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São Paulo (SP) - Conta climática

 

Empresas e governos medem riscos de impactos para decidir investimentos

· são paulo


Diante do sinal de alerta emitido por relatórios científicos recém-divulgados no mundo e no Brasil reduzindo o grau de incertezas sobre as mudanças climáticas, proliferam-se no mercado novas ferramentas de cálculo destinadas a subsidiar governos e empresas na gestão de riscos e nas decisões sobre como investir e se preparar contra enchentes, secas, ondas de calor, avanço do mar, furações e outros impactos – alguns, segundo cientistas, já irreversíveis.

Em território brasileiro, as perdas anuais por enxurradas devem aumentar de US$ 1,4 bilhão para US$ 4 bilhões, a partir de 2030, quando o número de habitantes expostos ao problema crescerá dos atuais 33 milhões para 43 milhões. A previsão consta em estudo da multinacional de resseguros Swiss Re, que calcula globalmente o custo-benefício de investimentos e de ações locais contra eventos climáticos. No caso do Brasil, segundo o método, o prejuízo poderia cair 30% a partir de medidas prévias de adaptação, como planejamento urbano, drenagem e contenção de encostas.

“Em seis anos, o Brasil gastou em medidas emergenciais após desastres o equivalente a dez vezes o montante investido para evitá-los”, afirma a gerente de relações governamentais da empresa, Claudia Melo. O rombo nas contas pode diminuir quando são avaliadas diferentes soluções financeiras de adaptação aos impactos do clima. Uma estratégia é a transferência de riscos para seguradoras, mediante parceria público-privada, sem que os altos custos para a remediação de catástrofes recaiam sobre o governo e, por tabela, sobre o contribuinte.

A análise do caminho mais viável de proteção tem como base a plataforma de indicadores Economics of Climate Adaptation (ECA). Desenvolvida em parceria com Mckinsey & Company, Fundação Rockefeller, ONU, Comissão Europeia e Global Environmment Facility, entre outros organismos, a metodologia mostra como determinada região será afetada no horizonte de 40 anos por alterações no clima e apresenta um estudo de viabilidade econômica de possíveis medidas para enfrentá-las. São considerados dados econômicos e de população e saúde. “Dependendo das variáveis, a proteção financeira por apólices de seguro pode ser mais adequada do que gastos sem planejamento com obras, drenagens e diques para barrar o avanço do mar”, reforça a gerente. Em 2012, os desastres naturais causaram US$ 186 bilhões de perdas no mundo, segundo a empresa.

O governo brasileiro reservou R$ 18 bilhões para um plano nacional de desastres naturais. Para Cláudia, o país caminha devagar, sem saber como quantificar no orçamento os impactos climáticos, estando atrás de vizinhos como Peru, Chile e Colômbia, já acostumados ao risco de terremotos e outras catástrofes. Em sua análise, no cenário de aquecimento global, quando secas e enchentes deverão ser mais severas, “ninguém comprará a ideia de país abençoado por Deus para fazer investimentos”.

Recente pesquisa conduzida pela consultoria Mercer é taxativa: mais da metade dos fundos e gestores de ativos consultados, somando US$ 14 trilhões em recursos, leva em conta futuros impactos do aquecimento global e legislações climáticas na escolha dos investimentos.

“Métodos de mensuração são essenciais para a estratégia das empresas, fontes principais dos US$ 100 bilhões anuais previstos por organismos internacionais para o mundo fazer frente aos efeitos do aquecimento”, avalia Claudio Szlafsztein, representante na América Latina do Global Adaptation Institute (GAI). Em parceria com a Universidade de Notre Dame, nos EUA, a organização construiu índices para mapear o grau de vulnerabilidade dos países às mudanças no clima, com objetivo de nortear negócios do setor produtivo.

Multinacionais de petróleo e gás, alimentos, transporte e infraestrutura já utilizam a ferramenta, até agora aplicada em 176 países. Matriz energética, infraestrutura de estradas e a taxa de crescimento urbano são alguns fatores. “Também é indicada a capacidade de lidar com efeitos extremos do clima e de estar pronto para receber investimentos”, revela Szlafsztein. Na pior colocação entre os países mais vulneráveis e menos preparados está a Coreia do Norte. A Dinamarca lidera os mais capacitados, enquanto o Brasil figura em 58º lugar do ranking.

“Estamos muito mal preparados”, critica Carlos Rittl, coordenador do Programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil. “A ciência mostra que o país está criticamente ameaçado pelos potenciais danos do aquecimento, mas a política atual sobre o tema é uma verdadeira colcha de retalhos, sem coordenação entre diferentes ministérios e mesmo entre governos federal e estaduais,” afirma Rittl. Relatório científico divulgado neste mês pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas trouxe números inéditos sobre elevação de temperatura e mudanças no regime de chuvas no país. Neste ano, a Organização Meteorológica Mundial já havia publicado estudo global apontando o período 2001-2010 como “a década dos extremos climáticos”. As expectativas se concentram agora no novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) com cenários atualizados sobre o aumento da temperatura e das emissões de carbono. Em fevereiro de 2014, a organização lançará outro documento, destinado a orientar o planeta na adaptação aos impactos.

Com respaldo científico, fenômenos climáticos antes considerados “eventos isolados” estão agora associados ao processo de aquecimento global. E a análise de riscos ganha força como algo a ser incorporado por políticas públicas e empresariais. O jogo envolve competitividade. “É urgente identificar em que medida o país é vulnerável e como o problema afetará a economia e os padrões de vida”, sugere Rittl.

Estados como Pernambuco e Minas Gerais se movimentam para aprovar políticas de proteção. A meta do governo federal é concluir um plano nacional para adaptação ao clima até o fim de 2015. “É uma tarefa complexa, porque exige um olhar federativo, com participação de Estados e municípios”, admite Karen Cope, coordenadora do trabalho no Ministério do Meio Ambiente. Ao contrário da mitigação de gases do efeito estufa, o esforço de adaptação aos efeitos do clima está diretamente ligado às características locais.

“Falta um mapa nacional de vulnerabilidade com dados climáticos e socioambientais”, acrescenta Karen, ao lembrar que o maior desafio é construir o diálogo com ONGs e outros setores, iniciado neste ano, e vencer a barreira da falta de conhecimento sobre o tema no governo. A construção de rodovias, portos e outras obras de infraestrutura, como o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, não levam em conta as áreas vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.

 

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Setor energético se prepara para o cenário do aquecimento

 

Instalar um sistema de controle em tempo real com dados de previsão de chuvas e vazão dos reservatórios para calibrar a geração de energia nas hidrelétricas da Bacia do Tietê foi a primeira medida tomada pela AES Brasil nos preparativos contra impactos das mudanças climáticas. “Cenários com previsões futuras estão sendo incorporados ao modelo”, informa Paulo Camillo, vice-presidente de relações institucionais. Ele reforça que os efeitos do aquecimento global já atingem a hidrologia do país. “A percepção sobre o problema deve fazer parte da vida das pessoas e das empresas, sobretudo no setor de energia, usuário intensivo de recursos naturais”, diz o executivo. O reflorestamento das bordas dos reservatórios, com intuito de evitar a erosão que interfere na disponibilidade de água, é também uma medida adaptativa.

Na distribuição de energia, para monitorar o maior vilão -- os ventos que derrubam postes e fiações – foram instaladas estações metereológicas móveis. As subestações estão sendo digitalizadas para permitir o controle à distância, a partir de um centro de operações. “É preciso gerir riscos, porque quedas de energia podem afetar milhões de pessoas e causar grandes prejuízos”, justifica Camillo. A confiabilidade da oferta é destaque no recente estudo sobre a exposição do setor elétrico brasileiro às mudanças no clima, elaborado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds). O trabalho aponta necessidades de adequação à realidade climática, como “reduzir a dependência da geração hidrelétrica diretamente das vazões e assegurar a oferta adicional de energia por meio de outras fontes”. O relatório sugere que as empresas considerem como risco estratégico a possibilidade de mudanças nos padrões de consumo energético devido ao maior uso de refrigeração e ar condicionado, em função da temperatura mais alta.

O tema ganha destaque na Bolsa de Valores. Neste ano, o questionário do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) sofreu recentes alterações para que a adaptação climática tivesse um indicador próprio, distinto da mitigação, mensurando práticas e contribuindo para o tema entrar com mais força na pauta das corporações. “Em nível mundial, já se acredita que a adaptação é um caminho necessário e inevitável”, analisa a diretora de sustentabilidade da BM&FBOVESPA, Sonia Favaretto.

A Private Sector Iniciative, rede mundial criada pela ONU, recomenda o imediato engajamento empresarial. “O avanço é tímido porque o setor empresarial considera o assunto um problema do governo”, ressalta Mariana Nicolletti, coordenadora da Plataforma Empresas pelo Clima, na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ela adverte: “é hora de recuperar o tempo perdido e planejar investimentos para evitar riscos”. O desafio envolve gestão e também tecnologia, inovações adaptativas. Mas a maioria das empresas não despertou: “as incertezas e a dificuldade de acesso a dados científicos pelo setor produtivo são barreiras”.

 

Publicada originalmente no Valor Econômico

Diante do sinal de alerta emitido por relatórios científicos recém-divulgados no mundo e no Brasil reduzindo o grau de incertezas sobre as mudanças climáticas, proliferam-se no mercado novas ferramentas de cálculo destinadas a subsidiar governos e empresas na gestão de riscos e nas decisões sobre como investir e se preparar contra enchentes, secas, ondas de calor, avanço do mar, furações e outros impactos – alguns, segundo cientistas, já irreversíveis.

Em território brasileiro, as perdas anuais por enxurradas devem aumentar de US$ 1,4 bilhão para US$ 4 bilhões, a partir de 2030, quando o número de habitantes expostos ao problema crescerá dos atuais 33 milhões para 43 milhões. A previsão consta em estudo da multinacional de resseguros Swiss Re, que calcula globalmente o custo-benefício de investimentos e de ações locais contra eventos climáticos. No caso do Brasil, segundo o método, o prejuízo poderia cair 30% a partir de medidas prévias de adaptação, como planejamento urbano, drenagem e contenção de encostas.

“Em seis anos, o Brasil gastou em medidas emergenciais após desastres o equivalente a dez vezes o montante investido para evitá-los”, afirma a gerente de relações governamentais da empresa, Claudia Melo. O rombo nas contas pode diminuir quando são avaliadas diferentes soluções financeiras de adaptação aos impactos do clima. Uma estratégia é a transferência de riscos para seguradoras, mediante parceria público-privada, sem que os altos custos para a remediação de catástrofes recaiam sobre o governo e, por tabela, sobre o contribuinte.

A análise do caminho mais viável de proteção tem como base a plataforma de indicadores Economics of Climate Adaptation (ECA). Desenvolvida em parceria com Mckinsey & Company, Fundação Rockefeller, ONU, Comissão Europeia e Global Environmment Facility, entre outros organismos, a metodologia mostra como determinada região será afetada no horizonte de 40 anos por alterações no clima e apresenta um estudo de viabilidade econômica de possíveis medidas para enfrentá-las. São considerados dados econômicos e de população e saúde. “Dependendo das variáveis, a proteção financeira por apólices de seguro pode ser mais adequada do que gastos sem planejamento com obras, drenagens e diques para barrar o avanço do mar”, reforça a gerente. Em 2012, os desastres naturais causaram US$ 186 bilhões de perdas no mundo, segundo a empresa.

O governo brasileiro reservou R$ 18 bilhões para um plano nacional de desastres naturais. Para Cláudia, o país caminha devagar, sem saber como quantificar no orçamento os impactos climáticos, estando atrás de vizinhos como Peru, Chile e Colômbia, já acostumados ao risco de terremotos e outras catástrofes. Em sua análise, no cenário de aquecimento global, quando secas e enchentes deverão ser mais severas, “ninguém comprará a ideia de país abençoado por Deus para fazer investimentos”.

Recente pesquisa conduzida pela consultoria Mercer é taxativa: mais da metade dos fundos e gestores de ativos consultados, somando US$ 14 trilhões em recursos, leva em conta futuros impactos do aquecimento global e legislações climáticas na escolha dos investimentos.

“Métodos de mensuração são essenciais para a estratégia das empresas, fontes principais dos US$ 100 bilhões anuais previstos por organismos internacionais para o mundo fazer frente aos efeitos do aquecimento”, avalia Claudio Szlafsztein, representante na América Latina do Global Adaptation Institute (GAI). Em parceria com a Universidade de Notre Dame, nos EUA, a organização construiu índices para mapear o grau de vulnerabilidade dos países às mudanças no clima, com objetivo de nortear negócios do setor produtivo.

Multinacionais de petróleo e gás, alimentos, transporte e infraestrutura já utilizam a ferramenta, até agora aplicada em 176 países. Matriz energética, infraestrutura de estradas e a taxa de crescimento urbano são alguns fatores. “Também é indicada a capacidade de lidar com efeitos extremos do clima e de estar pronto para receber investimentos”, revela Szlafsztein. Na pior colocação entre os países mais vulneráveis e menos preparados está a Coreia do Norte. A Dinamarca lidera os mais capacitados, enquanto o Brasil figura em 58º lugar do ranking.

“Estamos muito mal preparados”, critica Carlos Rittl, coordenador do Programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil. “A ciência mostra que o país está criticamente ameaçado pelos potenciais danos do aquecimento, mas a política atual sobre o tema é uma verdadeira colcha de retalhos, sem coordenação entre diferentes ministérios e mesmo entre governos federal e estaduais,” afirma Rittl. Relatório científico divulgado neste mês pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas trouxe números inéditos sobre elevação de temperatura e mudanças no regime de chuvas no país. Neste ano, a Organização Meteorológica Mundial já havia publicado estudo global apontando o período 2001-2010 como “a década dos extremos climáticos”. As expectativas se concentram agora no novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) com cenários atualizados sobre o aumento da temperatura e das emissões de carbono. Em fevereiro de 2014, a organização lançará outro documento, destinado a orientar o planeta na adaptação aos impactos.

Com respaldo científico, fenômenos climáticos antes considerados “eventos isolados” estão agora associados ao processo de aquecimento global. E a análise de riscos ganha força como algo a ser incorporado por políticas públicas e empresariais. O jogo envolve competitividade. “É urgente identificar em que medida o país é vulnerável e como o problema afetará a economia e os padrões de vida”, sugere Rittl.

Estados como Pernambuco e Minas Gerais se movimentam para aprovar políticas de proteção. A meta do governo federal é concluir um plano nacional para adaptação ao clima até o fim de 2015. “É uma tarefa complexa, porque exige um olhar federativo, com participação de Estados e municípios”, admite Karen Cope, coordenadora do trabalho no Ministério do Meio Ambiente. Ao contrário da mitigação de gases do efeito estufa, o esforço de adaptação aos efeitos do clima está diretamente ligado às características locais.

“Falta um mapa nacional de vulnerabilidade com dados climáticos e socioambientais”, acrescenta Karen, ao lembrar que o maior desafio é construir o diálogo com ONGs e outros setores, iniciado neste ano, e vencer a barreira da falta de conhecimento sobre o tema no governo. A construção de rodovias, portos e outras obras de infraestrutura, como o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, não levam em conta as áreas vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.

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