Return to site

São Paulo (SP) - A cartilha da vez

A agroecologia começa a invadir a carga horária nas escolas de agronomia, tornando o ensino menos suscetível à influência das grandes indústrias

· são paulo

A afirmação de Ondalva Serrano, coordenadora da formação de jovens na Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo [1], reforça uma tendência. “É preciso valorizar o conhecimento de quem convive com a natureza, invertendo a dependência do modelo mercantilista convencional e reconstruindo a capacidade humana de reconhecer alimentos”. Estão surgindo no interior paulista escolas alternativas para agricultores, algumas voltadas à Agroecologia. É uma forma de compensar a deficiência da formação de agrônomos: “a maioria deles é treinada pelas indústrias para passar receita de agrotóxicos”.

[1] Reconhecida pela Unesco em 1994, abrange 1,6 mil hectares de Mata Atlântica e Cerrado em 23 municípios. É cenário de iniciativas de educação, conservação e desenvolvimento sustentável

Jefferson Adorno, produtor de café em Santo Antônio do Jardim (SP), que o diga. O engenheiro eletrônico assumiu a fazenda do pai, após um sequestro relâmpago que o fez refletir e mudar de São Paulo, mas o projeto de apostar no produto ecologicamente correto esbarrou nas limitações da velha cultura agrícola. “Dependíamos do conhecimento do antigo administrador da propriedade, acostumado a práticas hoje inadequadas”, conta Adorno, hoje fornecedor de cafés especiais para empórios que valorizam o diferencial da sustentabilidade. “Busquei cursos e assistência longe da região, porque aqui plantar mato para enriquecer e proteger o cafezal é uma heresia”.

Para Leontino Balbo Jr., sócio e fundador da marca de produtos orgânicos Native, “tudo isso se configura num ativo que dificilmente grandes empresas focadas no resultado de curto prazo teriam condições de desenvolver”. Mas é difícil nadar contra a maré dos métodos já aceitos e validados ao longo do tempo. “Com perseverança e sabedoria, é possível tornar a agricultura biológica [2] um novo costume” (mais emEntrevista)

[2] Produz alimentos saudáveis, sem aplicação de pesticidas ou adubos químicos sintéticos, e emprega práticas como rotação de culturas, adubação verde, controle biológico de pragas e conservação da biodiversidade

No caso dos orgânicos, “a demanda do consumo aumentou bastante, mesmo na crise econômica, mas faltam pesquisas científicas para se atingir maior produtividade e redução de preços”, analisa o engenheiro agrônomo e consultor José Pedro Santiago. Ao longo do desenvolvimento agrícola, ao contrário dos aspectos físicos e químicos, a parte biológica do solo – que é mais complexa – foi pouco estudada.

Somente de duas décadas para cá que a questão se tornou mais presente. “No solo há mais de 30 mil agentes biológicos e só 50 são mais conhecidos”, estima Fernando Andreote, especialista do tema na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP). O potencial lá escondido “deveria ser entendido no conjunto, como uma orquestra, e não como instrumentos isolados”.

De acordo com a Associação Brasileira de Controle Biológico, existem hoje no País 47 empresas que produzem as diferentes categorias de microrganismos, com crescimento comercial de 15% a 20% ao ano. Há 21 registros de patente para uso de insetos ou fungos e bactérias no combate a pragas, segundo o Ministério da Agricultura

Os olhares do mercado se voltam para debaixo da terra. O desafio está em variar o cardápio de microrganismos para dar suporte ao manejo [3] de solos e ajudar a planta a selecionar naturalmente os melhores agentes que atuam no seu desenvolvimento. “Estamos apenas no começo de uma longa história com potencial para inovação e negócios”, enfatiza Andreote.

[3] O manejo correto pode potencializar o que o solo tem a oferecer e aumentar em até 20% a produtividade.

Não faz muito tempo, agrônomos que trabalhavam com biologia do solo eram vistos como “bicho grilo”; hoje, são disputados no mercado. Na virada para o século XXI, na Esalq, uma das mecas da Agronomia, o tema se resumia a uma disciplina com duas horas de aula. Agora, são 16 semanas, com duas horas cada.

Assim, práticas antes “alternativas” aos poucos se tornam realidade comercial, também no controle de pragas [4]. Isso ocorre por pressões ambientalistas e razões econômicas: “o desenvolvimento de uma nova molécula de defensivo químico pode custar em torno de US$ 250 milhões, enquanto o método biológico varia entre US$ 2 milhões e US$ 10 milhões”, revela José Roberto Parra, pesquisador da Esalq/USP que coordenou recente workshop sobre o tema na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

[4] Metade dos 9 milhões de hectares de cana-de-açúcar do País é tratada com controle biológico. Na soja, mais de 5 milhões dos 33 milhões de hectares recebem fungos contra doenças

O uso de agentes naturais é potencialmente mais barato, mas é preciso vencer barreiras para que tenha maior escala e seja mais competitivo. “A disponibilidade é ainda pequena devido à cultura do agricultor e à falta de transferência de tecnologia e de pesquisas em técnicas de amostragem de pragas para a aplicação correta do insumo biológico”. Somam-se a isso as dificuldades de logística e de armazenamento de isentos para tratamento biológico das plantações. Esses desafios, conclui o professor, se aplicam principalmente às grandes áreas agrícolas. Nas menores, o controle é mais fácil.

Na análise de Roberto Araújo, gerente de comunicação e sustentabilidade da Basf, fabricante de insumos agrícolas químicos e biológicos, “a formação é chave, diante de um modelo produtivo mais profissional que exige manejo do solo para aumento da eficiência”. Há quatro anos, a multinacional adquiriu a empresa americana Becker Underwood, tornando-se líder mundial de tecnologias para o tratamento biológico de sementes, corantes e polímeros. De olho em novos perfis de demanda, a companhia apoia a capacitação de profissionais com uma visão mais ampliada, multidisciplinar. Fomenta-se, por exemplo, o uso de ferramentas de “socioecoeficiência” [5] – inclusive para a aplicação racional de agrotóxicos.

[5] Considera aspectos ambientais, econômicos e sociais, comparando produtos ou processos para aumento do desempenho em sustentabilidade

Mas o caminho é longo. “No ensino formal de Agronomia e áreas afins, o processo de renovação dos professores é lento, não condizente com o maior interesse dos consumidores pela origem dos alimentos”, acrescenta Eduardo Trevisan, agrônomo do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), instituição que confere selo socioambiental a produtos como café, cacau e carne .

Publicado originalmente na revista Página 22

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly