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Santa Tereza / Bento Gonçalves (RS) - Benvenutti carini turisti

 

Tradições italianas lutam para vencer barreiras, se transformam em atrativos turísticos e impulsionam a economia da Serra Gaúcha

· Rio Grande do Sul

Sob o sol do meio dia, as ruas estão desertas. A hora do almoço é sagrada. Das janelas das casas, “nonos” e “nonas” olham desconfiados os forasteiros que chegam. Na pequena Santa Tereza, a 155 km de Porto Alegre, na Serra Gaúcha, as regras são rígidas e tudo lembra a Itália de três séculos atrás. A arquitetura inspira a volta no tempo. E também o linguajar dos moradores, que preserva o dialeto veneto. Salames, queijos, pães e vinhos – muitos vinhos – são fartos em todas as cozinhas. Na casa de Irina Caumo, 59 anos, o cheirinho do café se mistura ao do sagu preparado para a festa de família no dia seguinte. Ela diz que a cidade está dividida. Uns querem se abrir ao turismo; outros são mais resistentes. “Mesmo devagar, encontraremos um novo rumo”, prevê a moradora. “Temos um patrimônio que precisa ser valorizado”.

No galpão ao lado da casa, percebe-se o caminho desta retomada. O local, onde antigamente o pai fabricava carruagens, é hoje a oficina do filho -- o artesão Ricardo Caumo, 37 anos. Ele confecciona em madeira miniaturas de fornos de pão, moinhos de uva e outras peças culturais que retratam a história da imigração italiana. “Precisamos romper o isolamento e a força dessas tradições pode nos abrir para o novo”, afirma Ricardo.

Perto dali, uma esquina abriga o prédio da primeira fábrica de acordeões do Brasil. Foi inaugurada em 1911 por imigrantes que chegaram de Cremona, região italiana famosa pela produção desses instrumentos musicais. Mais adiante, um velho armazém, desses que vende de tudo um pouco, chama a atenção. No velho porão, há vestígios de uma antiga cachaçaria e de uma fonte de água que abastecia uma das primeiras famílias de italianos que chegaram à região, no século XIX. Túneis subterrâneos que levam a casas vizinhas eram utilizados para fuga na Revolução Federalista (1893-1895). Anos a fio guardado a sete chaves por Oscar Prezzi, 85 anos, que protege ali a sua valiosa coleção de vinhos, o espaço ganha novas funções. Restaurado pelo filho Cezar, 47 anos, começa receber turistas, com visitação agendada – com todo o cuidado para não mudar hábitos ou atrapalhar a rotina do “nono”.

“Somos como um carro com bateria fraca; precisamos de um empurrão”, compara Cézar, bisneto de um lenhador italiano que chegou ao Rio Grande do Sul em 1879, trabalhou duro e construiu uma casa igual ou até melhor que a dos senhores de terra da Europa. Ele conta que há tempos a cidade se mobilizou para identificar vocações e peculiaridades culturais com potencial de uso como produtos turísticos. Dentro do Movimento Brasil de Turismo e Cultura, conduzido pelo Instituto de Hospitalidade em vários pontos do país para promover o turismo sustentável, moradores reconstituíram a trajetória dos imigrantes na forma de álbuns de família, no projeto “Santa Tereza, uma história que se conta”. Plantada a semente, o processo esbarrou em obstáculos políticos – mas caminha, mesmo lentamente. O sorriso toma o lugar dos rostos sisudos e a comunidade – com a auto-estima lá em cima -- se torna, aos poucos, mais acolhedora.

O dilema de se abrir ao turismo

Na pacata Santa Tereza com seus 1.600 habitantes, prestes a ser tombada pelo patrimônio histórico, muita coisa deve mudar. O desafio é grande. Como conciliar o assédio dos turistas aos costumes da população? Como conscientizar empreendedores a investir na própria cidade e criar a infra-estrutura necessária, como hotéis e restaurantes, hoje insuficientes para quem deseja atrair o turismo? A força dos mais jovens é decisiva nesse caminho. Espaço cultural multimídia, recém-instalado na sede da prefeitura, e intercâmbios com cidades-irmãs na Itália são instrumentos que hoje preservam e valorizam a cultura dos imigrantes entre as novas gerações. “Tudo pode mudar se cada um fizer sua parte”, constata Rudnei Schmitz, 39 anos, dono de dois micro-ônibus e uma van. Ele se prepara para fazer cursos de guia turístico e transportar mais visitantes via parceria com operadoras. “Não estamos falando de um milagre”, pondera.

