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São Paulo / Salesópolis / Tietê / Conchas / Itapura / Cabreúva / Bom Jesus de Pirapora / Bauru / Barra Bonita / Anhembi (SP) - O rio de várias faces

 

Da nascente à foz, o Tietê corta a região mais rica e populosa do País

· são paulo

 

A cidade está lotada. Uma multidão se aperta nas margens do Rio Tietê, em Anhembi, a 232 Km de São Paulo, para receber as bênçãos do Espírito Santo na tradicional festa do Divino, no dia 29 de maio. Duas canoas cruzam o rio, cada uma com 50 homens a bordo, vestidos de vermelho e branco e bandeiras em punho simbolizando Pentecostes, o espírito divino. Rojões avisam a chegada do cortejo fluvial, naquelas águas azuis espelhadas pela luz dourada do entardecer. Tradicionalmente, nesta celebração, a população local suplica a Deus por paz e prosperidade. Desta vez, contudo, o festejo ganhou um toque especial. O motivo não poderia ser mais surpreendente. Após décadas de sumiço, os peixes estão voltando naquele trecho do Rio Tietê – e muitas famílias voltam a ter a pesca como meio de sustento. Para os pescadores, trata-se de um milagre. Para os ecologistas, um sinal claro de que nem tudo está perdido para o futuro de um rio que agoniza, não muito longe dali, na capital paulista.

O Tietê, embora receba descomunal carga poluidora ao atravessar a maior região metropolitana do país, está mais vivo e dinâmico do que se pode imaginar. Esconde ao longo de seus 1136 Km de extensão, até desembocar no Rio Paraná, paisagens e histórias pouco conhecidas, como pudemos observar na viagem que fizemos da nascente à foz. A região de Anhembi é somente um dos exemplos. A denominação indígena do lugar – por sinal o primeiro nome dado ao rio Tietê nos tempos da colonização -- significa “rio das anhumas”, vistosas aves que habitavam a região no passado e tinham unicórnio e esporões usados pelos nativos para curar várias doenças.

Na estrada que liga o município de Salesópolis à Rodovia dos Tamoios, na região de Mogi das Cruzes, entre as montanhas da Serra do Mar, um desvio de terra de seis quilômetros leva a um sítio modesto, com uma casa e duas trilhas curtas que chegam no mesmo lugar: uma fonte de água, pequena como uma poça, cuidadosamente enfeitada por pedras, musgos e samambaias, além de peixinhos de aquário. No alto da mina, a placa: “Aqui nasce o Tietê – Sociedade Geofísica Brasileira – 1954”. À frente dela, grupos de visitantes, no total 2.500 por mês, na maioria estudantes, se postam em silêncio reverente, como numa igreja. Afinal, aquelas águas inacreditavelmente translúcidas, dão origem a um dos mais famosos – e problemáticos – rios brasileiros.

A região, no passado uma fazenda de gado de vegetação rala e rasteira, devastada pela erosão, foi reflorestada e transformada no Parque da Nascente do Tietê. No entanto, mesmo longe das indústrias e da cidade grande, o local convivia com a poluição. O motivo: até o começo de 2004, quando foram inaugurados os novos banheiros do parque, todo esgoto produzido ali era lançado na natureza. Resolvido o problema, o projeto agora é ampliar a área protegida, hoje de 134 hectares.

O ecoturismo é uma das principais atividades econômicas de Salesópolis. Perde somente para os cultivos de hortaliças, irrigados com água do Tietê. No passado, a região era percurso dos tropeiros, viajantes que traziam mercadorias e escravos do litoral, trocados no interior por sal, chamado “ouro branco”. Um desses antigos entrepostos comerciais, uma casa de pau-a-pique preservada como no passado, abriga hoje um mini-museu sobre o tempo dos escravos e um restaurante. É parada estratégica dos grupos que visitam a nascente do Tietê. “Há 140 anos, minha bisavó tomou posse da casa, antes abandonada, e agora toda a família sobrevive do ecoturismo”, afirma o proprietário, Antônio Camilo Júnior, 37 anos.

A poluição é um risco para os lucros do empresário, pois somente o esgoto gerado pelos 10 mil habitantes na zona urbana de Salesópolis é tratado. Os dejetos dos demais 10 mil que vivem na zona rural são jogados diretamente nos rios. Há outros problemas. Logo que deixa a nascente, o Tietê corre estreito, minguado. Mesmo assim, foi barrado por projetos de hidrelétricas, como a Usina de Salesópolis, a primeira construída no rio, em 1913, no declive de uma cachoeira de 75 metros. Desativada, a usina foi transformada em museu de energia. Perto dali, a Barragem Ponte Nova, erguida na década de 60 para reduzir o volume do rio e amenizar as inundações na capital paulista, é centro de lazer regional, recebendo lanchas e jet-skys nos finais de semana.

A situação começa a ficar crítica quando o rio cruza a cidade de Mogi das Cruzes, recebendo todo o resíduo doméstico dos 300 mil habitantes. Mais adiante, na capital, o Tietê está morto. Não há qualquer tipo de vida e ninguém ousa encostar o pé nas suas águas. Por que continuar convivendo com tamanha sujeira, resultado de um longo processo de intensa urbanização e crescimento econômico? Após várias campanhas, lideranças da sociedade civil conseguiram em 1992 um abaixo assinado com mais de 1 milhão de assinaturas propondo uma faxina geral. Cerca de 1200 indústrias foram obrigadas a reduzir poluentes. Desde 1992, com US$ 1,3 bilhão, foram construídas estações de tratamento de dejetos domésticos, além das ligações das casas à rede coletora de esgoto. Como resultado, atualmente, 62% do esgoto coletado é tratado antes de ir para o rio – até o começo da década de 90, somente 20% recebia tratamento. O projeto é atingir 70% até 2005.

Diante desses resultados, o governo de São Paulo anunciou que, até o final de 2004, 150 passageiros farão viagens experimentais diárias pelo rio Tietê, do viaduto do Cebolão até Osasco, na Região Metropolitana. Sonho ou realidade? Embora algumas ONGs considerem o projeto ousado, a redução de poluentes começa a ser sentida em municípios vizinhos. Embora o lixo carregado pelo rio continue gerando problemas para as cidades do interior, em Pirapora do Bom Jesus, a 50 Km da capital, berçários de peixes – sim, peixes! -- foram encontrados recentemente por uma expedição da Faculdade de Tecnologia de Jaú.

Caprichos do destino: a contaminação, que gera doenças respiratórias na cidade, é um dos motores do turismo. As volumosas espumas de poluição que bóiam no rio, desenhando um cenário típico de filmes sobre catástrofes, atraem milhares de turistas à cidade, garantindo lucros ao comércio. O inusitado atrativo é hoje tão importante para o lugar, que o número de visitantes em busca das espumas que parecem icebergs quase supera a quantidade de romeiros na tradicional festa do padroeiro, Bom Jesus de Pirapora.

A partir desta cidade, o Tietê compõe um novo cenário. Às margens da sinuosa estrada entre os municípios de Cabreúva e Itu, o rio tem a forma de corredeira, encravada no meio de uma vale coberto de Mata Atlântica. Na beira da estrada, mesas e bancos de pedra foram construídos pela prefeitura de Cabreúva, para promover piqueniques, com vista para as águas. O projeto seria perfeitamente compreensível, não fosse o cheiro da poluição. Embora pareça estranho, a vida fervilha nesse cenário. Jequitibás de 400 anos sobrevivem na beira do rio poluído. Perto dali, na bacia do Tietê, a Serra do Japi é uma das áreas de maior concentração de felinos da América do Sul.

Bordejando o rio, viajamos pela Estrada-Parque de Itu, um projeto de conservação ambiental criado pela SOS Mata Atlântica. A ONG mantém no local um núcleo de educação, instalado num casarão às margens do Tietê e ao pé de montanhas que guardam um raro remanescente de floresta. O núcleo recebe grupos de estudantes para caminhadas em trilhas ecológicas, onde aprendem lições sobre a importância das florestas, das águas e da reciclagem do lixo, que desce rio abaixo e se fixa nas raízes da vegetação ribeirinha. Uma das tarefas rotineiras da equipe é medir a qualidade da água. O trabalho é feito por 300 grupos de educação, envolvendo 7.500 colaboradores, em 34 municípios do Alto-Tietê, entre a nascente e a metrópole paulista.

Poucos quilômetros antes de chegar à cidade de Itu, observamos um retrato do abandono. Na beira da estrada, a usina hidrelétrica São Pedro, de 1911, está em ruínas. Os vidros estão quebrados e, a sala de máquinas, inundada. Abandonada, a usina acabou depredada e, muitos equipamentos, saqueados. Na casa onde antigamente morava o chefe da usina é ocupada hoje por mendigos que sobrevivem vendendo a sucata da usina e carcaças de automóveis “desmanchados”, retiradas do rio – o que chega a render R$ 400 por semana.

É difícil acreditar: em questão de poucos quilômetros, o rio se transforma. Passa por um processo natural de limpeza, ao atravessar a região de cachoeiras e corredeiras. A partir da cidade de Porto Feliz, a 110 Km da capital, o Tietê se torna navegável – condição que fez do lugar o ponto de partida dos primeiros bandeirantes rumo ao interior do país, no século 16. Araritaguaba, nome do porto de onde as monções zarpavam, significa no dialeto indígena “local onde as araras cantam”. De fato, o enorme penhasco de pedra sob o qual o antigo porto se situava, apresenta fendas onde as araras faziam ninhos, no passado. No local foi construído um monumento e uma passarela, de onde se avista o rio – e várias fábricas às suas margens.

O rio era fundamental para a vida dos povos antigos. Pesquisas arqueológicas que dão suporte às obras de duplicação da rodovia SP 300 encontraram pontas de flecha, potes cerâmicos, cachimbos de barro, louças e ruínas de fazendas e senzalas. Perto do município de Tietê, após cinco anos de estudos, o Instituto de Pré-História da Universidade de São Paulo descobriu a presença, há 6.000 anos, de povos que viviam da caça, pesca e coleta de vegetais. Os achados batem com os relatos do Padre Anchieta, de que poucos indivíduos conseguiam chegar àquela região: ou morriam alvejados por flechas dos índios ou infectados por malária.

A partir da cidade de Conchas, mais uma vez, a paisagem do Tietê muda. Suas margens passam a ser ocupadas por extensos canaviais, na maior região açucareira do país. Ali começa a hidrovia Tietê-Paraná, onde o governo de São Paulo investiu US$ 2 bilhões, construindo eclusas, ampliando vão de pontes e abrindo canais artificiais para melhorar a navegação, no total de 2.500 Km até a represa da Usina de Itaipu, no Paraná. Embora criticada por ambientalistas, a hidrovia está atraindo investimentos privados e mudando os padrões de vida ao longo de um grande trecho do Tietê.

O rio, neste trecho bem mais largo e limpo, passa a funcionar como uma estrada. É quase frenético o vaivém de gigantescas barcaças, escoando a produção agrícola a um terço do custo do transporte rodoviário, até terminais de onde seguem de trem para o porto de Santos. Um comboio com quatro delas transporta a carga equivalente à capacidade de 200 carretas. No total, 30 mil embarcações grandes e pequenas, incluindo as turísticas, trafegam pela hidrovia, que em 2003 escoou 7 milhões de toneladas de carga, principalmente soja e cana. Instalado no município de Pederneiras, o terminal da empresa Conibra recebe a soja cultivada no cerrado goiano, embarcada em São Simão (GO), de onde toma o rumo do rio Paraná e depois o Tietê, numa viagem de três dias e meio.

Neste trecho, ao invés de lixeira, o rio é veículo do desenvolvimento econômico. O empresário Antônio Carlos Franceschi é um dos beneficiados. Satisfeito com os lucros, ele é dono de duas barcaças que exploram areia do leito do Tietê, extraindo-a a 25 metros de profundidade. Ao todo são 14 mil toneladas mensais, vendidas para depósitos de materiais de construção. Percorremos a hidrovia a bordo de uma pequena lancha com motor de popa. Conversamos com pescadores, vários ao longo do caminho, que jogavam redes para capturar mandiúvas, curvinas e cascudos. Assistimos de perto à atracação das barcaças de cana na Usina Diamante, uma das maiores da região, que produz açúcar e álcool na beira do Tietê. A 10 minutos dali, desembarcamos na fazenda do advogado paulistano Sebastião de Barros Leite, 40 anos, que trocou o stress da capital pela criação de peixes em cativeiro. “Em São Paulo, procurava ficar o mais longe possível do Tietê. Aqui, dependo dele para tudo”, ressalta. Rica em limo e nutrientes, a água do rio abastece os tanques de criação, onde o fazendeiro produziu em agosto 60 mil tilápias.

Na cidade de Barra Bonita, a 300 Km de São Paulo, uma das principais atrações é a eclusa que permite transpor um desnível de 26 metros da barragem da hidrelétrica local, permitindo a navegação ao longo da hidrovia. O almirante Hélio Palmesan, dono do navio San Marino, transporta por ano 300 mil passageiros interessados em conhecer um Tietê bem diferente do que costuma ser visto na capital. Durante o passeio, avistamos ilhas, chaminés de olarias e chácaras a beira-rio com plataformas de onde os veranistas saltam para mergulhos. Numa dessas fazendas, fica um casarão colonial, palco do famoso casamento da Marquesa de Avanhandava, no período imperial, festa que teve como fotógrafo nada menos que o imperador D. Pedro II, que por duas vezes hospedou-se naquele lugar paradisíaco. A casa está sendo reformada para funcionar como pousada.

Devido às boas condições do rio, Barra Bonita foi escolhida como um dos pólos do projeto Navega São Paulo, concebido pelo iatista Lars Grael, hoje secretário estadual da Juventude, Esporte e Lazer. A partir de novembro, 160 jovens por semestre terão aulas de remo, canoagem e marinharia, além de noções de cidadania e meio ambiente. A proposta é demonstrar, na prática, o prazer de se conviver com águas limpas e a importância de se preservar o meio em que se navega.

O prazer de navegar pelo Tietê aumenta na medida em que nos aproximamos da foz, no rio Paraná. Na região de Bauru e Jaú, os lucros do agronegócio se refletem nas ricas marinas, de onde zarpam iates, veleiros e jet-skys para o lazer fluvial. Ao longo do caminho, avistamos bandos de garças e biguás e diversas praias de areias brancas. Em alguns pontos o rio tem 6 Km de largura. Perto do município de Itapura, na foz, a água do Tietê é potável e transparente a ponto de favorecer a prática de mergulho subaquático, para observação de peixes grandes, como o tucunaré, e das estruturas submersas de um barco a vapor que naufragou ali no começo do século. Nas matas vizinhas, preservadas, ouve-se o ruído dos macacos bugios. A paz e a tranqüilidade reinam no ponto final deste rio de várias faces.

 

 

Publicado originalmente na revista Horizonte Geográfico

A cidade está lotada. Uma multidão se aperta nas margens do Rio Tietê, em Anhembi, a 232 Km de São Paulo, para receber as bênçãos do Espírito Santo na tradicional festa do Divino, no dia 29 de maio. Duas canoas cruzam o rio, cada uma com 50 homens a bordo, vestidos de vermelho e branco e bandeiras em punho simbolizando Pentecostes, o espírito divino. Rojões avisam a chegada do cortejo fluvial, naquelas águas azuis espelhadas pela luz dourada do entardecer. Tradicionalmente, nesta celebração, a população local suplica a Deus por paz e prosperidade. Desta vez, contudo, o festejo ganhou um toque especial. O motivo não poderia ser mais surpreendente. Após décadas de sumiço, os peixes estão voltando naquele trecho do Rio Tietê – e muitas famílias voltam a ter a pesca como meio de sustento. Para os pescadores, trata-se de um milagre. Para os ecologistas, um sinal claro de que nem tudo está perdido para o futuro de um rio que agoniza, não muito longe dali, na capital paulista.

O Tietê, embora receba descomunal carga poluidora ao atravessar a maior região metropolitana do país, está mais vivo e dinâmico do que se pode imaginar. Esconde ao longo de seus 1136 Km de extensão, até desembocar no Rio Paraná, paisagens e histórias pouco conhecidas, como pudemos observar na viagem que fizemos da nascente à foz. A região de Anhembi é somente um dos exemplos. A denominação indígena do lugar – por sinal o primeiro nome dado ao rio Tietê nos tempos da colonização -- significa “rio das anhumas”, vistosas aves que habitavam a região no passado e tinham unicórnio e esporões usados pelos nativos para curar várias doenças.

Na estrada que liga o município de Salesópolis à Rodovia dos Tamoios, na região de Mogi das Cruzes, entre as montanhas da Serra do Mar, um desvio de terra de seis quilômetros leva a um sítio modesto, com uma casa e duas trilhas curtas que chegam no mesmo lugar: uma fonte de água, pequena como uma poça, cuidadosamente enfeitada por pedras, musgos e samambaias, além de peixinhos de aquário. No alto da mina, a placa: “Aqui nasce o Tietê – Sociedade Geofísica Brasileira – 1954”. À frente dela, grupos de visitantes, no total 2.500 por mês, na maioria estudantes, se postam em silêncio reverente, como numa igreja. Afinal, aquelas águas inacreditavelmente translúcidas, dão origem a um dos mais famosos – e problemáticos – rios brasileiros.

A região, no passado uma fazenda de gado de vegetação rala e rasteira, devastada pela erosão, foi reflorestada e transformada no Parque da Nascente do Tietê. No entanto, mesmo longe das indústrias e da cidade grande, o local convivia com a poluição. O motivo: até o começo de 2004, quando foram inaugurados os novos banheiros do parque, todo esgoto produzido ali era lançado na natureza. Resolvido o problema, o projeto agora é ampliar a área protegida, hoje de 134 hectares.

O ecoturismo é uma das principais atividades econômicas de Salesópolis. Perde somente para os cultivos de hortaliças, irrigados com água do Tietê. No passado, a região era percurso dos tropeiros, viajantes que traziam mercadorias e escravos do litoral, trocados no interior por sal, chamado “ouro branco”. Um desses antigos entrepostos comerciais, uma casa de pau-a-pique preservada como no passado, abriga hoje um mini-museu sobre o tempo dos escravos e um restaurante. É parada estratégica dos grupos que visitam a nascente do Tietê. “Há 140 anos, minha bisavó tomou posse da casa, antes abandonada, e agora toda a família sobrevive do ecoturismo”, afirma o proprietário, Antônio Camilo Júnior, 37 anos.

A poluição é um risco para os lucros do empresário, pois somente o esgoto gerado pelos 10 mil habitantes na zona urbana de Salesópolis é tratado. Os dejetos dos demais 10 mil que vivem na zona rural são jogados diretamente nos rios. Há outros problemas. Logo que deixa a nascente, o Tietê corre estreito, minguado. Mesmo assim, foi barrado por projetos de hidrelétricas, como a Usina de Salesópolis, a primeira construída no rio, em 1913, no declive de uma cachoeira de 75 metros. Desativada, a usina foi transformada em museu de energia. Perto dali, a Barragem Ponte Nova, erguida na década de 60 para reduzir o volume do rio e amenizar as inundações na capital paulista, é centro de lazer regional, recebendo lanchas e jet-skys nos finais de semana.

A situação começa a ficar crítica quando o rio cruza a cidade de Mogi das Cruzes, recebendo todo o resíduo doméstico dos 300 mil habitantes. Mais adiante, na capital, o Tietê está morto. Não há qualquer tipo de vida e ninguém ousa encostar o pé nas suas águas. Por que continuar convivendo com tamanha sujeira, resultado de um longo processo de intensa urbanização e crescimento econômico? Após várias campanhas, lideranças da sociedade civil conseguiram em 1992 um abaixo assinado com mais de 1 milhão de assinaturas propondo uma faxina geral. Cerca de 1200 indústrias foram obrigadas a reduzir poluentes. Desde 1992, com US$ 1,3 bilhão, foram construídas estações de tratamento de dejetos domésticos, além das ligações das casas à rede coletora de esgoto. Como resultado, atualmente, 62% do esgoto coletado é tratado antes de ir para o rio – até o começo da década de 90, somente 20% recebia tratamento. O projeto é atingir 70% até 2005.

Diante desses resultados, o governo de São Paulo anunciou que, até o final de 2004, 150 passageiros farão viagens experimentais diárias pelo rio Tietê, do viaduto do Cebolão até Osasco, na Região Metropolitana. Sonho ou realidade? Embora algumas ONGs considerem o projeto ousado, a redução de poluentes começa a ser sentida em municípios vizinhos. Embora o lixo carregado pelo rio continue gerando problemas para as cidades do interior, em Pirapora do Bom Jesus, a 50 Km da capital, berçários de peixes – sim, peixes! -- foram encontrados recentemente por uma expedição da Faculdade de Tecnologia de Jaú.

Caprichos do destino: a contaminação, que gera doenças respiratórias na cidade, é um dos motores do turismo. As volumosas espumas de poluição que bóiam no rio, desenhando um cenário típico de filmes sobre catástrofes, atraem milhares de turistas à cidade, garantindo lucros ao comércio. O inusitado atrativo é hoje tão importante para o lugar, que o número de visitantes em busca das espumas que parecem icebergs quase supera a quantidade de romeiros na tradicional festa do padroeiro, Bom Jesus de Pirapora.

A partir desta cidade, o Tietê compõe um novo cenário. Às margens da sinuosa estrada entre os municípios de Cabreúva e Itu, o rio tem a forma de corredeira, encravada no meio de uma vale coberto de Mata Atlântica. Na beira da estrada, mesas e bancos de pedra foram construídos pela prefeitura de Cabreúva, para promover piqueniques, com vista para as águas. O projeto seria perfeitamente compreensível, não fosse o cheiro da poluição. Embora pareça estranho, a vida fervilha nesse cenário. Jequitibás de 400 anos sobrevivem na beira do rio poluído. Perto dali, na bacia do Tietê, a Serra do Japi é uma das áreas de maior concentração de felinos da América do Sul.

Bordejando o rio, viajamos pela Estrada-Parque de Itu, um projeto de conservação ambiental criado pela SOS Mata Atlântica. A ONG mantém no local um núcleo de educação, instalado num casarão às margens do Tietê e ao pé de montanhas que guardam um raro remanescente de floresta. O núcleo recebe grupos de estudantes para caminhadas em trilhas ecológicas, onde aprendem lições sobre a importância das florestas, das águas e da reciclagem do lixo, que desce rio abaixo e se fixa nas raízes da vegetação ribeirinha. Uma das tarefas rotineiras da equipe é medir a qualidade da água. O trabalho é feito por 300 grupos de educação, envolvendo 7.500 colaboradores, em 34 municípios do Alto-Tietê, entre a nascente e a metrópole paulista.

Poucos quilômetros antes de chegar à cidade de Itu, observamos um retrato do abandono. Na beira da estrada, a usina hidrelétrica São Pedro, de 1911, está em ruínas. Os vidros estão quebrados e, a sala de máquinas, inundada. Abandonada, a usina acabou depredada e, muitos equipamentos, saqueados. Na casa onde antigamente morava o chefe da usina é ocupada hoje por mendigos que sobrevivem vendendo a sucata da usina e carcaças de automóveis “desmanchados”, retiradas do rio – o que chega a render R$ 400 por semana.

É difícil acreditar: em questão de poucos quilômetros, o rio se transforma. Passa por um processo natural de limpeza, ao atravessar a região de cachoeiras e corredeiras. A partir da cidade de Porto Feliz, a 110 Km da capital, o Tietê se torna navegável – condição que fez do lugar o ponto de partida dos primeiros bandeirantes rumo ao interior do país, no século 16. Araritaguaba, nome do porto de onde as monções zarpavam, significa no dialeto indígena “local onde as araras cantam”. De fato, o enorme penhasco de pedra sob o qual o antigo porto se situava, apresenta fendas onde as araras faziam ninhos, no passado. No local foi construído um monumento e uma passarela, de onde se avista o rio – e várias fábricas às suas margens.

O rio era fundamental para a vida dos povos antigos. Pesquisas arqueológicas que dão suporte às obras de duplicação da rodovia SP 300 encontraram pontas de flecha, potes cerâmicos, cachimbos de barro, louças e ruínas de fazendas e senzalas. Perto do município de Tietê, após cinco anos de estudos, o Instituto de Pré-História da Universidade de São Paulo descobriu a presença, há 6.000 anos, de povos que viviam da caça, pesca e coleta de vegetais. Os achados batem com os relatos do Padre Anchieta, de que poucos indivíduos conseguiam chegar àquela região: ou morriam alvejados por flechas dos índios ou infectados por malária.

A partir da cidade de Conchas, mais uma vez, a paisagem do Tietê muda. Suas margens passam a ser ocupadas por extensos canaviais, na maior região açucareira do país. Ali começa a hidrovia Tietê-Paraná, onde o governo de São Paulo investiu US$ 2 bilhões, construindo eclusas, ampliando vão de pontes e abrindo canais artificiais para melhorar a navegação, no total de 2.500 Km até a represa da Usina de Itaipu, no Paraná. Embora criticada por ambientalistas, a hidrovia está atraindo investimentos privados e mudando os padrões de vida ao longo de um grande trecho do Tietê.

O rio, neste trecho bem mais largo e limpo, passa a funcionar como uma estrada. É quase frenético o vaivém de gigantescas barcaças, escoando a produção agrícola a um terço do custo do transporte rodoviário, até terminais de onde seguem de trem para o porto de Santos. Um comboio com quatro delas transporta a carga equivalente à capacidade de 200 carretas. No total, 30 mil embarcações grandes e pequenas, incluindo as turísticas, trafegam pela hidrovia, que em 2003 escoou 7 milhões de toneladas de carga, principalmente soja e cana. Instalado no município de Pederneiras, o terminal da empresa Conibra recebe a soja cultivada no cerrado goiano, embarcada em São Simão (GO), de onde toma o rumo do rio Paraná e depois o Tietê, numa viagem de três dias e meio.

Neste trecho, ao invés de lixeira, o rio é veículo do desenvolvimento econômico. O empresário Antônio Carlos Franceschi é um dos beneficiados. Satisfeito com os lucros, ele é dono de duas barcaças que exploram areia do leito do Tietê, extraindo-a a 25 metros de profundidade. Ao todo são 14 mil toneladas mensais, vendidas para depósitos de materiais de construção. Percorremos a hidrovia a bordo de uma pequena lancha com motor de popa. Conversamos com pescadores, vários ao longo do caminho, que jogavam redes para capturar mandiúvas, curvinas e cascudos. Assistimos de perto à atracação das barcaças de cana na Usina Diamante, uma das maiores da região, que produz açúcar e álcool na beira do Tietê. A 10 minutos dali, desembarcamos na fazenda do advogado paulistano Sebastião de Barros Leite, 40 anos, que trocou o stress da capital pela criação de peixes em cativeiro. “Em São Paulo, procurava ficar o mais longe possível do Tietê. Aqui, dependo dele para tudo”, ressalta. Rica em limo e nutrientes, a água do rio abastece os tanques de criação, onde o fazendeiro produziu em agosto 60 mil tilápias.

Na cidade de Barra Bonita, a 300 Km de São Paulo, uma das principais atrações é a eclusa que permite transpor um desnível de 26 metros da barragem da hidrelétrica local, permitindo a navegação ao longo da hidrovia. O almirante Hélio Palmesan, dono do navio San Marino, transporta por ano 300 mil passageiros interessados em conhecer um Tietê bem diferente do que costuma ser visto na capital. Durante o passeio, avistamos ilhas, chaminés de olarias e chácaras a beira-rio com plataformas de onde os veranistas saltam para mergulhos. Numa dessas fazendas, fica um casarão colonial, palco do famoso casamento da Marquesa de Avanhandava, no período imperial, festa que teve como fotógrafo nada menos que o imperador D. Pedro II, que por duas vezes hospedou-se naquele lugar paradisíaco. A casa está sendo reformada para funcionar como pousada.

Devido às boas condições do rio, Barra Bonita foi escolhida como um dos pólos do projeto Navega São Paulo, concebido pelo iatista Lars Grael, hoje secretário estadual da Juventude, Esporte e Lazer. A partir de novembro, 160 jovens por semestre terão aulas de remo, canoagem e marinharia, além de noções de cidadania e meio ambiente. A proposta é demonstrar, na prática, o prazer de se conviver com águas limpas e a importância de se preservar o meio em que se navega.

O prazer de navegar pelo Tietê aumenta na medida em que nos aproximamos da foz, no rio Paraná. Na região de Bauru e Jaú, os lucros do agronegócio se refletem nas ricas marinas, de onde zarpam iates, veleiros e jet-skys para o lazer fluvial. Ao longo do caminho, avistamos bandos de garças e biguás e diversas praias de areias brancas. Em alguns pontos o rio tem 6 Km de largura. Perto do município de Itapura, na foz, a água do Tietê é potável e transparente a ponto de favorecer a prática de mergulho subaquático, para observação de peixes grandes, como o tucunaré, e das estruturas submersas de um barco a vapor que naufragou ali no começo do século. Nas matas vizinhas, preservadas, ouve-se o ruído dos macacos bugios. A paz e a tranqüilidade reinam no ponto final deste rio de várias faces.

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