Return to site

São Lourenço da Mata (PE)/Salgueiro (PE) - Riqueza arqueológica aflora em obras para o desenvolvimento do NE

Resgate deve contribuir para aprimorar o conhecimento científico

· Pernambuco

Os dizeres no caminhão-baú estacionado no pátio de uma casa no bairro de Aldeia, em Camaragibe, Região Metropolitana do Recife, dão bem a medida do desafio: “Uma sociedade que não conhece seu passado não tem perspectiva de futuro”. Além do veículo, no qual está instalado um bem equipado laboratório-móvel, lanchas, triciclos, carros offroad e tratores dividem espaço nos galpões com peneiras automáticas de alto desempenho e outras engenhocas levadas para campo. Lá funciona o quartel-general do arqueólogo Marcos Albuquerque, professor da Universidade Federal de Pernambuco e dono da empresa Arqueolog Pesquisas, responsável por escavações em diferentes obras de infraestrutura, sobretudo na Região Nordeste, onde o governo federal expande a malha de logística e de distribuição de energia como suporte ao crescimento da economia.

A “arqueologia preventiva” cresce rápido no país, especialmente nas regiões pontilhadas por canteiros de obras. “É possível construir portos e rodovias, salvando antes o patrimônio escondido no subsolo”, destaca Albuquerque, lembrando que a demanda legal para a licença dos empreendimentos garante recursos que os pesquisadores normalmente não têm na universidade. Com uma ressalva: “sem abrir mão do rigor científico, as pesquisas não atrasam as obras se houver bom planejamento”. O trabalho é minucioso e envolve diferentes estágios, ligados às etapas do licenciamento: diagnóstico do terreno, prospecção, resgate e monitoramento durante a obra. “Hoje há maior entendimento por parte das empresas, que aproveitam os sítios arqueológicos para agregar valor aos empreendimentos”, diz Albuquerque.

Nos últimos seis anos, a equipe do pesquisador pernambucano identificou mais de 400 sítios e ocorrências arqueológicas isoladas, entre os quais peças de origem tupi-guarani resgatadas da área entre manguezais que começa a ser preparada para receber o estaleiro Promar, em Suape (PE). Com investimento coreano de US$ 120 milhões, o estaleiro tem contrato com a Transpetro para a fabricação de oito novos navios gaseiros. “É preciso valorizar a pesquisa arqueológica e montaremos um centro de visitantes para expor parte do material resgatado”, informa Dail Ferreira, diretor do empreendimento, hoje em fase de dragagem.

No município de São Lourenço da Mata (PE), antes dos engenheiros da Odebrecht instalarem o canteiro de obras da Cidade da Copa, onde será construída a arena, alojamentos e demais instalações para os jogos de 2014, a equipe de Albuquerque resgatou sítios com peças indígenas e do período colonial. A próxima investida acontecerá no município de Goiana, também Pernambuco, em terreno de 400 hectares que receberá a nova fábrica de automóveis da Fiat.

No começo deste ano, na Paraíba, os pesquisadores encontraram 59 urnas funerárias, datadas de 820 anos, juntamente com machados e outros apetrechos usados por antigos agricultores que apresentavam diferentes padrões culturais. O estudo foi uma exigência prévia à construção de uma nova subestação de energia da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf), no município de Pilões. Após as escavações, a novidade chamou atenção e mobilizou os moradores da pequena cidade, que ganhará um museu como medida de compensação socioambiental. Surpresas também afloraram da terra durante recentes investidas dos arqueólogos no Canal do Sertão, em construção para o abastecimento de água no interior nordestino. O trecho entre os municípios de Água Branca e Senador Rui Palmeira, em Alagoas, é cenário de pinturas rupestres gravadas nas rochas pelos grupos de caçadores mais antigos que viveram no Brasil.

Além de prospecção em dunas para obra de parques eólicos a beira-mar, as praias do Ceará entram para o mapa da Arqueologia graças às pesquisas em curso na área da Companhia Siderúrgica do Pecém, litoral-Oeste. Lá foram descobertas cerâmicas tupi-guarani e novas incursões serão realizadas após a terraplanagem, iniciadas em junho deste ano. “Não há como fugir deste trabalho, que até o momento custou R$ 2 milhões”, alega Marcelo Baltazar, gerente de sustentabilidade do empreendimento a ser erguido com um total de US$ 4,2 bilhões. Proteger peças arqueológicas é uma preocupação adicional. “Os operários são orientados para que nada seja danificado”, acrescenta o gerente, informando que o próximo passo será uma investigação mais detalhada sobre as origens do material já resgatado, para posterior uso em campanhas de educação ou envio para acervos públicos.

Retranca

Transposição do São Francisco expõe ossada de preguiça gigante

A transposição do rio São Francisco, iniciada há quatro anos, tem como objetivo levar água às regiões mais secas do Nordeste, reduzindo a miséria. Mas a serventia dos canais que estão sendo abertos sertão adentro, ao custo total de R$ 6,9 bilhões, vai além de matar a sede da população ou irrigar cultivos. A obra está desvendando a existência de um tesouro arqueológico capaz de elucidar, entre outros pontos, as mudanças climáticas do planeta. O centro das atenções está no município de Salgueiro (PE), onde arqueólogos descobriram recentemente fósseis de preguiças gigantes nas imediações da área a ser alterada pelas máquinas. Ossadas estão sendo resgatadas na Lagoa de Uri de Cima, que seca completamente na ausência de chuvas. “Como tinham seis metros de altura e eram pesados, esses animais certamente ficaram presos na lama em algum período de maior estiagem”, explica a pesquisadora Ane-Marie Pessis, da Fundação Museu do Homem Americano (FUMHAM).

Os cientistas investigam agora a datação exata dos fósseis – iniciativa importante para novas conclusões sobre a evolução do clima e sobre a coexistência do homem com a megafauna. Sabe-se que as preguiças gigantes e demais animais de grande porte habitaram partes do território brasileiro e da América do Sul no início do período geológico do Quaternário, há mais de 12 mil anos. Na região de Salgueiro também foram encontrados fósseis de toxodontes, animais que tinham hábitos terrestres e aquáticos e pesavam em torno de uma tonelada. A descoberta de fósseis da megafauna, confirmando pesquisas já realizadas em outras partes do interior nordestino, revela que o sertão tinha no passado uma floresta densa e fartura de água – bem diferente da situação atual.

A partir de varredura com imagens de satélite, os pesquisadores localizaram ao longo do futuro percurso da água captada do São Francisco as áreas mais propícias à existência de fósseis. O campo de investigação abrange uma faixa de 200 metros de largura em ambos os lados dos canais da transposição. Conforme determina o licenciamento da obra, o trabalho será ampliado para 2 km a partir de cada margem. Próximo à lagoa alvo das atuais escavações, onde trabalham 26 técnicos, há pinturas rupestres apresentando temas que dão pistas sobre a relação dos antepassados com o meio ambiente e os animais.

“O Brasil tem ótimo instrumento jurídico, baseado nas recomendações da UNESCO sobre patrimônio arqueológico, mas precisa ser aplicado na prática”, adverte a pesquisadora, destacando o arranjo institucional montado para viabilizar a pesquisa ao longo de 1,1 mil km de canais da transposição. Coordenada pela FUMDHAM com verba repassada pelo Ministério da Integração Nacional ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a iniciativa envolve diferentes instituições voltadas para o estudo do semi-árido. No Sul do Ceará, por exemplo, próximo a Juazeiro do Norte, por onde também passará a água do São Francisco, grupos de pesquisa descobriram sítios arqueológicos com cerâmicas que retratam grande diversidade de culturas ancestrais.

Ao final das pesquisas, há possibilidade de todo o acervo, tanto aquele que está sendo resgatado quanto o que permanecerá protegido em seus locais de origem, inspirar novos circuitos turísticos, gerando renda. “Estamos convencidos de que a aliança entre obras de infraestrutura e pesquisa científica é promotora de desenvolvimento”, enfatiza Pessis. Além disso, ela completa, “os resultados devem contribuir para entender melhor o meio ambiente e refletir sobre os limites do crescimento econômico”. Fósseis e demais peças encontradas nas escavações são instrumentos de educação patrimonial, com potencial de promover auto-estima e cidadania. Em região que hoje sofre com a seca, saber que a antiga paisagem era úmida e coberta por floresta é motivo de reflexão. Na opinião de Pessis, a realidade atual da convivência com o clima árido não pode ser apagada da memória depois que a obra da transposição levar água em abundância para a região. “É preciso construir um memorial da seca, juntado as peças que contam a evolução do clima”, propõe a arqueóloga.

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly