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São Paulo (SP) - A era das biorrefinarias

 

Etanol de segunda geração promete expandir a química verde

· são paulo

O apelo ambiental e as novas exigências de mercado aproximaram as usinas de açúcar e álcool à indústria petroquímica, que hoje se volta para o potencial de plantações como garantia de matéria-prima. É crescente a busca de ambos os lados por alianças empresariais capazes de viabilizar negócios estratégicos para o futuro, como as biorrefinarias. Recente estudo da organização Eupean Bioplastics aponta que até 2015 a capacidade mundial de produção de polímeros verdes, incluindo plásticos biodegradáveis ou gerados a partir de fontes renováveis, crescerá cinco vezes em relação a 2011, atingindo anualmente 5,7 milhões de toneladas métricas com faturamento de US$ 20 bilhões, a valores de hoje. O mercado asiático responde atualmente por 34,6% da capacidade produtiva, enquanto a América do Sul tem 32,8%, à frente da Europa (18,5%) e da América do Norte (13,7%).

Reconhecido pelo álcool que abastece carros e indústrias, proveniente da fermentação do açúcar, o Brasil deve avançar na corrida tecnológica global com foco na produção de novos combustíveis, resinas plásticas e outros insumos químicos de alto valor agregado também a partir da celulose existente no bagaço e na palha da cana, hoje desperdiçada em sua maior parte. O primeiro projeto brasileiro em escala comercial deverá entrar em operação até o fim do ano, mediante a parceria entre a GraalBio e a Usina Caité, em Alagoas, para a produção anual de 80 milhões de litros do chamado “etanol de segunda geração”. A ETH Bioenergia, do grupo Odebrecht, se prepara para iniciar a produção entre 2014 e 2015. Na mesma época, a Raiden, fabricante de óleos e fluidos biodegradáveis, deverá inaugurar uma unidade para 400 milhões de litros por ano em Piracicaba (SP).

A Petrobras, que há oito anos estuda a tecnologia, se associou à americana KL Energy para iniciar a produção de insumos verdes, no total de 300 milhões de litros ao ano, entre 2015 e 2016. Até 2030 o país terá três vezes mais biomassa de cana disponível para a conversão em produtos químicos. De acordo com analistas, o aproveitamento do resíduo pode aumentar de 7 mil para 10 mil litros a produtividade dos plantios de cana por hectare.

“Isso permite a expansão do etanol para abastecimento da química verde sem a necessidade de aumento exagerado dos cultivos, com vantagem econômica diante do alto custo da terra”, afirma Alfred Szwarc, da UNICA, entidade que representa a indústria canavieira. A menor pressão sobre o uso da terra significa também ganho ambiental (redução de desmatamento e uso de agrotóxicos) e social (reserva de áreas agricultáveis para produção de alimentos).

Como a química compõe inúmeras atividades industriais, como fabricação de embalagens, construção civil e peças automotivas, a origem renovável conta valiosos pontos na pegada ambiental dos produtos durante o ciclo de vida. O desafio é otimizar custos com tecnologia e aumento de escala. Hoje apenas 3% da biomassa do planeta é aproveitada, segundo a consultoria ING.

“O Brasil tem potencial para se tornar uma potência, porque o mundo busca alternativas nessa linha”, avalia Jorge Soto, diretor de desenvolvimento sustentável da Braskem, produtora de plástico verde. A fábrica de Triunfo (RS) tem capacidade de produzir 200 mil toneladas por ano de polietileno a partir do etanol extraído de aproximadamente 5,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. O projeto de investir R$ 200 milhões para produzir a partir da biomassa também o polipropileno, plástico de largo uso industrial, está pronto e aguarda um ambiente financeiro mais propício. “Faltam incentivos e políticas para o compartilhamento de riscos neste campo emergente”, justifica Soto. O cenário será diferente, diz ele, “quando o governo finalmente abrir os olhos para a economia de baixo carbono”.

A Dow Química e a Mitsui, que formaram joint-venture na usina mineira Santa Vitória Açúcar e Álcool, adiaram o investimento industrial em função do “aumento de custos e das incertezas em torno da legislação de propriedade de terra no Brasil”. Em nota, o grupo afirmou em janeiro que o plástico de origem renovável é de “alta importância estratégica” e manteve em operação a primeira fase do projeto, o cultivo de 20 mil hectares de cana.

“A crise europeia atrasa investimentos”, analisa Jairo Balbo, diretor da Usina São Francisco, acionista da PHB industrial em Ribeirão Preto (SP). Há uma década a empresa produz em escala piloto um plástico biodegradável feito com açúcar e busca parceiros do setor petroquímico para viabilizar a transformação da resina em produtos. “O Brasil corre risco de ficar atrás; e sem uma política a vantagem atual em relação à cana não será eterna”, adverte o pesquisador Peter Seidl, da Escola de Química da UFRJ.

