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São Gabriel da Cachoeira - Baniwa, olhar para o futuro

Resgate cultural como promoção do desenvolvimento sustentável

De Manaus, são duas horas e meia de voo sobre o tapete verde da floresta até São Gabriel da Cachoeira (AM), no noroeste da Amazônia, e mais um extenso percurso de nove horas de lancha para chegar ao destino, na terra dos Baniwa. Em majestosa paisagem de montanhas, o Rio Içana, afluente do Negro, leva à região da “Cabeça do Cachorro”, um dos mais longínquos grotões do País, já quase na fronteira com a Colômbia, onde a vida parece regida por outra dimensão de tempo e espaço. Protegido por comunidades indígenas, o cenário – em contraponto ao isolamento e seus estigmas – simboliza o dinamismo intercultural que marca o diálogo entre tradição e modernidade e desenha o futuro da Amazônia construído em bases mais igualitárias, justas e sustentáveis.

Em São Gabriel da Cachoeira, a origem indígena que caracteriza a quase totalidade da população está presente no nome do pequeno aeroporto de Uaupés, referência ao rio de 1,3 mil Km que nasce na Colômbia e abriga dezenas de etnias em território brasileiro antes de desaguar no rio Negro, um pouco acima da cidade. À frente do porto, as águas encachoeiradas que entremeiam o relevo acidentado, cartão postal da cidade, foram antiga rota de missionários religiosos e de ciclos econômicos que ao longo da história produziu expressivos danos às populações tradicionais.

Da localidade, deixando para trás padrões mentais já insustentáveis diante dos atuais desafios da vida no planeta, partimos para o rio Içana: uma viagem enriquecida por constatações e quebras de ideias pré-concebidas sobre a cultura e a perspectiva indígena da relação com o mundo ao redor – ou melhor, com o mundo onde todos nós, índios e não índios, estamos incluídos.

A região é conhecida pela diversidade de povos, culturas e línguas. São 23 etnias reunindo cerca de 34 mil índios, conforme levantamento do Instituto Socioambiental, com base em dados do IBGE e de outras instituições. No cenário multicultural, essas populações se destacam pela organização comunitária e integram um sistema regional articulado por redes de trocas e relações sociais, inclusive de casamento, compartilhando diferentes visões de mundo. Sua história foi de impactos, muitos, principalmente por parte de missões religiosas que obrigaram novos hábitos e mudanças nas tradições e no modo de viver indígenas. O naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913) registrou que, frente a esse longo processo de expropriação, os povos da bacia do alto Rio Negro já estariam praticamente “aculturados” em meados do século XIX.

É uma saga em contínua transformação. De acordo com o antropólogo indígena Gersem Baniwa, da Universidade Federal do Amazonas, ocorreram cinco fases de contato. A primeira, nos séculos XVII e XIX, foi marcada pela violência e escravidão nos seringais que reduziram a etnia a 70% da população original. Depois veio a etapa da resistência e, em seguida, a aliança com missionários e o surgimento de políticas de Estado. O quarto cenário se caracterizou pela organização indígena em toda a calha do Rio Negro, nas décadas de 1970 e 1980, e pelos primeiros projetos de colonização do governo que incentivaram a migração de populações nordestinas para o “grande vazio” amazônico. Por fim, a partir da década de 1990, a história Baniwa tem se diferenciado pelos projetos socioambientais voltados à subsistência econômica e melhoria da qualidade de vida, no contexto do debate sobre o desenvolvimento sustentável. Um exemplo de destaque é a produção e comercialização de cestaria com a marca da etnia. “Mais que resistentes, somos um povo resiliente, que se abre para parcerias sem perder o jeito de ser e de produzir”, afirmou Gersem em palestra no evento Papo Sustentável, realizado pela FAS.

A resiliência cultural tem como pilar a cosmovisão Baniwa: “na nossa mitologia, nascemos de um buraco abaixo de uma cachoeira, como o umbigo do mundo onde os seres precisam sempre fazer política, negociar e dialogar de forma a equilibrar a desordem e vencer o caos”. Para o antropólogo, os mitos estão em contínua construção e atualização; e a visão de mundo incorpora a existência do não indígena. Assim, a compreensão holística sobre a totalidade do mundo marca o perfil das atuais lideranças Baniwa, dentro do que Gersem chama de “sustentabilidade cósmica”. Esse tradicional – e ao mesmo tempo moderno – modo de entender as diferenças e se relacionar com o outro se traduz na realidade da vida e dos planos para o futuro ao longo do Rio Içana.

O sol já havia baixado quando a lancha atracou na aldeia Tunuí Cachoeira, ponto de pernoite após seis horas e meia de navegação. A música latina que ecoava de uma casa indicava a influência das rádios colombianas em local próximo à fronteira. Na sala, indicativo da mixagem cultural, uma vistosa bandeira do Brasil estendida na parede. Ao redor da mesa, entre goles de chibé, o chefe da família, o indígena Jonílson, falava aos visitantes sobre os rituais Baniwa. Na transição para a idade adulta, o jovem é submetido a uma surra de chicote de modo a levar o aprendizado com os mais velhos para o resto da vida. Um dos antigos ensinamentos é a confecção da flecha com veneno tirado de cipós, mas hoje a espingarda rouba a cena. “A munição para caça é trocada por farinha, artesanato e peixes”.

Ao pé de montanhas que compõem cenário selvagem, a vila é vitrine de alternativas de renda. A pimenta Baniwa, beneficiada a partir de 36 espécies nativas e reconhecida como patrimônio cultural do Brasil, é vendida para fora do Estado, inclusive para rede de supermercado. Colhido na roça pelas mulheres, o produto é muito comum no cotidiano alimentar das aldeias e utilizado em rituais, com função de proteger mulheres recém-paridas. Ao lado, a Casa de Abelha beneficia o mel das colmeias instaladas nas comunidades indígenas, em que o inseto tem o simbolismo de representar o bem, o poder de recuperação.

As iniciativas de geração de renda baseadas no etnoconhecimento são resultado do trabalho da Escola Baniwa e Koripako Pamáali, no Rio Içana. Ela desempenhou importante papel no processo de reunificação e reconstrução cultural no novo contexto em que passaram a viver, com demarcação das terras no fim da década de 1980. Mais tarde, procedeu-se um grande esforço de articulação de parcerias, ampliação do ensino e lançamento de dicionário e gramática da etnia, além da formação de magistério indígena. A educação é multilíngue e o regime escolar alterna aulas durante dois meses com um mês de permanência dos jovens em casa nas aldeias da região. Diferencial relevante é a revitalização de tradições. Como exemplo, após 70 anos a etnia recuperou o ritual de canto e dança “Dabucuri”, no qual as comunidades se confraternizam e compartilham alimentos.

“Para a melhoria das condições de vida, é central o resgate da memória”, destaca André Baniwa, presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI), ao reforçar: “com a cultura fortalecida temos o que comer, tratar e ensinar”. Entre os planos em discussão está retomar a tradição do arco e flecha e de seu simbolismo como estímulo à formação de atletas Baniwa de tiro com arco, com a possibilidade de integração ao segundo ciclo do Projeto Arquearia Indígena. Em agosto de 2016, a ideia foi apresentada pela FAS em visita à escola, ocasião em que alunos e alunas apresentaram rituais de boas-vindas e os professores se informaram sobre o potencial das oportunidades geradas pelo antigo instrumento de caça agora como esporte.

O momento é de reflexão para dar novos passos, tendo pela frente o desafio de integrar o conhecimento indígena ao que chega de fora, numa relação intercultural. É como um retrato do novo índio brasileiro. “Nossos valores culturais e ambientais devem se refletir na economia”, afirmou a liderança no percurso da lancha pelo Rio Içana entre a escola e a comunidade de São José. Lá acontecia uma assembleia que juntou representantes de várias aldeias para a definição de caminhos que levem a avanços e melhorias, a partir do moderno conceito de “bem-viver”.

“Amor”, “carinho”, “gratidão”, “felicidade”, “sucesso”. As palavras, exibidas com destaque em cartazes no alto do galpão onde o evento se desenvolvia, indicam o jeito de ser local. À mesa, um banquete para os visitantes: chibé, paca e peixe moqueado (defumado para conservação), acompanhados pela indispensável pimenta nativa. O capricho na hospitalidade é marca registrada da etnia, tão prejudicada por um tenebroso passado de exclusão e injúrias à sua identidade.

“Um dos principais alicerces é a retomada de significados antigos e práticas culturais perdidas”, explica Aliria Noronha, pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas que estuda a felicidade e o “bem-viver” sob a perspectiva Baniwa. Para eles, a concepção de felicidade é diferente da construída pela cultura de massa. A socióloga cita Leandro Karnal, historiador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para quem a felicidade em geral está depositada no desejo de possuir algo que ainda não se tem, material ou não. E que se dilui no momento que não tem. “Na visão Baniwa, a felicidade está em encontrar o que eles já têm”; em fazer o que é da tradição. Isso ocorrerá, segundo eles, pela via da educação e do direito ao território. E como pano de fundo está capacidade de se adaptar, se mesclar e criar relações harmoniosas com que vem de fora, com o novo.

Como item da cultura material, o arco e flecha e seu uso tradicional, revitalizados para objetivos do tempo moderno, compõem o patrimônio a ser resgatado na construção do “bem-viver”. Na rotina da caça, a felicidade está não propriamente na captura do animal, mas no ato de compartilhar o alimento. “E para isso é preciso ir cada vez mais longe abrindo picada com facão para encontrar macacos”, diz o artesão indígena Roberto da Silva, na aldeia São José. Ele confecciona zarabatanas com haste de três metros, feita com a madeira da paxiúba, e dardos contendo veneno de cipós e breu, uma resina nativa. Primatas e pássaros, como o jacu, são os principais alvos do sopro. Flecha, hoje em dia, apenas para pescar – mas naquele ponto do Rio Içana a natureza não brindou a comunidade com fartura de peixes. O mais habitual para caça, principalmente de anta e porco-do-mato, é usar arma de fogo, como a espingarda que Roberto pendura na parede da sala, onde são guardados outros objetos indispensáveis à sobrevivência, como motosserra, motor de barco e galões de gasolina.

O conhecimento é transmitido entre gerações. O professor indígena Edson Faria aprendeu a fazer arco e flecha com o avô e, quando menino, costumava sair com o pai para flechar tucunarés e jacundás no período de rio seco. “Iscas para anzóis são mais difíceis nesta época“, justifica o rapaz.

Pegar pacas à noite com flechadas, igual como no passado, só na ausência de munição para a espingarda. No ritual da caça, a aldeia é comunicada quando um grupo sai em busca de animais. Antes da empreitada, deve-se fazer jejum “para ter força e vontade de caçar” e tomar banho para o corpo não exalar cheiros que atraem “sopro de curupira” – entidade da floresta dotada de poderes que causam dores, feridas e outros males físicos. Por esse motivo, a crença também não recomenda comer quando está soado, tampouco matar pássaros “informantes” que vivem na beira do rio: “eles sinalizam a presença de caça ou avisam para ir embora porque naquele dia ninguém pegará nada”.

Mesmo com a histórica influência das igrejas, o simbolismo permanece vivo. Na comunidade Santa Rosa, onde mora o professor, os índios jovens brincam de acertar alvos pintados com desenhos de pássaros, em dias de festa. E a chegada de um novo projeto voltado ao resgate cultural do arco e flecha por meio do esporte “é uma boa notícia, porque fortalecerá a identidade como indígena e mobilizará a juventude para valorizar a tradição, mostrada a outros povos”.

O esforço tem conexões mundiais. Iniciativas que promovem inclusão social, acesso a oportunidades de renda, autoestima, bem-estar e preservação do conhecimento tradicional – como é o caso do Projeto Arquearia Indígena – estão em linha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), criados pela ONU com metas ambientais, sociais e econômicas para 2030. O cenário inclui os desafios associados às mudanças climáticas, como os compromissos para redução dos gases de efeito estufa pelo desmatamento, tema de alta prioridade na agenda global. Nele a Amazônia representa importantíssimo papel, com efeitos para todo o planeta.

É um trabalho de várias frentes, em que a conservação da floresta está diretamente ligada às condições sociais, econômicas, tecnológicas e culturais de quem nela habita. Desta forma, a FAS tem se destacado nacional e internacionalmente pelos resultados de projetos inovadores a partir do slogan “fazendo a floresta valer mais em pé do que derrubada”, que resume a sua missão. Se o Programa Bolsa Floresta beneficia cerca de 35 mil pessoas em todo o Amazonas com renda, atividades produtivas e melhorias sociais, o Primeira Infância Ribeirinha se dedica à atenção familiar para a saúde e o desenvolvimento integral de crianças até seis anos – futuros adultos, capazes de contribuir com o desenvolvimento sustentável. Desafio que recai também na educação e inspira a estratégia da FAS na construção de um modelo baseado na realidade da floresta para a formação de jovens e futuras lideranças.

O Projeto Arquearia Indígena se insere no variado leque de iniciativas em sinergia, que buscam a redução de desigualdades e melhor qualidade de vida na Amazônia. O elo entre tradição e modernidade, construído pelo desempenho de jovens locais como atletas de tiro com arco, ajuda a formar um ambiente propício à chegada de serviços básicos e de novos projetos, inclusive de geração de renda. E em paralelo espaços se abrem ao empreendedorismo.

A comunidade Três Unidos, dos Kambeba, no baixo Rio Negro, celeiro dos primeiros arqueiros-atletas, reflete o quadro de ganhos que agora se busca para outras comunidades. A aldeia abriga um dos diversos Núcleos de Conservação e Biodiversidade mantidos pela FAS em reservas ambientais do Amazonas, com escola e qualificada estrutura para projetos sociais e de geração de renda. Em ambiente de inovações, a comunidade funciona como ponto central para a busca de um modelo de gestão de resíduos apropriado à realidade ribeirinha, com participação de oito vilas, cinco delas indígenas. O foco maior está na educação ambiental, que se dá mediante atividades lúdicas, como o teatro, com reflexos na conscientização mais ampla para o uso sustentável da floresta.

“Muita coisa mudou por aqui após um longo período de dificuldades para o sustento, baseado na roça e na extração de madeira”, conta a empreendedora indígena Neurilene Cruz (ou “Misqui”, “mel” em Kambeba), líder do restaurante Asmik, mantido por uma associação de dez mulheres à beira do Rio Cueiras. A aldeia adotou o turismo como importante fonte de renda. “Diminuímos a dependência financeira em relação aos homens, que hoje reconhecem a força feminina”, aponta Neuriline, mãe do arqueiro Nélson, o Inha, medalhista que vê crescer o número de turistas na aldeia por conta da visibilidade de seus atletas.

Desta forma, a região do Rio Negro reescreve sua história. A atmosfera de mistério de suas águas tom de Coca-Cola recupera forças do passado e se abre à contemporaneidade. Enxerga um novo destino. Há mais de dois milênios, o filósofo Heráclito de Éfeso dizia que tudo flui como um rio. Não se pode percorrer duas vezes as mesmas águas, que já fluíram. Tudo é movimento, também na expectativa de quem descobre no velho arco e flecha um caminho para transformações.

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