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Utinga - Selo socioambienal ajuda na conservação da Caatinga


A preocupação chega a áreas biologicamente bastante sensíveis, na transição entre diferentes biomas. De Salvador, são 433 Km até o município de Utinga (BA), borda mais ao Norte da Chapada Diamantina. No amanhecer, uma névoa úmida paira sobre os cafezais em contraste com o calor árido do sertão. A paisagem representa a transição entre os biomas da Mata Atlântica, com seus tons de verde nas áreas de maior altitude, e a Caatinga que exibe inconfundível vegetação rasteira e retorcida nas baixadas. Por conta dessas características, a região guarda uma biodiversidade singular, de importante valor para a conservação. É um local ecologicamente sensível, palco do paradoxo entre a riqueza natural e a pobreza da maior parte da população, sustentada pela lavoura de subsistência. O cenário é complexo e impõe um desafio: a convivência harmônica entre as espécies nativas e os plantios de café que encontraram naquela região condições favoráveis de clima e relevo para produzir.

 

Na Fazenda Belmonte, pertencente à SARPA Plantações e Comércio naquele município baiano, o trabalhador Ivanildo Balbino produz carvão com lenha residual dos cafezais -- e não da mata nativa, como fazia tempos atrás. “Era uma questão de sobrevivência”, admite Balbino, que morava na vizinhança e vendia o produto irregular a intermediários, fornecedores de siderúrgicas, padarias e lojas que vendem o produto para uso em churrasqueira. Proibido de transitar na fazenda de café com caminhão de carvão, Balbino acabou contratado pelo proprietário para queimar lenha sem ferir a lei. E mudou de vida. Hoje o ex-desmatador opera fornos que produzem carvão para o processo de secagem do café, utilizando troncos e galhos gerados na decepa do plantio. Incentivado pelo fazendeiro, o trabalhador concebeu engenhocas móveis sobre rodas, facilmente transportadas para diferentes pontos do cafezal. “Ganho a metade dos R$ 1 mil mensais de antes, mas estou feliz porque já não preciso me esconder atrás das moitas para escapar da fiscalização”, conta Balbino.

 

Enquanto os cultivos de café ocupam a paisagem mais úmida de maior influência da Mata Atlântica, a usina de beneficiamento da Fazenda Belmonte está instalada a 18 km de distância na parte baixa, com aridez favorável à secagem dos frutos e à melhor qualidade final do produto. “A propriedade é um oásis de micro-clima diferenciado e água boa em abundância”, destaca o fazendeiro de origem suíça Urs Joho, produtor de 12 mil sacos por ano, vendidos para a Europa.

 

Ele chegou à Bahia na década de 1980, quando adquiriu o cafezal do antigo proprietário, que havia vislumbrado as boas condições daquele enclave na caatinga com terras relativamente férteis, além de topografia e clima favoráveis, mão de obra farta e fácil acesso para a exportação através do porto de Salvador. Dez anos depois, para avançar no mercado externo, a fazenda obteve o selo socioambiental dentro de uma visão focada na sustentabilidade, incrementando boas práticas fitotécnicas, ambientais, sociais e trabalhistas.

 

Os efeitos beneficiaram a biodiversidade. Raposas, micos, veados e cotias habitam a propriedade, refúgio de caça proibida. Na região do entorno, ao contrário, a fauna está gravemente comprometida, porque os habitantes tradicionalmente a utilizam para complementar a alimentação. Pássaros, veados, tatus e colmeias são os animais mais cobiçados. Além de esforços para a maior conscientização, a fazenda iniciou a recomposição da vegetação nativa, com potencial de atrair espécies em busca de proteção. Atualmente, quase 40% dos 825 hectares da propriedade estão preservados -- boa parte na Caatinga, onde funciona a unidade de lavagem, secagem e empacotamento do café.

 

Uma extensa área foi abandonada há mais de 10 anos para promover a restauração natural e a beira da represa está sendo reflorestada com amendoim nativo e outras espécies. O objetivo: conservar a água usada na produção e na irrigação, que se faz necessária pelo menos uma vez ao ano, no período de estiagem. “A maior produtividade demanda aumento no consumo de água, mas nos últimos anos o regime de chuvas mudou com a temperatura mais quente”, explica o engenheiro agrônomo Eduardo Gondim, responsável pela gestão dos plantios. “Devido ao relevo montanhoso, os rios da região escaparam da devastação ao longo das décadas, o que não aconteceu com outras importante fontes hídricas da Chapada Diamantina, como o rio Paraguaçu”.

 

Mudanças chegaram ao campo social. Além de água potável, coleta de lixo e melhores sistemas de esgoto, foram construídos alojamentos, escola e casas para os moradores. “É impressionante a maior conscientização para organização e limpeza”, afirma Gondim, lamentando o alto grau de analfabetismo na região e as dificuldades para a contratação de mão de obras especializada. “Isso nos levou a realizar treinamentos específicos para qualificação dos funcionários”.

 

A esperança é que as práticas promovidas pela certificação repliquem na comunidade e mudem hábitos predatórios de pequenos produtores, muitos dos quais trabalham nas fazendas maiores e mantêm roças de café no terreno de suas casas.

Das estradas, avista-se a fumaça das queimadas que avançam na borda da Mata Atlântica. Cultivos de mamão e tomate ocupam as margens dos rios desmatadas. Sem apoio técnico, assentamentos rurais adotam métodos ambientalmente inadequados de produção. Os sinais da degradação chegam à porta de entrada do Parque Nacional da Chapada Diamantina, importante cartão-postal do Brasil. Na estrada de acesso à cidade de Lençóis (BA), fogo no lixão a céu aberto ameaça a vegetação nativa. Curiosamente no local um outdoor conclama para cuidados na roça para prevenir incêndios florestais. Nos acostamentos da rodovia, são expostos para venda móveis de angelim e outras madeiras nativas, indício dos maus tratos à natureza -- a mesma que o café com práticas socioambientais tenta recuperar

A preocupação chega a áreas biologicamente bastante sensíveis, na transição entre diferentes biomas. De Salvador, são 433 Km até o município de Utinga (BA), borda mais ao Norte da Chapada Diamantina. No amanhecer, uma névoa úmida paira sobre os cafezais em contraste com o calor árido do sertão. A paisagem representa a transição entre os biomas da Mata Atlântica, com seus tons de verde nas áreas de maior altitude, e a Caatinga que exibe inconfundível vegetação rasteira e retorcida nas baixadas. Por conta dessas características, a região guarda uma biodiversidade singular, de importante valor para a conservação. É um local ecologicamente sensível, palco do paradoxo entre a riqueza natural e a pobreza da maior parte da população, sustentada pela lavoura de subsistência. O cenário é complexo e impõe um desafio: a convivência harmônica entre as espécies nativas e os plantios de café que encontraram naquela região condições favoráveis de clima e relevo para produzir.

Na Fazenda Belmonte, pertencente à SARPA Plantações e Comércio naquele município baiano, o trabalhador Ivanildo Balbino produz carvão com lenha residual dos cafezais -- e não da mata nativa, como fazia tempos atrás. “Era uma questão de sobrevivência”, admite Balbino, que morava na vizinhança e vendia o produto irregular a intermediários, fornecedores de siderúrgicas, padarias e lojas que vendem o produto para uso em churrasqueira. Proibido de transitar na fazenda de café com caminhão de carvão, Balbino acabou contratado pelo proprietário para queimar lenha sem ferir a lei. E mudou de vida. Hoje o ex-desmatador opera fornos que produzem carvão para o processo de secagem do café, utilizando troncos e galhos gerados na decepa do plantio. Incentivado pelo fazendeiro, o trabalhador concebeu engenhocas móveis sobre rodas, facilmente transportadas para diferentes pontos do cafezal. “Ganho a metade dos R$ 1 mil mensais de antes, mas estou feliz porque já não preciso me esconder atrás das moitas para escapar da fiscalização”, conta Balbino.

Enquanto os cultivos de café ocupam a paisagem mais úmida de maior influência da Mata Atlântica, a usina de beneficiamento da Fazenda Belmonte está instalada a 18 km de distância na parte baixa, com aridez favorável à secagem dos frutos e à melhor qualidade final do produto. “A propriedade é um oásis de micro-clima diferenciado e água boa em abundância”, destaca o fazendeiro de origem suíça Urs Joho, produtor de 12 mil sacos por ano, vendidos para a Europa.

Ele chegou à Bahia na década de 1980, quando adquiriu o cafezal do antigo proprietário, que havia vislumbrado as boas condições daquele enclave na caatinga com terras relativamente férteis, além de topografia e clima favoráveis, mão de obra farta e fácil acesso para a exportação através do porto de Salvador. Dez anos depois, para avançar no mercado externo, a fazenda obteve o selo socioambiental dentro de uma visão focada na sustentabilidade, incrementando boas práticas fitotécnicas, ambientais, sociais e trabalhistas.

Os efeitos beneficiaram a biodiversidade. Raposas, micos, veados e cotias habitam a propriedade, refúgio de caça proibida. Na região do entorno, ao contrário, a fauna está gravemente comprometida, porque os habitantes tradicionalmente a utilizam para complementar a alimentação. Pássaros, veados, tatus e colmeias são os animais mais cobiçados. Além de esforços para a maior conscientização, a fazenda iniciou a recomposição da vegetação nativa, com potencial de atrair espécies em busca de proteção. Atualmente, quase 40% dos 825 hectares da propriedade estão preservados -- boa parte na Caatinga, onde funciona a unidade de lavagem, secagem e empacotamento do café.

Uma extensa área foi abandonada há mais de 10 anos para promover a restauração natural e a beira da represa está sendo reflorestada com amendoim nativo e outras espécies. O objetivo: conservar a água usada na produção e na irrigação, que se faz necessária pelo menos uma vez ao ano, no período de estiagem. “A maior produtividade demanda aumento no consumo de água, mas nos últimos anos o regime de chuvas mudou com a temperatura mais quente”, explica o engenheiro agrônomo Eduardo Gondim, responsável pela gestão dos plantios. “Devido ao relevo montanhoso, os rios da região escaparam da devastação ao longo das décadas, o que não aconteceu com outras importante fontes hídricas da Chapada Diamantina, como o rio Paraguaçu”.

Mudanças chegaram ao campo social. Além de água potável, coleta de lixo e melhores sistemas de esgoto, foram construídos alojamentos, escola e casas para os moradores. “É impressionante a maior conscientização para organização e limpeza”, afirma Gondim, lamentando o alto grau de analfabetismo na região e as dificuldades para a contratação de mão de obras especializada. “Isso nos levou a realizar treinamentos específicos para qualificação dos funcionários”.

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