 mil hectares para fomentar o turismo ecológico e proteger manguezais, animais aquáticos e a qualidade de vida de populações tradicionais.

O desafio inspirou amplo levantamento realizado pela Embrapa sobre o perfil social, econômico e ambiental dos 42 municípios localizados nas bacias hidrográficas dos rios Mamanguape e Miriri. Os dados deram suporte ao plano de manejo da unidade de conservação, elaborado com recursos do GEF, do Banco Mundial. Foi criado um conselho gestor com participação da Universidade Federal da Paraíba, Sebrae, órgãos ligados a agricultura e saneamento, proprietários de terra, sindicatos rurais, ONGs e comunidades locais. Deu-se assim um passo essencial para a área cumprir suas funções como provedora de desenvolvimento sustentável, segurança alimentar e serviços ambientais.

A maioria dos vilarejos dentro da unidade de conservação está associada ao trabalho nas plantações e usinas de açúcar e álcool, que se expandiram mais intensamente na década de 1980 à base de incentivos do governo, ao custo do desmatamento. O objetivo atual é reescrever a história da região, olhando para o patrimônio natural e cultural que restou.

Às margens do rio Mamanguape, o povoado de Arintigi, reconhecido oficialmente como comunidade tradicional, ganhou melhoria de infraestrutura e acesso a serviços públicos. Moradores produzem mandioca e mel para vender nas feiras regionais e procuram manter o que aprenderam dos pais e avós, mas há o assédio econômico por parte de quem chega para comprar terras e instalar viveiros de camarão.

Na Lagoa da Praia, também uma vila tradicional, as pressões são para construção de resorts. O acúmulo de lixo próximo aos manguezais simboliza o crescimento desordenado de um lugar que procura dar a volta por cima, ao adotar o modelo de turismo comunitário como instrumento de resistência. Os moradores foram capacitados a receber visitantes em busca de paz e convívio com na natureza. Na porta de uma das casas, os dizeres dão pista sobre esse potencial: “Aula de português para estrangeiro”.

Peixe-boi-marinho mobiliza comunidades

Na Barra de Mamanguape, à frente de um cordão de recifes de corais que emoldura uma vila caiçara, se localiza uma base do projeto de conservação do peixe-boi-marinho, que tem morada na região. Nas instalações do centro, animais resgatados pela fiscalização no litoral nordestino ou feridos por acidentes nas redes de pesca, principalmente filhotes, são recuperados para voltar à natureza. Após o retorno ao ambiente selvagem, os peixes-boi são monitorados por jovens da localidade, na maioria filhos de pescadores. Eles trabalham como guias comunitários, explicando a rotina de conservação da espécie para visitantes a bordo de canoas, sempre na expectativa de achar um deles nadando e exibindo aquele tradicional ar “bonachão”.

Em todo o país, a Paraíba é o lugar com maior registro de avistagens desses mamíferos aquáticos, principalmente no período chuvoso, entre maio e julho. Os guias locais sabem onde encontrar os peixes-boi que foram introduzidos no ambiente selvagem e são agora monitorados com auxílio de rádio transmissor VHS. “Diariamente preenchemos uma planilha com dados sobre o deslocamento e comportamento dos animais”, revela Geraldo de Brito, 63 anos, o Biruca.

Planeja-se instalar observatórios flutuantes nos pontos mais frequentados pelos bichos. Pela região circulam a Mel, Zelinha, Iara, Tita, Juan, Tico e Chuchu, o mais antigo de todos, há mais de dez anos solto no ambiente aquático após os cuidados dos tratadores nos tanques de reabilitação. “Por muito tempo os animais foram caçados com arpões, como fonte de alimento”, informa Adriano do Nascimento, 29 anos, ex-pescador que no passado encontrava com frequência peixes-boi quando saía ao mar em busca de tainhas e sardinhas.

De lá até a Praia de Campina, o visual da costa é desenhado por dunas e falésias até o pontal com manguezais exuberantes. No outro lado da barra, no ponto onde o rio Mamanguape encontra o mar, se localiza a terra indígena dos potiguaras, que reúne mais de 7 mil índios, em sete aldeias. Eles são considerados o único povo autóctone do país, ou seja, que nunca migrou, viveu sempre naquela região. No passado, os indígenas viviam também da caça do peixe-boi. Atualmente, a principal atividade é a criação de camarão em cativeiro.

Refúgio para macacos guaribas

No extremo-leste da Mata Atlântica, um dos fragmentos mais significativos abrange a Rebio de Guaribas, nos municípios de Mamanguape e Rio Tinto. A inspiração para o nome surgiu em 1990, ano de criação da unidade de conservação, a partir de um projeto para a reintrodução de macacos guaribas que já estavam extintos por lá e viviam sob intensa pressão nas matas de uma usina de açúcar, na localidade de Pacatuba. Hoje a reserva é habitada por primatas apreendidos pela fiscalização contra o tráfico de espécies silvestres ou encontrados ocasionalmente em propriedades rurais. Na área, os guaribas são objeto de pesquisas científicas que avaliam as condições de equilíbrio ecológico e os caminhos para que a população seja revitalizada.

Aquelas matas, ainda bem conservadas, foram exploradas pelo menos desde o Século XVII, conforme recentes escavações que resultaram na descoberta de sítios históricos com vestígios de sepultamentos, rituais e estrutura produtiva de uma antiga aldeia, citada pelo naturalista George Marcgrave. O nome do aldeamento, Maripitanga, é uma derivação de “umaripitanga”, pau-brasil no idioma indígena – o que demonstra a principal atividade da época: a extração de recursos madeireiros, além do cultivo de mandioca, feijão e milho. Espécies exóticas trazidas por colonizadores, como goiabeiras e mangueiras, pontilhavam antigas trilhas comerciais no entorno e dentro da área onde hoje se localiza a reserva.

Com situação fundiária resolvida desde a sua criação, sem a existência de moradores ou atividades econômicas dentro de seus limites, a Rebio abriga 16 nascentes e tem grande importância na provisão de água para cidades próximas. A área se destina à conservação da biodiversidade e pesquisa científica, conduzida por mais de 30 grupos de cientistas. O foco principal dos estudos é fornecer subsídios à gestão do refúgio. “Como os fragmentos florestais são pequenos, é estratégico maior conhecimento sobre a dinâmica da paisagem, indispensável para definirmos, por exemplo, um plano para conservação da fauna de grande porte e o controle contra incêndios”, explica Marina Kluppel, chefe da reserva.

O fogo preocupa, mas a principal ameaça é a invasão da floresta por plantas exóticas, como o dendê, palmeira que já ocupa 6% dos fragmentos próximos ao município de Rio Tinto. O projeto é retirá-las para deixar a floresta se regenerar naturalmente. “Só não temos 100% de Mata Atlântica na reserva, devido a esse problema”, completa José Luiz do Nascimento, o Julião, responsável pela coordenação das pesquisas, que deverão ter um novo rumo: “Há muito apoio para diagnósticos, mas pouca ação efetiva de combate às espécies exóticas invasoras”.

A reserva abrange um mosaico de formações florestais típicas do bioma, e também peculiaridades, como campos nativos cobertos por um tipo de capim que adquire tonalidade azulada em determinada época do ano. No local, foi descoberta uma espécie de marsupial comum no Cerrado, mas até então desconhecida na região. A cada pesquisa, surgem novidades, como a descrição de uma cigarrinha do gênero Scopogonalia Young. Cientistas da Universidade Federal da Paraíba e ICMBio compararam o comportamento da espécie no Brasil-Central e na Paraíba para corroborar a hipótese de que no passado remoto as savanas brasileiras tinham distribuição contínua, diferentemente de hoje.

Na Paraíba, esses campos ocupam encraves de matas de tabuleiro, estudadas pelos pesquisadores com maior ênfase como suporte ao planejamento das áreas protegidas. Conhecer as espécies, sua distribuição geográfica e relações filogenéticas torna a conservação mais eficiente e valorizada. Fora da Rebio Guaribas, grande parte desses campos naturais já foi degradada para instalação de lavouras de cana. A botânica Aline Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, é especializada no estudo dessa gramínea, do gênero Lacandônia. “A única descrição da planta para a América do Sul está nessa reserva”, diz a pesquisadora. Imaginava-se que o vegetal só existia no México. “Curiosamente, os aparelhos reprodutivos das plantas macho e fêmea são invertidos, quando se compara aos demais vegetais”. Para Aline, a gramínea nativa precisaria ser mais pesquisada para uso no controle da erosão, como ocorre com algumas espécies exóticas, que chegam de outras regiões e colocam os ambientais naturais em risco.

BOX 1


Os macacos “loiros” do maior fragmento

Com 1 mil hectares, uma RPPN, a Engenho do Gargaú, no município de Santa Rita (PB), protege o maior fragmento de Mata Atlântica da porção mais oriental do bioma. O local é refúgio do macaco-prego-galego, considerado criticamente em perigo na lista da fauna ameaçada. O primata tem a fama de ser um dos mais bagunceiros por gritar e balançar freneticamente os galhos das árvores por onde passa. Alimenta-se de frutos, insetos e pequenos invertebrados, habitando preferencialmente a floresta secundária, mangues e até canaviais.

Embora pinturas de paisagens brasileiras do Século XVI já tivessem registrado a existência da espécie, há poucos estudos sobre ela. Só em 2006 o macaco foi redescoberto por cientistas na região, já em condições precárias de conservação, pressionado pela caça e pela perda de hábitat devido ao desmatamento.

Por conta do tamanho do fragmento florestal, a área do Engenho Gargaú é estratégica na composição do Corredor de Biodiversidade da Mata Atlântica do Nordeste. Como uma ilha florestal em meio a canaviais, a RPPN também é morada do guariba-de-mãos-ruivas e do sagui-de-tufos-brancos, chamado popularmente de soim, encontrado também no Sudeste e criado em cativeiro em diversos países.

Além dos primatas, a reserva protege espécies raras de répteis, a exemplo do lagarto Strobilurus torquatus, identificado por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba – o primeiro registro da espécie na Mata Atlântica do estado. Entre as aves, o falcão-relógio, por exemplo, é exímio caçador de outros pássaros, alguns bem maiores em tamanho e peso, e também apanha pequenos mamíferos, cobras e lagartos. Grandes olhos e ouvidos aguçados auxiliam na caçada dentro da mata em horário de pouca luz. Pelo destaque que têm na cadeia alimentar, as aves de rapina são consideradas importantes indicadores de qualidade ambiental.

BOX 2

Um extremo de belezas marinhas e muito verde

O litoral da Paraíba reúne um mosaico de pequenos pedaços de Mata Atlântica que escaparam da destruição e estão demarcados no mapa das áreas ecologicamente mais importantes, algumas já protegidas como parques e reservas. Ao norte de Mamanguape, quase na divisa com o Rio Grande do Norte, a 110 km da capital paraibana, o destaque é a praia selvagem da Barra de Camaratuba, cercada por manguezais, lagoas e dunas cobertas pelo verde da mata de restinga.

Enquadrado como Área de Relevante Interesse Ecológico, no município de Mataraca (PB), o refúgio é alvo de um plano de gestão que integra o Projeto Orla, do Ministério do Meio Ambiente, para o ordenamento dos usos. A economia local é pautada no cultivo de cana, turismo, pesca artesanal e, mais recentemente, geração de energia eólica. No local, entre os rios Guaju e Camaratuba, há extração de minerais contidos nas areias, como ilmenita, rutilo e zirconita, encontrados em jazidas a poucos metros de profundidade. A matéria-prima começou a ser utilizada no final do Século XIX para fabricação de camisas incandescentes de lampiões a gás. Hoje é empregada para fazer tintas, isolantes térmicos e elétricos e outras aplicações.

O município ganhou um centro de conservação do caranguejo-uçá, espécie explorada pelas comunidades como alternativa de renda. Uma ONG local organiza passeios em trilhas no manguezal para sensibilização ecológica, obedecendo ao vaivém da maré. Parte do percurso é percorrida por flutuação em boias até o encontro do rio com o mar.

Em Cabedelo, próximo à capital, o Parque Estadual Marinho de Areia Vermelha, com 230 hectares, abrange uma ilha formada por banco de areia em meio ao oceano, a 1 km da costa. Na maré baixa, o local é visitado por grande número barcos e jet skys para mergulho em água cristalina, como também ocorre na visitação aos famosos corais do Picãozinho, na praia de Tambaú.

João Pessoa se destaca por abrigar uma das maiores florestas nativas urbanas do mundo. São 515 hectares protegidos na área do Jardim Botânico Benjamim Maranhão, conhecido como Mata do Buraquinho. O rio Jaguaribe, que atravessa a reserva, corta 23 bairros e sofre com a poluição urbana. No extremo-leste da Mata Atlântica, a paisagem verde tão característica da capital é atualmente pressionada pela expansão imobiliária nas colinas do entorno da Ponta do Seixas, local onde o Brasil está mais próximo da África.

Publicado originalmente no livro Extremos da Mata Atlântica, da Fundação SOS Mata Atlântica.

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