No caso de biorrefinarias, o registro de patentes e o número de publicações científicas crescem 31% ao ano no mundo, sob a liderança de Estados Unidos e China. O Brasil está em 11º lugar no ranking. Os dados constam em diagnóstico realizado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégico (CGEE), a pedido do governo federal, com as tendências globais da química verde, desde o processamento de fibras e álcool, até a geração de energia, a produção de plásticos e fitoterápicos e o cultivo de microalgas para gerar proteína e absorver carbono. O estudo recomendou expressamente a criação de uma rede de pesquisa e de um marco legal para o setor.

“Estamos mapeando as tecnologias mais apropriadas para o país”, revela Alexandre Lopes, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Ele diz que o tema é prioritário para o cumprimento da agenda ambiental e lembra que o BNDES dispõe de R$ 2,5 bilhões para inovações no setor. No fim de 2012, o Conselho de Competitividade da Indústria Química aprovou a proposta de criação de um regime especial de incentivos, a ser negociado no governo. Diversos países já tomaram essa iniciativa. Além de subsídios previstos na China, a União Europeia planejou a criação de parceria público-privada reunindo 30 companhias com fundo de 1 bilhão de euros até 2020.

Estima-se que as biorrefinarias suprirão no futuro próximo 65% de todos os produtos químicos, podendo atingir 100% em 50 anos. Além da questão ambiental, substituir moléculas de fonte fóssil reduz a dependência em relação ao preço da nafta e a cenários geopolíticos de risco em regiões produtoras, como o Oriente Médio. Entre os novos combustíveis, está o butanol -- molécula com poder de combustão similar à gasolina, alvo de acirrada disputa entre as americanas Gevo e Butamax, joint-venture da BP e DuPont. “Entramos na corrida para a produção via bagaço e palha de cana”, revela Jaime Finguerut, do Centro de Tecnologia Canavieira, mantido por grupos produtores de cana. Uma planta demonstrativa será instalada em dois anos no Brasil com investimento de R$ 300 milhões.

Retranca

Indústria de celulose aposta no ‘cimento da árvore’

A utilidade da madeira extraída dos 6 milhões de hectares das plantações de eucalipto, pinus e outras espécies no país vai além da produção de papel, carvão, material de construção ou móveis. As indústrias florestais concentram as atenções no novo insumo que pode abrir um amplo campo de oportunidades para o setor: a lignina. Considerada o “cimento da árvore” devido à função natural de dar solidez ao tronco, a substância é um dos principais resíduos da fabricação de celulose, sendo ultimamente queimada para geração de energia. A combustão do “licor negro” contendo rejeitos tem permitido a autossuficiência energética das fábricas, além da injeção do excedente na rede elétrica, com receita financeira.

“A química verde chega para aumentar significativamente o valor agregado e dar uma finalidade mais nobre ao resíduo”, revela Fábio Figliolino, gerente de inovação da Suzano. A empresa investiu na instalação de uma planta piloto em sua unidade industrial de Limeira (SP) para separar a lignina dos demais componentes, mediante aplicação de gás carbônico. O objetivo é recuperá-la para uso na síntese de produtos químicos de origem renovável – os lignosulfonatos, úteis na produção de concreto, agrotóxicos e insumos da perfuração de petróleo. “Queremos tornar as florestas de eucalipto competitivas”, justifica o executivo, ao lembrar que a lignina é um dos insumos naturais mais abundantes do planeta.

A busca por usos múltiplos das florestas é também estratégia da Fibria, que decidiu investir US$ 20 milhões para deter 6% de participação acionária na empresa americana Ensyn e formar uma joint-venture visando à produção de bio-óleos a partir da madeira, com aplicação no refino de produtos químicos avançados e combustíveis de automóveis e aviões no lugar dos similares à base de petróleo. A base da matéria-prima está nas plantações da empresa brasileira. “Quando substitui fontes fósseis e poluentes, a química verde abre mercados e ajuda a reverter a imagem negativa da indústria florestal, equivocadamente associada à derrubada de árvores para a produção de papel”, explica Vinicius Nonino, gerente de novos negócios.

“Pellets de biomassa destinados ao uso energético valorizam a lignina para exportação”, afirma José Carlos Grubisich, presidente da Eldorado Brasil. A indústria, recentemente inaugurada em Três Lagoas (MS) com investimento de R$ 6,2 bilhões, tem como prioridade atual a celulose, mas já nasce de olho no futuro da química verde. O desenvolvimento da nanocelulose, acrescenta o executivo, pode conferir resistência e dureza às fibras de carbono para aplicação da matéria-prima florestal em substituição a plásticos e outros materiais de origem fóssil.

Publicado originalmente no Valor Econômico

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