Espera-se que, por meio do turismo, seja possível resgatar pelo menos em parte o prestígio do passado. Às margens do rio Taquari, onde havia um efervescente porto fluvial, Santa Tereza se destacou como pólo comercial. Mas entrou em decadência há 60 anos, depois que o rio deixou de ser navegável, atingido pelos impactos da agricultura. A construção de uma linha férrea para o transporte de mercadorias aposentou de fez o porto, onde hoje funciona um camping.

“A idéia é dar a revira-volta e integrar a cidade ao roteiro de intenso fluxo turístico que hoje passa a apenas 10 km daqui”, afirma Ivandro Remus, produtor de cachaça orgânica na região. Ele se refere ao Vale dos Vinhedos, nas proximidades de Bento Gonçalves (RS), que hoje recebe por ano 120 mil visitantes, atraídos pelo vinho e outras culturas herdadas dos imigrantes italianos. Nesse roteiro cheio de parreirais, existem hoje 32 vinícolas, 20 delas abertas à degustação e visitação turística.

O lugar se destaca entre os atrativos da Serra Gaúcha e seus 27 municípios produtores de uva e vinho. É resultado de um movimento pioneiro, que nasceu em 1985, quando 13 municípios se uniram para promover o turismo como motor de desenvolvimento. Dessa parceria nasceu a Associação de Turismo da Serra Nordeste (Atuasserra), mais tarde transformada em instituição de direito privado. O objetivo: desenvolver roteiros de uva e vinho em toda a região, que hoje recebe 1,1 milhão de turistas por ano. “Tudo se apóia na busca de identidade cultural, preservando-a para as futuras gerações”, explica Beatriz Paulus, diretora executiva da Atuasserra.

Casas dos imigrantes viram atrativos

O impulso aconteceu depois que o empresário Tarcísio Michelon, 58 anos, reconhecido na Serra Gaúcha como um empreendedor visionário, apostou na criação de dois produtos turísticos. O primeiro deles, o trem Maria Fumaça, reativado há dez anos após longo período de abandono, faz o percurso turístico entre os municípios gaúchos de Garibaldi, Carlos Barbosa e Bento Gonçalves. E transporta hoje 260 mil turistas ao ano.

Na segunda iniciativa, modelo no país, uma estrada de 12 km, nos arredores de Bento Gonçalves, transformou-se em rota da mais genuína cultura colonial italiana. Concebida na década de 90 para desviar o fluxo que já saturava a famosa cidade de Gramado, onde o forte é o legado dos imigrantes alemães, o roteiro Caminhos de Pedra preserva o estilo de construir casas trazido pelos primeiros imigrantes. Erguidas no estilo pedra sobre pedra, extraídas do leito dos rios mais próximos, várias residências – inclusive muitas que estavam em ruínas – foram restauradas. Incentivados, os moradores abriram as portas aos visitantes, tornaram antigos ofícios e tradições em negócios turísticos e deram nova vida ao lugar.

“Todos sobrevivem das heranças culturais”, conta o artista plástico Bez Batti, reconhecido internacionalmente pelas esculturas em basalto. Partindo da casa principal, onde mantém o show-room de suas peças, uma pequena trilha leva ao ateliê do filho, o pintor e ceramista Diego, 30 anos. O espaço, que começa a ser preparado para também receber turistas, traduz os hobbys do rapaz. Pista de skate, parede de escalada e uma bateria na qual pratica o rock and roll dividem atenções com os fornos de cerâmica onde produz a arte.

Diego lembra que, há pouco tempo atrás, a prática era derrubar as casas históricas. “Os moradores tinham vergonha”, afirma. “Hoje temos orgulho”, retruca Terezinha Strapazzon, 47 anos, professora que herdou do bisavô um tesouro: a antiga casa, construída no século XIX, um parreiral viçoso e uma velha bodega que reconstitui os métodos tradicionais de fazer vinho e hoje funciona como museu. O vai-vem de ônibus de turismo indica o sucesso do lugar, cenário do filme “O Quatrilho”.

Roteiro de muitos sabores

Delicatessen que produz queijo, iogurte e outras iguarias a partir do leite de ovelhas, tecelagens que utilizam teares manuais centenários – são diversos os legados da antiga Itália mantidos vivos nos Caminhos de Pedra. São ao todo 32 empreendimentos, visitados por 200 mil turistas ao ano. Os atrativos recebem das operadoras entre R$ 1 e R$ 2 por visitante e recolhem 5% do faturamento nas vendas de varejo para uma associação que reúne todos eles. O dinheiro é reinvestido no marketing e na divulgação do roteiro, bastante procurado pelas operadoras nacionais.

“A Serra Gaúcha é um destino completo e diversificado, que atrai diferentes perfis de turistas”, avalia Guilherme Paulus, presidente do Grupo CVC Turismo. A operadora leva 100 mil pessoas por ano para a região – a mais procurada pelos clientes depois das praias nordestinas. E no ano passado lançou um programa específico para Bento Gonçalves, no qual se inclui o roteiro Caminhos de Pedra.

Uma das atrações mais concorridas é casa da família Ferrari, que preserva um moinho de água típico das antigas vilas italianas. A estrutura, de 1884, é utilizada hoje para secar a erva-mate que abastece os populares chimarrões – uma cultura alimentar tipicamente gaúcha, absorvida pelos imigrantes.

Perto dali, a Cantina Salvati & Sirena tem uma missão especial: resgatar variedades italianas de uva quase ou já extintas. Na pipa 4, está o vinho da rara “peverella”, picante na ponta da língua; na 12, a “goethe”, com aroma de frutas tropicais. “O turismo agrega valor aos nossos meios de sustento tradicionais”, diz o enólogo Silvério Salvati, 43 anos. Ele produz vinhos que harmonizam jantares temáticos, servidos pela própria família para grupos fechados. Da sopa de feijão com talharim ao almeirão cozido com pancheta, as iguarias recuperam preciosidades da gastronomia da Itália antiga.

Quando o assunto é paladar, fartura não falta. Nem experiências, como a do chef Laércio Vesterlund, que pesquisou na Itália os sabores da culinária tirolesa, típicos da região de onde partiram seus familiares rumo ao Brasil. “Descobri receitas que minha mãe fazia em casa”, conta. No restaurante Pignatella, montado por ele e pelo produtor de suco de uva Ari Menocim, 40 anos, a degustação inclui surpresas – e um exercício de adivinhação, sugerido aos clientes pelo chef. Que ingredientes existem no torteletti tão perfumado? Acerta quem responde baunilha, cacau, erva-doce, melissa, biscoito maria e licor de bergamota, a tangerina típica do Rio Grande do Sul.

Descendentes resgatam salames e preservam floresta dos avós

O restaurante compõe um novo roteiro, trabalhado pelo Atuasserra no distrito de Tuiuti, também município de Bento Gonçalves. Na região, além da visita a uma das maiores vinícolas gaúchas, a Salton, uma casa se destaca por entre colinas que margeiam o rio das Antas. Nesse vale coberto de verde, Moacir Menegotto, 44 anos, destila a cachaça Casa Bucco, vencedora de concursos como a melhor do Brasil. Ele aproveitou a experiência dos avós, hábeis na produção de grappa -- tradicional bebida italiana, destilada a partir de uvas. Plantou cana-de-açúcar nas encostas e, ao lado dos tonéis para envelhecimento da cachaça, construiu uma pousada de charme. No restaurante, oferece a degustação de suas bebidas e serve pratos exóticos, como o javali no rolete. E assim vendas aumentaram. “Após a implantação do roteiro, o fluxo de visitantes triplicou”, estima Menegotto. “O turismo é um poderosa arma de marketing para o nosso principal negócio”.

Que o diga o casal Dirceu e Fátima Pasquali, que se prepara para somar outra tradição a essa cadeia: a do salame artesanal. Eles se conheceram produzindo o embutido na Itália e decidiram torná-lo atração turística no Brasil. No município de Monte Belo, também na Serra Gaúcha, a dupla faz experiências para depois começar a produção em maior escala. O ofício envolve segredos – e também uma série de regras. “Os salames de qualidade demoram pelo menos três meses para maturar”, explica Fátima. O objetivo é lançar uma marca regional, “Embutidos da Serra Gaúcha”, que diferencia a experiência do visitante e agrega valor ao turismo.

Na região, a força do turismo tem efeito dominó. Atrai diferentes apostas, como é o caso de Luisinho Brum e seus dois irmãos, ex-bancários que decidiram investir a aposentadoria para transformar as terras do “nono” em reserva ecológica e explorar o ecoturismo. Eles compraram 400 hectares de mata no entorno dos 64 hectares ocupados originalmente pela família, que ali chegou no século XIX para instalar moinhos e fazer farinha de trigo e milho.

Mais 60 mil outras árvores nativas foram plantadas para recompor a floresta, castigada pela agricultura. Luisinho se mostra feliz, ao ver espécies silvestres, como a ave gralha-azul, voltar à natureza e exercer o papel de germinar naturalmente as araucárias. Trilhas que levam a grandes cascatas e a antigos moinhos no fundo de um vale já estão abertas a visitantes, especialmente grupos de estudantes para aulas práticas de Geografia, Biologia e Turismo. Pousada, centro de visitantes e outras novidades estão por vir. “Os mais velhos nos chamaram de loucos e diziam para derrubar tudo e plantar parreiras”, conta Luisinho. A natureza não preserva apenas a biodiversidade. Guarda também um valor cultural, um capítulo da história desses italianos que chegaram ao Brasil para realizar sonhos. E fincaram raízes, que hoje encantam turistas de várias partes do Brasil de do mundo.

BOX – A força do enoturismo

Muito se fala e escreve sobre a harmonização dos vinhos com os cardápios da gastronomia. E especula-se sobre os seus benefícios para o coração. Na Serra Gaúcha, os poderes da bebida vão além. Ela também combina com um hábito de números crescentes: fazer turismo. A chegada de visitantes em busca de degustação, passeios nos parreirais e outros prazeres já representa entre 30% e 35% da economia do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves (RS). “Para algumas vinícolas de menor porte, essa fatia atinge 50%”, afirma Vander Valduga, 26 anos, bacharel em Turismo que pesquisou o comportamento do mercado para a tese de mestrado.

“Para a cadeia como um todo, incluindo restaurantes, hotelaria, queijarias e outras agroindústrias, o enoturismo contribui para 80% das vendas”, calcula o pesquisador. Ele pertence à quarta geração dos imigrantes italianos que chegaram à região em 1876 para cultivar uvas. Seus descendentes instalaram, na década de 90, a vinícola Vallontano, voltada para vinhos especiais. Pouco tempo após o nascimento, foi a primeira a apostar no turismo como estratégia para escoar estoques. A solução deu certo e hoje a empresa, além de produzir vinhos, investe para atrair mais visitantes. Neste ano, construiu uma cafeteria de alto padrão, administrada pela nova geração da família Valduga.

“Diversificar é a palavra de ordem”, explica Vander. Ele diz que o enoturismo cresceu depois que a região ganhou o Selo de Indicação de Procedência do Vale dos Vinhedos, em 2002. Trata-se de um diferencial importante. A certificação, reconhecida pela Comunidade Européia, atesta que o vinho tem origem em determinada região que historicamente prima pela tradição e qualidade. O reconhecimento atrai mais turistas para o lugar. “Os investimentos em mídia e marketing aumentaram muito após essa conquista”, ressalta Vander.

Na vinícola Salton, o número de visitantes cresce 40% ao ano. Hoje já são quase 30 mil, bem superior aos 5 mil de 2004, quando a empresa se abriu ao turismo. Para fazer frente a essa procura, o projeto é construir um parque temático com restaurantes típicos e colheita de uvas no parreiral, em 2008. “Falamos de um turismo bastante diferenciado pelos aspectos culturais, importante para o nosso negócio”, diz Daniel Salton, diretor da empresa.

A Miolo, uma das maiores da região, é visitada por 120 mil turistas ao ano. A degustação e as vendas no varejo representam em média 5% do faturamento da empresa. Adriano Miolo, diretor da empresa, constata: “O turismo é chave para divulgar o produto”. Em 2006, a empresa investiu mais de R$ 3 milhões na construção de um moderno centro de visitantes. Em outubro desse ano, comemorou a inauguração do Spa do Vinho -- um complexo hoteleiro de R$ 33 milhões, do qual é associada junto a um pool de investidores.

Publicado originalmente na revista Host

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