Return to site

Xapuri - No caminho dos seringais

Legado de Chico Mendes sustenta renda com turismo na floresta acreana

O assassinato do seringueiro Chico Mendes, em 22 de dezembro de 1988, no Acre, marcou para sempre a história da ocupação da Amazônia -- um enredo de heróis e vilões, tema de novelas e minisséries na TV. Extrativistas lutavam contra fazendeiros que queriam tomar posse das terras e derrubar a mata para criar gado. E o tiro calibre 12 que calou o líder maior desse movimento, disparado por pistoleiro em tocaia, ecoou pelo mundo. Chamou a atenção para os problemas da floresta e motivou novos modelos de exploração da natureza. Hoje, vinte anos após o episódio, seringais acreanos buscam alternativas econômicas e se abrem ao turismo. Integram novos roteiros com estruturas que aliam aventura e requinte para receber visitantes qualificados, especialmente estrangeiros, interessados não exatamente em ver índios, animais ferozes ou plantas exóticas. Mas chegam para conhecer o legado de Chico Mendes, símbolo mundial da luta pela preservação da Amazônia, e entender de perto como conviver com a floresta amazônica e explorá-la sem causar danos ecológicos.

O centro desse cenário é o município de Xapuri, onde morreu o seringueiro. A cidade, berço do movimento ambientalista em defesa da floresta amazônica, se localiza a 188 km da capital acreana, Rio Branco. Ao logo do caminho, a bem conservada BR 317, há surpresas: os misteriosos geoglifos, formas geométricas gigantescas escavadas no chão em baixo relevo por povos primitivos. Essas estruturas se tornaram expostas depois que a floresta foi derrubada para a instalação de pastagens, espalhando-se pelos vales dos rios Acre, Iquiri e Abunã, entre Rio Branco e Xapuri. Os geoglifos têm entre 50 metros e 350 metros de diâmetro e são muito antigos: entre 800 e 2.500 anos de idade. Os antropólogos acham que a intenção dos índios autores desses desenhos seria enternecer os deuses para enviar chuvas a seus cultivos agrícolas -- mas os guias turísticos que apresentam esses locais aos visitantes levantam a suspeita de tudo aquilo ser obra de extraterrestres.

Ameaçados pelo avanço da cana de açúcar, esses monumentos geológicos são hoje atrações turísticas, parada obrigatória na viagem para Xapuri. Podem também ser avistados em sobrevôos panorâmicos de monomotor, oferecidos por agências de turismo da região. “O movimento aumentou muito nos últimos dois anos”, conta Francisco Carlito Gomes, dono de uma propriedade onde cria gado e mantém um pequeno bar para lucrar com os visitantes que chegam para observar os geoglifos. “Devem ter sido construídos como trincheira durante alguma guerra; quando chove essas valas não enchem de água”, conta Francisco, com ar de mistério.

Legados do líder-seringueiro

Cerca de 50 km adiante na estrada, o portal da cidade indica o principal atrativo: “Xapuri, terra da Chico Mendes”. No caminho de acesso, observam-se marcos de uma atividade produtiva herdada do antigo movimento dos seringueiros. Entre os exemplos, estão uma imponente fábrica de preservativos que usa o látex extraído da floresta pelos seringueiros, uma indústria de beneficiamento de castanhas e um pólo que abastece redes de lojas nacionais com móveis e objetos de madeira ecologicamente corretos. No centro da cidade, se localiza a modesta casa de madeira onde viveu e morreu o seringueiro que entrou para a História. Aberto à visitação com guias, o local preserva cômodos, móveis e utensílios para contar a história do crime. Próximo dali, a Fundação Chico Mendes guarda a memória do seringueiro e de como seus ideais ganharam força e tiveram continuidade após a sua morte.

Da toalha de banho manchada de sangue após o tiro que o matou, às agendas, documentos e condecorações, são vários os objetos pessoais do seringueiro expostos nesse espaço cultural. Somado a isso, o Museu de Xapuri, instalado num casarão histórico reformado, retrata a história da borracha e seus ciclos de apogeu e decadência desde o final do século XIX. O acervo mostra como esse produto deu origem a um modo de vida próprio da floresta e como o extrativismo, que também aproveita economicamente a castanha, os óleos para cosméticos e a madeira legal, pode valorizar mais as árvores e ajudar a mantê-las de pé.

Para conhecer essa realidade na prática, uma estrada de terra de 33 km em bom estado de conservação, partindo de Xapuri, leva ao Seringal Cachoeira, sede do Projeto Agroextrativista Chico Mendes. Uma charmosa pousada com chalés-luxo em total harmonia com a floresta, construída pelo governo acreano e operada com participação da comunidade, acolhe forasteiros que desejam ter uma experiência turística diferente. Nas “boas-vindas”, são recepcionados por familiares de Chico Mendes que vivem naquele seringal. E logo percebem a fartura de “causos”. Não é para menos: no final da década de 80, o local foi cenário dos embates pelo uso da floresta. Na Colocação Recanto, a comunidade confrontou um grupamento de 45 policiais fortemente armados. Eles protegiam operadores de motosserra que iniciavam um grande desmatamento a mando de fazendeiros. “Na fila da frente estavam as crianças, depois as mulheres e os homens por último, todos cantando o Hino Nacional, e os soldados baixaram as armas”, conta Antônio Teixeira Mendes, o Duda, primo de Chico Mendes. Ele explica: “Lutávamos pelo direito de continuar sendo extrativistas”.

Seringueiros viram guias

O movimento saiu vitorioso e hoje o trabalho vai além de extrair produtos da floresta. Inclui também conduzir turistas em trilhas, como algumas que chegam a cachoeiras com piscinas de águas cristalinas e mirantes para avistagem da copa das árvores. No Caminho do Seringueiro, com duração de três horas, o passeio inclui a extração de látex e a degustação de café com tapioca e pão de milho na casa de uma família da comunidade. Outra opção é a Trilha do Centro: durante uma hora de caminhada, o guia demonstra como se faz a coleta de castanha no alto das palmeiras e aponta a diversidade de plantas medicinais. Com ervas e cascas das árvores, os moradores preparam “garrafadas” contra várias doenças. A cerejeira serve como expectorante, o cedro cura febre e o breu-vermelho é antinflamatório. “Em 25 anos, nunca prescrevi uma pílula”, afirma Artemildo Ribeiro, uma espécie de “pajé” da comunidade, responsável por produzir e distribuir remédios naturais no posto de saúde local. Especializado em fitoterapia, ele aliou a tradição das plantas herdada da avó ao conhecimento adquirido na universidade, atraindo a atenção dos visitantes.

A visita ao Seringal Cachoeira é recomendadas no período de março a novembro, quando as chuvas amenizam. Nas andanças pela floresta, a idéia do roteiro é vivenciar o dia-a-dia de um típico seringal da primeira metade do século XX, com destaque para a exploração econômica que não agride a natureza. Ao invés de assistir às cenas de queimadas e desmatamento impiedoso comuns na televisão, o turista tem a chance de conhecer alternativas a essa destruição. O ponto alto é o chamado manejo florestal -- o corte de árvores nativas para o aproveitamento de madeira mediante critérios técnicos que garantem o mínimo de impactos. No Seringal Cachoeira, o turista vê a derrubada de árvores sem dor na consciência. Além de proteger o ambiente, a prática aumenta o valor da madeira, principalmente para a exportação; induz maior organização da comunidade para produzir mais e melhor, pensando nas gerações futuras. Enfim, cultiva uma nova visão sobre o potencial da floresta, uma cultura que agora se abre ao turismo.

“Os turistas ajudam a divulgar e a valorizar nosso trabalho. A gente fica mais orgulhoso e dono de si”, afirma Sebastião Teixeira Mendes, o Bastião, também primo de Chico Mendes. A experiência de lidar como os perigos por entre as seringueiras é hoje aplicada na tarefa de guiar os visitantes na mata, tornando realidade o sonho do antigo líder. “Chico aconselhava a resistir e permanecer na floresta, sem ir morar nas cidades, pois lá não veríamos bem”, recorda-se Bastião. “Fizemos o que ele queria. Gostaria muito de que estivesse vivo para ver tudo isso que construímos”.

BOX -

Roteiro se integra ao Peru

Para quem deseja aproveitar a longa viagem até o Acre e permanecer mais tempo na região, o caminho pelas terras de Chico Mendes pode ser ampliado para os países vizinhos. De Xapuri, percorre-se mais 59 km de asfalto até a cidade de Brasiléia, na beira do rio Acre. Uma ponte dá acesso à cidade boliviana de Cobijas, no outro lado do rio, zona franca bastante visitada para compra de perfumes, celulares e eletro-eletrônicos importados mais baratos.

De Brasiléia, a BR 317 segue até a cidade de Assis Brasil, tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru, onde há um marco que localiza esse ponto geográfico dentro da área urbana. Na região, recomenda-se visitar o Seringal Santa Quitéria, com vasta floresta nativa amazônica, protegida como unidade de conservação. O lugar é o portão de saída para o Pacífico. De lá, após 230 km de asfalto na Estrada do Pacífico, chega-se à cidade peruada de Puerto Maldonado, onde o turista embarca em vôo direto para Cusco, tradicional destino da cultura andina e das tradições do Império Inca.

BOX

Rio Branco se moderniza

A cidade de Rio Branco, ponto de partida para os roteiros nos seringais, merece ser visitada antes das incursões na floresta. Fundada em 1882, originou-se do Seringal Empresa, criado pelo cearense Neutel Maia. Sua história está intimamente ligada aos ciclos da borracha, aos povos indígenas e ao convívio com a floresta. Nos últimos anos, passou por um processo de modernização. A obra de revitalização da orla do rio Acre, que cruza a zona urbana, deu uma feição moderna à mais ocidental das capitais amazônicas. Prédios históricos foram restaurados e uma nova passarela com luzes coloridas sobre o rio se transformou em cartão-postal.

Na arquitetura, o destaque é o Palácio Rio Branco, sede do governo estadual, construído em 1930 com colunas em estilo jônico. O mercado velho com os peixes frescos que chegam dos barcos, o centro de artesanato, o museu da borracha e a casa dos povos da floresta são atrativos dos citytours oferecidos pelas agências de turismo locais. Na gastronomia, é forte a influência nordestina, paraense, boliviana e árabe. Além dos sucos de frutas amazônicas e da moqueca de tucunaré, degustar rabada ao tucupi, tacacá e pirarucu com leite de coco é um delicioso preparativo antes de pegar as estradas para os seringais.

Nessa lista de atrativos, ganha espaço o turismo étnico. O exemplo mais marcante é o dos terreiros do Santo Daime, que realizam rituais com o chá do cipó amazônico ayahuasca, usado no xamanismo desde o tempo dos incas. A doutrina do Santo Daime foi fundada em 1930, em Rio Branco, por Raimundo Irineu Serra, após um longo período de iniciação com a ayahuasca, na selva fronteiriça do Brasil com o Peru. O ritual consiste na ingestão da bebida acompanhado com orações e hinos ao ritmo de marchas, valsas e mazurcas. Antes restritos às aldeias e lugares reservados, a prática se popularizou e hoje está aberta à visitação turística, fazendo parte da folheteria de atrativos produzida pela Secretaria de Turismo.

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly